Quarentena climática – João Camargo

A luta pela justiça climática não pode parar porque os efeitos da crise climática não param. Esta luta terá de intensificar-se, porque a chantagem dos próximos tempos será monumental.


Nestes dias é impossível falar de outro assunto que não seja o coronavírus. Na imprensa, já o é há mais de um mês, mas nas nossas casas, nas escolas das crianças, locais de trabalho, nas compras, nos parques, nas redes sociais, fomos engolidos pela doença. A Organização Mundial da Saúde já declarou que é uma pandemia e, depois de a Itália fechar o país, Trump proibiu viajantes da Europa de entrarem nos Estados Unidos durante os próximos 30 dias (depois de sucessivas garantias suas da pouca importância do vírus, da segurança do país e de várias teorias conspiratórias, e sabendo-se agora que só não-cidadãos americanos e pessoas sem visto de residência não serão deixadas entrar). Quando os governos já provaram que podem agir de forma determinada quando há um perigo relevante, por que é que as declarações de emergência climática não produziram qualquer efeito no funcionamento das economias e sociedades?

Os efeitos da crise climática são incomparáveis em qualquer medida com os do coronavírus: as mortes associadas somente à poluição pela queima de combustíveis fósseis são na ordem dos 11.500 por dia (4,2 milhões por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde), a que acrescem todas as vítimas dos eventos climáticos extremos – ondas de calor, incêndios florestais, cheias, deslizamentos de terras, furacões, tufões, tempestades tropicais –, as vítimas dos surtos de doenças que se lhes seguem, os milhões de pessoas que têm de abandonar as suas casas e os seus territórios porque as secas tornam-nos inviáveis para a produção alimentar, e todas as vítimas dos conflitos armados que, com outras capas, sejam políticas, económicas ou religiosas, se seguem a essas catástrofes. Isto não é o futuro, é o que já está a acontecer. A luta pela justiça climática tenta evitar a entrada em funcionamento de fenómenos climáticos de grande escala que tornarão largas partes dos territórios hoje ocupados por populações humanas inabitáveis e outras partes cada vez mais extremas e degradadas.

As declarações de emergência climática do ano passado foram inequivocamente uma fraude política perpetrada por inúmeros governos de todo o mundo, tal como é amplamente uma fraude a luta contra as alterações climáticas dentro do capitalismo. Este não é um argumento retórico, esta fraude pode ser medida e aferida por instrumentos de medição: 2019 foi o ano com mais emissões de dióxido de carbono de sempre, batendo o recorde de 2018, que bateu o recorde de 2017. O lançamento de capacidade de produção eléctrica a partir de energias renováveis é inútil quando não tira do sistema fósseis: as renováveis não tiram dióxido de carbono da atmosfera. Os seis anos mais quentes desde que há registos foram os últimos seis: 2016, 2019, 2015, 2017, 2018, 2014. Desde que se reconheceu cientificamente a existência de alterações climáticas e a sua origem na acção humana, em particular nas emissões associadas à queima de petróleo, gás e carvão, a única altura em que se reduziram as ditas emissões foi durante a crise financeira, em 2008. E agora.

O coronavírus foi a faísca: a economia mundial, que já estava em queda ligeira (em 2019 a produção desacelerou na China e na Índia, estagnou na Europa e caiu na Alemanha e Japão), caiu a pique. Grandes capitalistas que estavam à espera dos sinais para desinvestir interpretaram o surto de coronavírus e o seu aparecimento fora da China como os sinais de que ia começar a queda, e venderam acções e activos financeiros no fim de Fevereiro: na linha da frente, BlackRock, Goldman Sachs, Citigroup, assim como Google, Apple e Amazon. Simultaneamente esgotaram os títulos de tesouro americano, apostando uma vez mais no Estado como a fonte segura do retorno. As quedas nas bolsas mundiais foram gigantescas e a Arábia Saudita aproveitou a convulsão para aumentar a produção petrolífera e fazer o preço do petróleo descer a pique (coincidindo com uma queda na procura), com a Rússia a juntar-se a estes e ameaçar a indústria dos Estados Unidos (e, quem sabe, as renováveis).

Ao mesmo tempo, na economia real, as quarentenas param as fábricas da China, deixando de sair as peças para as fábricas do ocidente que, poucas semanas depois, deixam de trabalhar e começam a cancelar encomendas, com todo o sistema de produção just in time a parar. O comércio e o consumo caem a pique, as viagens também, as pessoas são aconselhadas a ficar em casa, as importações e exportações abrandam e todas aquelas economias penduradas nos mantras das escolas de economia neoliberais do turismo e da internacionalização ficam com as calças na mão (sem grande esperança de recuperar no curto prazo). Com a vertiginosa queda económica, as emissões também caem, mas eles querem que seja só soluço. As grandes empresas já estão de mão esticada para pedir os resgates: em Portugal, o Governo flexibiliza o lay-off e nos EUA Trump já considera um bailout à indústria de fracking de petróleo e gás. O mesmo acontecerá com as entidades financeiras se não houver uma recuperação milagrosa nas próximas semanas (tudo indica o contrário). Todas as pessoas que viveram e se lembram da crise financeira de 2008 devem lembrar-se da facilidade com que os governos de todo o mundo abriram os cordões à bolsa para resgatar o sistema financeiro, para depois agravarem as duas dívidas públicas, mantendo não só os resgates como os futuros lucros na mão de privados. Passaram 12 anos e a situação só piorou. Que não nos lembremos de esquecer que depois de pagarmos a crise da banca, pagámos a crise do Estado que salvou a banca. A austeridade, que apenas abrandou, é o mecanismo que neste capitalismo serve para fazer quem trabalha sustentar directa e indirectamente as castas dirigentes do sistema.

Os governantes dir-nos-ão que é preciso garantir a estabilidade da economia, mas não é nada disso, o que eles querem a garantir é a estabilidade dos 1%, que é a instabilidade da economia, da sociedade e do planeta. Na famosa “ironia do risco”, terão a tendência para prometer-nos e dar-nos cada vez mais “garantias”, enquanto nos aproximamos da concretização dos riscos que estavam identificados há décadas:

  • a fragilidade dos sistemas públicos (em especial o de Saúde) depauperados por décadas, o que os tornou frágeis para lidar com uma pandemia grave, mas bastante controlável;
  • o vazio das economias voltadas para uma globalização dominada pelos interesses dos abutres multinacionais e pelos preços baixos porque não incluem a destruição social nem a destruição ambiental;
  • a degradação climática, acelerada pelo crescimento económico intrinsecamente ligado aos fósseis e ao colapso.

A luta pela justiça climática não pode parar porque os efeitos da crise climática não param. Esta luta terá de intensificar-se, porque a chantagem dos próximos tempos será monumental: para resgatar as indústrias fósseis que têm de ser desmanteladas; para ajudar os grandes grupos banqueiros e financeiros a retomar os seus lucros no crescimento extractivista; para chantagear com desemprego e austeridade milhões de pessoas que, em boa medida, trabalham horas a mais em empregos inúteis (ou prejudiciais à sociedade) para produzir coisas desnecessárias por salários miseráveis. Esta chantagem será orientada para uma e uma só coisa: travar a revolução produtiva, económica e política de que precisamos para nos salvarmos enquanto civilização. Usemos este tempo de quarentena para nos prepararmos. Preparemo-nos para voltar às ruas.


Artigo originalmente publicado no Publico.pt no dia 16 de Março de 2020.

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