Reflexão pessoal sobre a Emergência Climática – Noah Zino

Como parte da Declaração de Estado de Emergência Climática dentro do Climáximo, decidimos reflectir sobre o que esta declaração significa a nível pessoal. Algumas activistas decidiram partilhar os seus pensamentos e sentimentos publicamente.


Num recanto citadino, sentado pela porta, pinto mais uma vez o meu ver abstrato: com ou sem, mais ou menos trato de amor. Hoje não estou preguiçoso. Aliás, isto resume bastante bem parte do que sinto sobre uma Emergência Climática: “Hoje não estou preguiçoso”, uma frase que tive de repetir diariamente desde que me apercebi que era ativista, ou seja, desde sempre que sou algo parecido comigo mesmo. Desde que me-sou ativamente no mundo.

Afinal, isso é ser ativista: ser tão naturalmente descarado que nos impomos no mundo. Estou tão certo disto, que consigo afirmar que todo o ativista que se digne já proferiu a frase “Tenho cara de pau para isso”. E digo isto com uma certeza muito característica de alguém que se senta em primeiro lugar no chão, mesmo à frente de um agente da autoridade, e saca de uma faixa, em plena Avenida Almirante Reis.

Ser ativista é também aperceber-me que o mundo não tem estofos que são na verdade de pele falsa, mas sim que todos são, em princípio, de pele verdadeira; Que “genuine leather” é apenas uma etiqueta criada pelo capitalismo para a qualidade mais baixa de couro no mercado; E que, já agora, couro é literalmente pele de um cadáver, e ter um mercado para isso em todos os cantos do mundo, demonstra o quão absurdo o mundo é.

Isto é, ser ativista é também aperceber-me que pouco ou nada do que foi criado pelo ser humano nos últimos séculos faz sentido; Que tudo o que aprendi nos livros de história era propaganda-light; E que vivemos num mundo de sociopatas involuntários, ao ponto da expressão “propaganda-light” existir.

Emergência Climática ensinou-me a ter um permanente olhar de detetive-desvenda-segredos sobre o sistema em que vivemos. Foi engraçada a primeira vez em que olhei para o mundo com tantas lentes cor-de-rosa a menos, que as cores já não eram as mesmas: Já não era “combustível”, era “morte líquida”; já não era “comida”, era “cadáver”; e já não era “grupo de loucos marxistas culturais”, eram os meus camaradas.

Mas Crise Climática foi mais que isso, e muito mais que passar a escrever Crise Climática e Emergência Climática com Es e Cs em maiúsculas.

Crise Climática foi também olhar para o mundo como arte e estética, e fez-me entender que há certas coisas que valorizo acima de tudo, no fundo, serviu-me de balança sempre que tive dúvidas sobre ser um romântico irremediável, ou não.

Foram os meus problemas, os meus amores, e os meus poemas que me fizeram, quando passaram por mim de uma forma bem mais real que todas as filosofias do mundo, porque “a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.”, e “as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.”.

Nunca fui um matemático brilhante, nem ninguém com um curso de medicina, mas sempre fui alguém disponível para olhar sobre o mundo com as minhas lentes quase tão irremediavelmente críticas, como românticas. Ah, e claro, para ter cara de pau.

Por entre aragens desta vez antrópicas de quem lá está, ser ativista durante uma crise climática e social, é parar de ouvir as melodias dissonantes do mundo, que são colocadas dentro de nós pé ande pé, pelo capitalismo, e pelos nossos piores instintos. É desvendar os olhares á tua volta que estão tão alienados que te vêm como nada mais que um proprietário de mercadorias, e é, sim, dançar na rua independentemente do que diz toda a gente á minha volta, nem que seja para entreter Foucault no seu caixão.

Emergência climática desvendou-me muitos olhares, mas também me ensinou que há sempre mais olhares por desvendar, já que há pessoas voluntariamente indiferentes, e que são por isso, margem de manobra para permitir o maior roubo da história da humanidade: o roubo do nosso futuro; que para muitos, já aconteceu.

Emergência Climática ensinou-me que já não existe recanto onde me possa abrigar ou estar passivamente, se não quero ser hipócrita. E que, acima de tudo, já não existe estar. Existe agir, e citar Fernando Pessoa tanto que as pessoas à minha volta pensam que tenho um problema, mas acima disso é mesmo capaz de estar o agir, porque, e agora vou citar Fernando Pessoa: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fizerem ali?”.

Ao entardecer, que se tornou para mim as seis da manhã, porque por alguma razão escrevo melhor a essas horas, pinto por uma chama que a cera derrete: ora quente, ora indolente…ora vento…ora fui

One thought on “Reflexão pessoal sobre a Emergência Climática – Noah Zino

  1. Destaco deste lindíssimo texto o seguinte :
    “desde que me apercebi que era ativista, ou seja, desde sempre que sou algo parecido comigo mesmo. Desde que me-sou ativamente no mundo.
    Afinal, isso é ser ativista: ser tão naturalmente descarado que nos impomos no mundo.”
    Sim, é isso mesmo. Parabéns pela sorte, porque nem toda a gente o consegue. E muita força para continuar porque também há momentos maus.

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