Wrap-up: 5º Encontro Nacional pela Justiça Climática

Relatos das sessões públicas

No fim de semana passado, a quinta edição do Encontro Nacional pela Justiça Climática juntou mais de cem pessoas na Universidade Nova de Lisboa em Campolide. O encontro começou teve dois blocos principais: “Planeta A” sobre as linhas de frente da luta contra as injustiças climáticas, e “Sociedade B” em que foram discutidas soluções políticas à crise climática. Houve também das sessões especiais, uma sobre artivismo e outra sobre os povos indígenas. Abaixo, publicamos os relatos das sessões partilhadas pelas organizadoras que as dinamizaram.

Mais informações:


Sessão de Abertura: Artivismos Climáticos

Na Sexta-feira ocorreu uma sessão especial, tendo por tema “Artivismos Climáticos”. A organização da sessão resulta de uma colaboração entre o Projecto ArtCitizenship (investigação sociológica sobre artivismos na UNova) e a 2degrees Artivism (colectivo portugues de interligação e acção entre/com artivistas). Tivemos 6 condidadxs principais para servir de ponto de partida ao debate: Inês Tartaruga Água (escultora, activista); Paulo Alves (Red Rebels Brigade); Kiko (Ritmos de Resistência Lisboa); João Costa (Campanha Linha Vermelha); Diogo Silva (2degrees Artivism) e Ricardo Campos (ArtCitizenship). Depois da apresentação de cada projecto houve um hora de debate com boa participação do público que encheu a sala.

Uma das frases que marcou foi a do activista João Costa: “o artivismo serve de lubrificante”. Saímos todxs motivadxs para lubrificar as nossas causas pela justiça climática!


BLOCO 1: Linhas da Frente – Planeta A

Neste bloco, no Sábado de manhã, tivemos sessões paralelas focadas nas lutas para mantermos-nos numo Planeta A.

A Falsa Promessa do Gás Fóssil

Gás fóssil é apresentado como mais limpo, mas tem muito mais emissões que as contabilizadas, pelas fugas de metano em toda a cadeia, e pelas emissões de transporte, sobretudo quando o gás é liquefeito (GNL). E estas emissões causam mais aquecimento a curto prazo que as da queima de combustíveis fósseis (metano tem um potencial de aquecimento 86x >).

>Apesar das emissões na UE estarem a diminuir, está a haver investimento europeu em novas infraestruturas de gás, que vão ficar ativas durante décadas, mas que são desnecessários e lesivas, porque nos trancam na dependência do gás. Em Portugal: o governo quer duplicar o terminal de GNL em Sines, e está a pressionar a UE para expandir um gasoduto para exportar gás para a Europa. E estão iminentes 2 furos de prospeção de gás: Bajouca e Aljubarrota.

Existe uma luta de base na Bajouca contra o furo desde 2018, e que em 2019 recebeu o Camp In Gás, 1º acampamento de ação de desobediência civil de massas contra gás. E foi criada o ano passado a Campanha Gás é Andar para Trás. A campanha surgiu para expandir a luta contra o gás a todas as infraestruturas, projetos e investimento em gás fóssil, contra a retórica falsa de um gás “natural” como solução de transição, e por uma transição justa para alternativas limpas a nível nacional. Esta campanha está a organizar um GRR em Lx para apoiar o bloqueio às máquinas da Australis. Precisamos de ajuda – próximo passo: 7 março, 18h, assembleia aberta no Cidac.

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Exportação de Animais Vivos: Impactos Ambientais e Acções de Combate

A sessão realizada pela PATAV, contou com a presença da deputada do Bloco de Esquerda, Maria Manuel Rola, da deputada do PAN, Inês Sousa Real, de um elemento da comissão política do PEV, Joana Silva e de um representante do Livre, Carlos Teixeira, num formato de mesa aberta.

Iniciou-se com uma apresentação sobre o trabalho da PATAV nos últimos anos e a projeção de um vídeo que documenta o embarque de animais nos portos de Sines e Setúbal. Foram apresentadas e discutidas as opções/medidas políticas dos partidos presentes, partidos estes que já em momento anterior tinham submetido na Assembleia da Républica, Projetos de Lei e de Resolução no sentido de travar o impacto económico, social, ético e ambiental deste negócio da produção e exportação de animais vivos.

Concluiu-se que o objetivo pretendido para a descarbonização ainda se encontra distante nomeadamente, se constatarmos ter presentemente um Governo que pelo lado ambiental veio fazer saber ser necessário uma diminuição drástica de emissão de GEE pela redução da produção animal até 2050 e por outro lado, apresenta no curto prazo politicas de incremento à produção que passam pela abertura de novos mercados e canais de exportação de animais vivos. Foi ainda realçada a preocupação pelo facto de estarem a decorrer iniciativas e projetos de grande dimensão para aumento de áreas de regadio por exemplo, através da construção de
novas barragens e que visam a proporcionar mais condições para uma produção intensiva de animais.

Em conclusão: mais exportação significa mais produção e maior produção significa o aumento de efeitos nocivos no ambiente.

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Menos Avião, Mais Imaginação!

Sob o ruído dos aviões, o Kiko da ATERRA, partilhou sobre o projeto de expansão aeroportuária em Lisboa e as iniciativas da campanha – desde que o plano Portela + Montijo foi apresentado como consensual, até hoje, em que se tornou uma tragicomédia, de tão criticado. Sublinhou a necessidade de travar estes projetos este ano, de decrescer a aviação – o meio de transporte com maior crescimento e o mais poluente -, de travar os projetos de extensão, e recuperar a viagem, tornada consumo, enquanto verdadeira viagem. Anunciou um protesto no aeroporto este Sábado, dia 29, e a importância da greve climática de 13 Março como momento para marcar uma posição forte.

Rita, da Habita e Stop Despejos, falou do trabalho destes grupos pelo direito à cidade e o direito à habitação, diretamente ligada à luta contra a expansão aeroportuária, que poderia quase duplicar a pressão turística. Portugal não tem falta de casas – tem excesso de especulação imobiliária, de vistos gold, de turismo. Perante da crise de habitação, a resposta do sistema é construir mais – mas também o sector da construção é dos principais causadores de emissões e destruição ecológica. Denunciou o modelo do capitalismo rentista, que beneficia empresas como a Vinci ou as construtoras, em detrimento das pessoas e do ambiente. Convidou toda a gente par a marcha pela habitação, 28 de Março.

Daniel, via zoom desde Barcelona, partilhou sobre a recém criada  plataforma Zeroport. Junta comissões de bairros e grupos ecologistas, perante a ofensiva da expansão de infraestructuras portuárias e aeroportuarias em Barcelona. Surgiu depois da conferencia da rede Stay Grounded na cidade. O discurso evoluiu de “não à ampliação aqui” para “nenhuma ampliação mais”.

A Lara, ocupante/habitante da ZAD, também por zoom, partilhou o exemplo da luta que triunfou em travar o aeroporto de Notre Dame des Landes em França, em 2018 – após 50 anos de resistencia e 10 anos de ocupação. Falou da importância das pontes que esta resistência permitiu criar, por exemplo entre ocupantes da zona e trabalhadores do aeroporto de Nantes, entre “cidadanistas” e “ilegalistas”; do envolvimento dos ocupantes nas lutas dos trabalhadores ou dos migrantes.

Várias pessoas presentes mencionaram a necessidade de uma abordagem construtiva, de discutirmos e propormos mobilidade mais justa e sustentável, o que a ATERRA se propôs fazer no dia seguinte,  na sessão “Viajar com os pés na Terra”.

O novo aeroporto no Montijo foi aprovado. Começaram as obras de expansão da Portela. 2020 podia ser o ano de mais um ecocídio provocado pela ganância e a corrupção do poder político e empresarial. Mas temos outros planos: torná-lo o ano de uma das maiores vitórias populares e ambientais em Portugal. Com os pés na Terra, que passos devemos dar para travar a expansão aeroportuária, virar a maré e construir uma sociedade mais justa, consciente e ecológica?


SESSÃO ESPECIAL: Povos Indígenas: Justiça Social, Ambiental e Climática

 

 


BLOCO 2: Sociedade B

Para travar a crise climática, precisamos duma mudança de sistema que implica mudar todos os aspectos das nossas sociedades, da produção até ao consumo, da distribuição à gestão. As sessões paralelas neste bloco abordaram várias temas ligadas a esta Sociedade B que visamos construir.

A Indústria Alimentar em Portugal: (Des)construir a Alimentação Para Inverter a Marcha em Direcção à Extinção

O Climate Save Portugal e Animal Save Portugal trouxeram a indústria alimentar a debate.

Uma em cada sete pessoas não têm alimento suficiente e contudo um terço da alimentação são disperdiçados. Todo o processo da indústria alimentar intensiva tem impactos ambientais extremos agravados em Portugal, por acordos internacionais sem qualquer outro sentido que não o lucro, lesando, a níveis ultrajantes, os animais, os solos, as águas, o clima e os trabalhadores, obrigados a trabalhar com a morte de seres a quem foi roubada, legalmente, toda a dignidade. A indústria alimentar, cuja publicidade é extensivamente falsa, é responsável por 99% da exploração, sofrimento e morte, que causamos aos animais e, consequentemente, ao planeta.

Como fazer a comunicação deste tema tão difícil? Cada grupo de ativismo tem uma narrativa que apenas pode ser compreendida por poucos? Sendo um tema tão central nas nossas vidas há que arranjar narrativas complementares e soluções que no seu conjunto se vão aproximando a uma maior tomada de consciência de muitos, o que permitirá reverter este caminho sem sentido. Contudo, importa reconhecer que muitos sinais apontam que muito está a ser feito mas os desafios são enormes.

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Sines Sem Carvão. E Quem Paga a Transição?

Nesta sessão dinamizada pela campanha Empregos para o Clima estiveram presentes intervenientes da GCE – Greve Climática Estudantil e do SIEAP – Sindicato das Indústrias, Energias, Serviços e Águas de Portugal. A apresentação começou com Alice da GCE a sublinhar que a luta pela justiça climática passa pelo lema “Ninguém Fica Para Trás”, que o Cláudio do SIEAP também repetiu na sua intervenção. Apesar dos dois discursos muitas vezes antagónicos (mais empregos vs sustentabilidade), a campanha Empregos para o Clima visa criar uma plataforma de convergência, introduzindo o elemento humano e o elemento de justiça na equação.

O encerramento da central termoeléctrica de Sines está marcada para 2023, apesar do governo não ter nenhum plano estabelecido para os trabalhadores (contratados e muitos mais precários). A maneira em que este processo será gerido vai condicionar a discussão pública sobre todas as outras infraestruturas de combustíveis fósseis que têm de ser encerradas. Por isso, precisamos dum plano social, um plano nosso, para a crise climática e em particular para Sines, que une o movimento laboral e o movimento pela justiça climática.

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Mineração: Ameaça em Terra e no Mar

Nesta sessão, estiveram presentes representantes do Lisboa Contra As Minas, coletivo que surgiu da necessidade de trazer o assunto para a capital e mostrar que a ameaça é real e não afeta só a zona norte e da Sciaena, uma associação de conservação marinha que fundou a plataforma Oceano Livre contra a mineração em mar profundo em conjunto com outras ONG portuguesas.

Mineração, tanto em terra como em mar, é uma contra-ação climática e essa foi a principal mensagem dos dois movimentos, tendo ficado também clara a necessidade de aliar e fazer convergir todos os movimentos anti-mineração numa ação única de proteção do único património que nos vai ajudar a combater eficazmente as alterações climáticas: o natural, tanto por via das florestas como pelo oceano, dois enormes sumidouros de carbono.

Do Encontro, nasceu a vontade de organizar mais eventos e sessões de esclarecimento conjuntas e a certeza de que, em Portugal, tudo faremos para travar o início de novas explorações mineiras, em terra e em mar.


A incrível equipa do PTrevolutionTV fez cobertura directa do encontro inteiro. Podes aceder os vídeos das sessões aqui:

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