Um estado de emergência permanente no Climáximo

Numa emergência, as pessoas e os colectivos que têm propostas de solução precisam de mais calma e mais foco que nunca. Quando uma casa está a arder, o pior cenário seria os bombeiros estarem em pânico junto com os residentes da casa.

Ao mesmo tempo, numa emergência, as pessoas e os colectivos que têm propostas de solução precisam dum compromisso e dedicação que corresponda à crise.

Por isso mesmo, em Setembro passado, declarámos um estado de emergência climática dentro do Climáximo. Assumimos a nossa missão social e política de alcançar justiça social e climática dentro dos prazos ditados pela ciência climática, lançámos um processo profundo de reestruturação interna. Nesta declaração, definimos sete metas de curto-prazo. A sétima meta foi fazermos um ponto de situação e actualização destas medidas em três meses. E aqui vai.

1) Um plano de expansão geográfica com uma clara estrutura organizacional para núcleos autónomos.

Preparámos um guião para criar núcleos do Climáximo. Com uma convocatória aberta e com contactos directos, estamos a explorar possibilidades em Aveiro e também em Badajoz. Falhámos em dar seguimento aos nossos contactos em Braga. Gostaríamos de explorar as possibilidades em Évora e Faro nos próximos tempos.

2) Organizar para mobilizar: aumentar drasticamente a capacidade organizacional do movimento pela justiça climática, via formações regulares sobre estratégia, campanhas e teorias de mudança.

Fizemos um esforço deliberado para inventar, reinventar e abrir novas Formações para Organizadoras. Nomeadamente:

  • Teorias de Mudança e Escalamento de Conflito, com 36 participantes de 16 organizações
  • Comunicação Activista, com 32 participantes de 13 organizações
  • Transição Justa, com 25 participantes
  • Segurança Digital, com 20 participantes
  • Facilitação de Reuniões, com 21 participantes de 9 organizações
  • Formação em Activismo Climático, com 85 participantes que logo organizaram uma acção contra uma cimeira internacional da indústria de carvão.

Internamente também, fizemos duas oficinas de um dia inteiro, sobre estratégia e sobre processos internos.
Começando em Fevereiro, vamos repetir algumas das formações acima e vamos preparar as seguintes novas formações:

  • Solidariedade e Justiça Global
  • Acção Não-violenta
  • Resiliência Psico-social nas Organizações

Vamos também começar a priorizar a formação de formadores.

3) Ir além do business-as-usual da nossa organização: propor uma coordenação de movimento, aberta e comprometida, para articular e coordenar uma estratégia de escalada com a visão de “mudar o sistema com um prazo”.

Organizámos, pela primeira vez, um encontro nacional estratégico, onde ficou decidida uma boa parte dos nossos próximos passos também, nomeadamente a quinzena da acção Fracasso Económico Mundial (13 a 26 de Janeiro), na segunda onda das mobilizações do By 2020 We Rise Up, e o 5º Encontro Nacional pela Justiça Climática (21 e 22 de Fevereiro). Estamos ainda a preparar a terceira onda de mobilizações, a Primavera pelo Clima.

Internamente, integrámos a estratégia no nosso trabalho regular, com um ponto estratégico quinzenal nas nossas reuniões. Aumentámos também drasticamente a nossa capacidade de gerir processos internos, não só com ferramentas para facilitar a integração e capacitação das novas activistas mas também com um aumento de compromisso nos processos.

4) Construir capacidade e investir em organização e coordenação internacional.

Fizemos contactos com várias organizações, plataformas e redes internacionais, e consolidámos as nossas relações com os parceiros já existentes. Recentemente publicámos um ponto de situação destes contactos internacionais no nosso site.

Continuamos a assumir um papel activo na campanha By 2020 We Rise Up na Europa e na 2020 Rebelión por el Clima na Península Ibérica. Estamos também comprometidos a criar um espaço estratégico para escalamento e coordenação em Portugal.

5) Cada uma de nós vai reflectir sobre o que esta declaração significa a nível pessoal.

Várias activistas do Climáximo escreveram textos pessoais depois desta declaração. Alguns destes textos vão ser publicados no nosso site nos próximos tempos. Também dedicámos uma das nossas reuniões ao assunto, para incentivar uma reflexão profunda sobre como lidar com um estado de emergência nas nossas vidas.

6) Promover, através de palavras e acções, a integração e empoderamento de todos os membros do colectivo, tentando contrariar dinâmicas socioculturais de hierarquia de poder e privilégio.

Criámos um Grupo de Trabalho Permanente “Justiça Global”, que está a fazer contactos no Sul Global e também nas organizações em Portugal ligadas às lutas ou às populações do Sul Global. Este Grupo de Trabalho vai dinamizar uma oficina sobre solidariedade em Fevereiro.

Estamos a desafiar o patriarcado reproduzido no colectivo. Decidimos utilizar a ferramenta de discussão em pequenos grupos mais vezes nas reuniões, em que formamos grupos não-mistos. Dedicámos um ponto organizativo a este assunto para reflectir colectivamente. E daí surgiu um grupo de discussão não-misto permanente, “Mulheres e Patriarcado”, para discutir e desconstruir a forma como a opressão do patriarcado se reflete no colectivo e na sociedade, entrelaçando-se com outras opressões no seio do capitalismo, e desenvolver soluções ecofeministas com vista a um movimento pela justiça climática mais saudável e mais forte
Ainda nos falta reflectir activamente sobre outros níveis de privilégio e discriminação cultural, como etnicidade ou idade.

*

Vamos fazer mais um ponto de situação e actualização destas medidas em três meses. Depois, no verão, vamos rever mais profundamente esta declaração e discutir os próximos passos internos.

Primeira avaliação do estado de emergência dentro do Climáximo, 10 de Fevereiro de 2020

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