O primeiro dia do resto da nossa luta

A greve climática estudantil em Portugal representa um avanço inequívoco na luta pela justiça climática e na mobilização dos jovens. Mais de 20 mil pessoas em todo o país, com especial enfoque em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Barcelos, manifestaram-se por um futuro digno e viável, mas vários locais onde não é tão usual haver estas mobilizações, como Bragança, Fornos de Algodres ou Reguendos de Monsaraz, também contaram com milhares de jovens exigindo medidas concretas depois de décadas de inacção nacional e internacional no combate às alterações climáticas e à injustiça social.

 

O manifesto dos estudantes em Portugal pede taxativamente o fim das concessões de petróleo e gás e da lei que as permite, a expansão drástica da rede de transportes públicos, o encerramento das centrais a carvão do Pego (Tejo Energia) e de Sines (EDP), com a expansão da capacidade instalada de energia solar, exigindo que em 2030 a energia eléctrica provenha exclusivamente de fontes renováveis e que a neutralidade de carbono seja adiantada 20 anos em relação ao que propõe o actual governo, passando de 2050 para 2030. Este enorme desafio coloca uma nova fasquia não só a governantes e empresas, mas a todo o sistema económico hoje existente, abalando a ideia de que o business as usual pode simplesmente continuar no meio do colapso climático. E depende da continuação da mobilização a garantia de que estas exigências se materializem.

Esta greve e manifestações foram concretizadas apesar de enormes obstáculos levantados por parte de vários organismos e instituições burocratizadas, entre os quais se destaca, por exemplo, o Conselho das Escolas, cujo presidente fez questão de dizer à imprensa que esperava que houvesse pouca adesão e dando claramente a entender que os alunos que participassem teriam consequências negativas. Embora a ameaça fosse mais velada do que em outros países e contextos, não pode deixar de ser assinalada esta contradição, assim como não pode deixar de ser assinalada a lição de coragem e determinação que dezenas de milhares de estudantes (e não só) por todo o país deram. O conformismo e o temor reverente não servem para o tempo em que hoje vivemos. Como sinal positivo também há que assinalar que em várias escolas professores e estruturas dirigentes estiveram activamente envolvidas e também dinamizaram a greve.

Este foi o primeiro momento de participação política de milhares de pessoas, e é tão importante podermos contar com elas. A greve climática estudantil, internacional, não-violenta, organizada, descentralizada, apartidária, juntou pessoas no interior, nas ilhas, no litoral, nas grandes cidades e no mundo rural. Foi um primeiro momento, mas não será um momento único. Amanhã é o primeiro dia do resto da nossa luta. E estamos aqui para ganhar.

2 thoughts on “O primeiro dia do resto da nossa luta

  1. As manifestações nem sempre têm de ser em massa. Manifestações individuais de preocupação com a sustentabilidade do planeta precisam-se todos os dias. Qual a percentagem destes jovens que vão de transportes públicos para à escola? Qual a percentagem destes jovens que sendo fumadores atiram a beata para o chão? Ou que fazem reciclagem de resíduos? Enfim… no dia a dia é importante alterar pequenos hábitos que mostram tudo de como respeitamos o planeta e o espaço do próximo.

  2. Há sempre alguém, como o caro João Pedro, disponível para dizer aos jovens o que eles têm que fazer. Espero que o sr. João Pedro faça as coisas que está a mandar os outros fazer, sem se preocupar muito em apontar o dedo.
    Eu tenho 40 anos e ando há décadas a ouvir que consumir é votar. Só andava de bicicleta, era vegetariano, usava produtos não testados em animais, etc. No meio disto tudo, via o resto das pessoas mais preocupadas com o carro novo, as roupas novas, o telemóvel novo. Não adianta dizer que consumir é votar, que temos que fazer a nossa parte, quando toda a sociedade, conduzida por uma indústria publicitária sofisticada e muito competente, leva a maior parte das pessoas a comportamentos consumistas e insustentáveis.
    Há que nos juntarmos com os outros, agir colectivamente, obrigar os governos a agir. O individualismo na acção, já se viu, não traz resultados positivos.

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