É tarde demais para ser pessimista – João Camargo

Não foi surpreendente ouvir o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, dizer no Parlamento que uma declaração de Emergência Climática em Portugal seria apenas simbólica. Foi coerente e há que reconhecer a coerência a quem nunca mostrou perceber a química da atmosfera. Jovens por todo o mundo sairão novamente às ruas para demonstrar, num movimento cada vez mais continuado, que a impotência de governantes não produz automaticamente impotência na população.

Os números devem ser repetidos, precisam ser repetidos: segundo o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, para evitarmos um aumento de temperatura acima dos 1,5ºC, precisamos cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030. Será a maior revolução da História da Humanidade e consegui-lo não será apenas de um processo adaptativo, mas sim de uma deslocação fundamental do poder, a retirada de uma força incomensurável do comando dos destinos da Humanidade.

Precisamos repetir: desde 2015 que devíamos ter parado todos os novos projectos de combustíveis fósseis à escala global, para manter o aumento da temperatura abaixo dos 2ºC (a meta indicativa do Acordo de Paris). Com a meta dos 1,5ºC, temos de fechar infra-estruturas fósseis já em funcionamento e que se manteriam ainda no futuro.

Estamos a falar das nações mais ricas do mundo e das empresas mais poderosas que já existiram abdicarem de cerca de 90% do que têm em reservas de petróleo, de gás e de carvão. Porque, ao contrário da obediência cega a regras financeiras e orçamentais, nomeadamente à ideia de que deve haver um equilíbrio nas contas públicas entre despesas a receitas, há um desprezo total pelo equilíbrio orçamental do carbono atmosférico. O problema é que desprezar o orçamento de carbono significa destruir as condições materiais que permitiram o surgimento da civilização humana e condenar a Humanidade a tentar sobreviver num planeta que ser-lhe-á mais agressivo do que nunca.

Uma parte relevante da economia capitalista e das forças políticas que a gerem (sejam partidos, empresas ou think tanks) estão a tentar vender-nos a ideia de que é possível negociar com a química da atmosfera, estão a repetir-nos quase diariamente que é possível convencer moléculas de dióxido de carbono e de metano a não absorverem tanto calor. Temos adultos a subir a púlpitos e a falar directamente para microfones, dizendo a países inteiros que “estão a fazer o que é politicamente possível”. Mas uma molécula de dióxido de carbono não está minimamente preocupada com questões de justiça, uma molécula de metano está-se borrifando para expectativas de rendimentos futuros, as concentrações atmosféricas não poderiam estar mais longínquas da discussão acerca da necessidade da economia crescer ou qual a competitividade de um país em relação ao outro. A única coisa que acontece quando há mais moléculas na atmosfera a receber mais radiação é que fica mais quente. Não é um processo de negociação, com troca de argumentos, retórica, e se conseguirmos uma capa de jornal ou a abertura de um telejornal a dizer que o dióxido de carbono é um extremista ou um radical, ou que o metano é irrazoável nas suas exigências, tal não provocará nenhuma modificação nas características químicas dessas moléculas. E, por isso, quantas mais moléculas forem colocadas na atmosfera, mais nos aproximaremos da inviabilidade.

Segundo a ciência climática, estamos na década zero para podermos evitar ultrapassar concentrações atmosféricas sem retorno que implicarão fenómenos climáticos de escala global que passarão a reforçar o aquecimento do planeta, como o colapso da Amazónia ou a paragem da circulação termoalina. As moléculas de dióxido de carbono que colocarmos hoje na atmosfera ficarão lá em média 120 anos e as de metano em média 12.

Não havendo negociação possível com a química da atmosfera, resta negociar com pessoas que compreendam a química da atmosfera e o que significa a modificação destas concentrações. Os cientistas estão a informar-nos há pelo menos três décadas daquilo que está a acontecer, mas só agora há, pela primeira vez, movimentos de massas em apoio à justiça climática e à acção climática contundente.

A resposta de Matos Fernandes no Parlamento representa a satisfação de ser Campeão do Mundo do Fim do Mundo. Portugal é – de facto – um dos países do mundo que mais políticas climáticas tem aprovado, em particular na última década e meia. Mas o grave é que nem um dos países do mundo com mais políticas climáticas aprovadas está a fazer o suficiente para evitar o colapso climático. Se as políticas de Portugal fossem as de todos os países do mundo, não conseguiríamos travar o aumento de temperatura nos 2ºC, mas os dirigentes políticos escudam-se na inacção de outros para evitarem ter políticas coerentes com o que diz a ciência. Portugal não está a fazer o suficiente. Os outros países ainda menos. Nesta corrida para o precipício a mediocridade e a cobardia política serão factores tão importantes quanto a negação da ciência, em países muito mais importantes e com muito mais responsabilidades do que Portugal alguma vez terá.

Estando no final a campanha eleitoral, agora quase todas as candidaturas assumem discursos de “miss” a reivindicar acção contra a crise climática, depois de a maior parte ter passado anos a fazer exactamente o contrário disso. Não temos tempo para recriminações sobre o passado, mas tampouco temos tempo para nos escudarmos em falsas soluções e na ideia de que este será um processo lento que não afectará o status quo. Foi o status quo do capitalismo global que nos pôs nesta situação, não a resolverá, e só com imensa coragem colectiva conseguiremos ganhar a maior tarefa que alguma vez foi colocada à espécie humana. Os jovens voltam às ruas e o movimento global pela justiça climática está com eles. Coragem, já é tarde demais para ser pessimista.


Artigo originalmente em publico.pt a 23 de maio de 2019.

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