Reflexão pessoal sobre a Emergência Climática – Vítor Romba

Como parte da Declaração de Estado de Emergência Climática dentro do Climáximo, decidimos reflectir sobre o que esta declaração significa a nível pessoal. Algumas activistas decidiram partilhar os seus pensamentos e sentimentos publicamente.


Trabalhando eu numa Urgência hospitalar, e salvaguardando naturalmente as diferenças de escala, não posso deixar de reconhecer que a palavra “emergência” tem para mim um significado bem real e que tenho a perfeita noção das suas implicações práticas.

No hospital existe uma escala de prioridades para atendimento de situações em contexto de urgência, que vai do “não urgente” até ao “emergente” passando pelo “pouco urgente”, “urgente” e “muito urgente”. Há tempos definidos para estas prioridades e o tempo de espera para atuar em situações emergentes é: zero minutos, ou seja, tem que se atuar imediatamente. Os 10 minutos para as situações muito urgentes, podem ser, neste caso, a diferença entre sobreviver ou não. Transpondo isto para a escala climática, e se considerarmos, por exemplo, anos em vez de minutos, declarar emergência climática implica que o tempo para atuar é: zero anos, ou seja, já.

Esta comparação faz-me pensar que a atuação/reação nos dois casos deveria ser similar: no meu trabalho, quando surge uma emergência, todas as pessoas que poderem largar imediatamente o que estão a fazer e focar energias nessa situação, o fazem. É uma questão de prioridades. E sabemos o que é principal e mais urgente fazer e o que é secundário. Então, se assumirmos, como eu assumo, que o planeta é a nossa casa comum, que o clima é o telhado dessa casa e que esse telhado está a degradar-se a uma velocidade tal, que as telhas estão a rachar e vão começar a ceder, então temos que carregar no botão de emergência, sob pena de todo o interior poder vir a ser destruido. E se carregamos, temos que ter o discernimento de perceber o que é principal fazer e o que é secundário.

Carregar no botão, em termos pessoais, significa que tenho que agir em consonância e dar prioridade a esta situação. É mesmo tudo uma questão de prioridades e eu quero que a luta contra as alterações climáticas e pela justiça climática seja uma prioridade na minha vida. Já o é mas quero que aumente. Já está presente em muitos aspetos do meu dia-a-dia, nas tais ações individuais, cujo efeito é limitadíssimo mas que me fazem sentir bem, em coerência e com o sinal de alerta sempre ligado, mas o mais dificil para mim é o foco e a gestão do tempo. Aumentar a prioridade significa mais tempo de dedicação à luta e mais concentração e quero que o pensamento que policia as minhas ações diárias de consumo, alimentação ou transporte, esteja também presente nestes aspetos, ou seja, no momento de decidir o que vou fazer ou planear, apareça o “polícia climático” que me obrigue a dar-lhe mais tempo e atenção.


Vítor Romba é activista do Climáximo, enfermeiro obstetra e pai.

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