A Finança Devoradora, das Pensões ao Clima – João Reis

Como referenciado anteriormente, a abrangência da finança sobre as nossas vidas e economia é enorme, esta é capaz de o fazer de formas veladas, e o impacto na crise climática é notável. Um exemplo particular disso são os instrumentos de finança pessoal, como planos de pensões, seguros e até certos depósitos bancários. A forma de funcionamento destes está altamente ligada às Gestoras de Ativos, tornando quem usa estas ferramentas de finança pessoal refém das suas dinâmicas, forçadas de facto a emprestar o seu dinheiro a investimentos destas entidades, incluindo, claro, a projetos fósseis.

O que são Gestoras de Ativos? O que têm a haver com a crise climática?

As Gestoras de Ativos são entidades que gerem fundos com o fim de os capitalizar, fazendo-o por duas vias: estas próprias investem os fundos diretamente, ou entregam-nos a outra gestora de ativos para que o faça por elas, mediante um preço.

A forma direta destas capitalizarem estes fundos passa por investimentos, em ações, obrigações e outros produtos financeiros. Como não podia deixar de ser, numa economia viciada em combustíveis fósseis e outras formas de destruição de ecossistemas, o investimento em empresas que operam estas atividades é uma realidade bem presente.

“Só entre as 15 maiores gestoras de ativos a nível global… encontramos acima de 4,81 biliões de dólares aplicados em setores como automóveis, gás, petróleo e produção eléctrica via carvão.”

Analisando os números, por via das Gestoras de Ativos às quais os fundos são por norma atribuídos para investir, e não aos detentores dos fundos – cujas informações são menos disponíveis – estes são expressivos. Só entre as 15 maiores gestoras de ativos a nível global, que gerem diretamente cerca de 20% do valor total de mercados de capitais, como a Blackrock, Vanguard, e a Fidelity, encontramos acima de 4,81 biliões de dólares aplicados em setores como automóveis, gás, petróleo e produção eléctrica via carvão. Estes dados massivos incluem apenas os disponíveis ao público, e não abrangem vários setores potenciadores da crise climática, como a exploração agrícola em áreas florestais, abordando tanto empréstimos, como a compra direta de ações a empresas dos setores.

O que são instrumentos de finança pessoal?

Tratam-se de instrumentos financeiros, com lógicas similares às de grandes investidores focados na capitalização constante, mas focados em cobrir necessidades sociais básicas. Temos como exemplos o complemento de pensões pessoais, tendo digamos, uma pensão prestada pelo estado que é escassa, e assim existem programas para os quais se desconta para a complementar; pensões em casos de doença ou incapacidade, muitas vezes, a única coisa que separa um trabalhador de ficar na miséria após um acidente de trabalho; seguros de vida, sob a forma de pensões de viuvez ou orfandade, que constituem o abono de um cônjuge ou um descendente quando uma sustentadora da família falece prematuramente; depósitos estruturados, existindo em vários graus, podem por exemplo servir para ajudar quem precisa de poupar para adquirir habitação mais tarde.

Para operarem estes instrumentos, investir com Gestoras de Ativos é uma prática constante. Suponhamos que temos um seguro de vida, que no caso do falecimento prematuro da compradora, este paga uma pensão até aos 25 anos dos filhos desta. Supondo um prémio (preço) de 50 euros anuais, a empresa seguradora só espera ter que pagar ao beneficiário num futuro distante, e caso o falecimento prematuro se verifique mesmo. Assim não irá deixar os 50 euros quietos, irá investi-los, e levantá-los caso o falecimento se verifique mesmo no futuro. Para uma pensão por idade teremos uma situação similar, com contribuições mensais que são investidas, e devolvidas de volta às clientes na altura da reforma.

“Pagamos para poder ter um mero seguro de acidentes de trabalho… e sem ter voto na matéria ou sequer noção disso, o dinheiro pode acabar alocado num projeto fóssil a 3000 quilómetros de distância.”

Para investir, as seguradoras recorrem à gestão de ativos, quer fazendo-o elas próprias, quer via uma empresa externa, como as Gestoras de Ativos descritas acima e, claro, com o dinheiro de quem adquire esses serviços a acabar onde as Gestoras de Ativos assim o entenderem.

No que é que esta ligação se traduz?

Por onde o nosso dinheiro passa quando se utiliza estes sistemas privados não é fácil dizer, a parte da informação que é disponibilizada ao público não traça o mapa todo, mas o caminho de imenso dinheiro pertencente ao cidadão comum para os combustíveis é evidente. Pagamos para poder ter um mero seguro de acidentes de trabalho, o pagamento é entregue a uma Gestora de Ativos para ser investido, e sem ter voto na matéria ou sequer noção disso, o dinheiro pode acabar alocado num projeto fóssil a 3000 quilómetros de distância.

Muitas destas funções sociais são grandemente asseguradas pelo estado, na generalidade dos países da Europa continental. Mas mesmo assim é comum recorrer a grande parte desses seguros ou complementos de pensões para fazer face às lacunas nos serviços sociais, traduzindo-se assim numa quantidade do nosso património exposta à agenda de grandes grupos económicos.

Indo além fronteiras, é comum encontrar onde sistemas de segurança social se aproximam de versões completamente privatizadas, com uma componente governamental residual. Como exemplos, podemos ver os Estados Unidos, onde até sistemas de subsídio de desemprego chegam a seguir uma lógica de descontos privados, e o Chile, onde o sistema de segurança social privatizado durante o regime de Pinochet tem sido uma das principais causas que faz as populações sublevarem-se em contestação contra o sistema neoliberal.

Este é um confronto que vai muito além da qualidade ou falta dela nos serviços, é um confronto pelo controlo, neste caso do dinheiro de trabalhadores. Este reflete-se na agenda climática, sob capital de pessoas comuns que é investido em projetos potenciadores do caos climático.

As tentativas por parte do capitalismo de privatizar estes sistemas quando estes são públicos são frequentes, em Portugal tende a ser um debate trazido para cima da mesa pelos alinhados com grupos empresariais prontos a querer assumir o papel da gestão deste. Este é um confronto que vai muito além da qualidade ou falta dela nos serviços, é um confronto pelo controlo, neste caso do dinheiro de trabalhadores. Este reflete-se na agenda climática, sob capital de pessoas comuns que é investido em projetos potenciadores do caos climático, e a tentativa de adquirir mais e mais deste. Mas a tendência não se fica pela agenda fóssil, desde projetos imobiliários, startups tecnológicas de todos os tipos, filmes de Hollywood, a tentativa para obter mais capital para investir é uma constante, passando muitas vezes por tomar controlo daquele que está nas mãos de trabalhadores.

A crise climática está altamente enraizada nas nossas economias, passando por pontos que aparentam ser tão distantes como um seguro de trabalho e uma empresa que se dedica a analisar rentabilidade de ações. O ponto comum incontornável é a finança, peça fundamental do aparato capitalista, e o controlo sobre os canais desta e o âmbito que a permitimos ter sobre as nossas vidas, é forçosamente um ponto fulcral na agenda pela justiça climática.

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