Greve pelo clima: onda pela justiça climática invade escolas – João Camargo

As palavras duras de Greta Thunberg na cimeira do clima na Polónia marcaram o ponto de apoio para uma nova etapa na luta global pela justiça climática. Além da Rebelião contra a Extinção e do By2020 We Rise Up, já ocorrem greves climáticas estudantis em mais de uma dezena de países: Bélgica, Escócia, Inglaterra, Suécia, Suíça, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Itália, Canadá. Portugal anunciou a sua, a 15 de Março, em conjunto com vários outros países.

A luta pela justiça climática, atacando de frente as alterações climáticas, os seus responsáveis e a injustiça social, vem ganhando ao longo das duas últimas décadas novos formatos, novos activistas e programas políticos. O confronto com o sistema capitalista, tal como enunciado pela voz de uma jovem de 15 anos na última cimeira do clima, não pode ser evitado: “Não podemos resolver uma crise sem tratá-la como uma crise. Temos de manter os combustíveis fósseis debaixo do solo, e temos de focar-nos na igualdade. E se as soluções dentro do sistema são tão impossíveis de encontrar, então talvez tenhamos de mudar mesmo o sistema.”

Olhamos para o que foram algumas das maiores batalhas dos movimentos sociais nos últimos séculos: o movimento pelos direitos civis das populações negras nos Estados Unidos, o movimento pela Independência na Índia, o movimento contra a Guerra do Vietname ou o movimento das sufragistas pelo direito do voto das mulheres; e é preciso reconhecer que fazer menos do que essas forças fizeram não permitirá sequer começar a minorar uma calamidade ambiental sem paralelo na História.

As alterações climáticas são a maior crise alguma vez enfrentada pela civilização humana, com risco previsto de, mesmo em cenários conservadores, serem destruídas muitas das bases materiais que permitiram o surgimento da civilização (estabilidade das estações, da disponibilidade de recursos e previsibilidade de futuro), e a própria dimensão das populações humanas (dependentes da produção agrícola e da produtividade marinha que estão em mutação pela modificação dos regimes hídricos, climáticos e pela profunda alteração de temperatura e pH dos oceanos). É um sinal de alarme total.

A entrada em cena da comunidade estudantil neste combate é crucial. E não é apenas por serem muitos. Estas pessoas estarão envolvidas no combate pela justiça climática toda a sua vida, porque muito do nosso futuro colectivo será tentar remediar as barbáries ambientais produzidas pelo capitalismo industrial. Não é que não haja outros problemas para resolver, mas se não resolvermos este, a viabilidade de muitos territórios hoje ocupados por populações humanas será cada vez menor, a capacidade de sustentar com recursos básicos como água e alimento comunidades inteiras também. As alterações climáticas já são, mas serão cada vez mais, o grande desestabilizador da natureza, e consequentemente das sociedades humanas. Se bem que os mega-multimilionários se pensem acima de coisas comezinhas como conforto térmico, alimentos, água e segurança, não há dúvidas que a capacidade de adaptação às modificações em curso tem limites bastante curtos. Não é por isso de estranhar as ideias loucas como criar barreiras na atmosfera para travar a penetração dos raios solares ou despejar ferro nos oceanos para aumentar a sua capacidade de absorver dióxido de carbono. Estas ideias só piorariam a situação. Outros vêem solução numa ida para Marte: é uma ideia divertida, mas inútil.

Foi convocada para dia 15 de Março uma greve climática estudantil em Portugal, com manifestações já previstas para Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Leiria, Évora e Faro. Para os já costumeiros críticos, nada justifica não ir às aulas, não ir trabalhar ou ir manifestar-se para a rua. Neste tempo de violência verbal máxima, não é de esperar menos do que os já habituais ataques vergonhosos, mas que só exprimem fraqueza e impotência. Nunca foi tão importante quanto hoje mexer-se. E em Portugal também. O Governo gosta de falar acerca de alterações climáticas e de dizer “coisas acerca” deste combate, mas o seu compromisso não vai além de criar novas áreas de negócio para alguns sectores do capitalismo verde, deixando que quaisquer mudanças relevantes sejam eventualmente alcançadas por benfeitorias dos mercados (veja-se a central de carvão de Sines, com licença prolongada mais uns anos, enquanto a fábrica de painéis solares de Moura encerrava).

Os cinco anos mais quentes alguma vez registados à escala global foram 2016, 2015, 2017, 2018 e 2014 – os últimos cinco anos. 2018 voltou a bater o recorde de emissões de gases com efeito de estufa, com uma enorme aceleração. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera hoje só é comparável com as concentrações de há três milhões de anos atrás, muito antes de haver espécie humana. É altura de pôr os pés ao caminho. Para travar o caos climático não é preciso menos do que mudar os sistemas de produção, transportes, alimentação e indústria. Mas para isso é preciso mudar o próprio poder, as instituições, derrubar multinacionais, governos e políticas impotentes e alterar as relações dentro das comunidades e entre comunidades, empurrando a solidariedade para dentro e a competição selvagem para o lixo da História. Já não temos mais desculpas e já não temos mais tempo. Que venha a onda.


Artigo originalmente publicado no Público a dia 12 de fevereiro de 2019.

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