Tossir meses, doente anos – As ondas de choque económicas do Coronavírus – João Reis

A necessária paragem forçada na economia em reação ao Coronavírus afeta as nossas vidas a curto prazo, mas a forma como a economia mundial está estruturada certifica-se que as ondas de choque terão efeitos que estão para durar

Voos cancelados, zonas de turismo desertas, restaurantes vazios, shoppings com trabalhadoras a reivindicar o direito de ficar em casa, fábricas com a produção interrompida, cafés em zonas de escritórios e faculdades com stocks por vender. A crise do Coronavírus está a afetar de forma imediata a vida das pessoas que contraem a doença, mas também a de todas as outras que de alguma forma são afetadas pelas restrições ao movimento e contacto, sendo forçadas a trabalhar a partir de casa, ou a não trabalhar de todo, sob o risco de poderem incubar e transmitir o vírus COVID-19.

Apesar de não parecer evidente, as consequências para a economia são imensas, e podem ser duradouras. Esta arrisca mesmo o colapso mundial, levando-nos a todas com ela para o fundo, e isto está relacionado com a forma como esta está construída dentro do capitalismo. À primeira vista poderíamos imaginar apenas um período de várias semanas em que haveria menos refeições consumidas em restaurantes, menos aparelhos da Apple comprados e menos pessoas a viajar de avião, e assim que a ameaça do vírus desaparecesse, um retorno à normalidade. No entanto, tal como um elástico que após esticado com força pode não recuperar a forma original, a atividade económica certamente não voltará ao mesmo estado assim que o vírus deixe de ser uma preocupação corrente.

Tal como um elástico que após esticado com força pode não recuperar a forma original, a atividade económica certamente não voltará ao mesmo estado assim que o vírus deixe de ser uma preocupação corrente.

Olhemos primeiro para o caso drástico do preço do petróleo. No início de Março, após a constatação de que muitas fábricas pelo mundo fora não iriam estar a funcionar e muitos carros não iriam sair de casa para deslocar trabalhadoras aos seus locais de trabalho, a procura caiu. A produção de petróleo é decidida por um punhado de países, e como usual reuniram para decidir o quanto cortar a produção, de forma a impedir uma derrocada do preço. A surpresa aconteceu quando a Rússia e a Arábia Saudita não chegaram a acordo e o preço do petróleo teve uma queda acentuada, descendo quase um terço em poucos minutos e ficando abaixo dos 30 dólares por barril. 

Por sua vez, a queda do preço do petróleo tem um efeito nas mecânicas de investimento na economia. Olhando para o caso da Galp, a principal petrolífera em Portugal, esta viu o preço de cada ação a cair de 12,38 para 8,57 euros ao longo da semana. Esta queda deve-se em grande parte ao facto de a Galp ser vendedora de um produto que tem em stock e acabou de perder imenso valor, e de ter explorações de combustíveis fósseis espalhadas pelo mundo, cujo valor potencial também diminuiu. Os accionistas da Galp não existem no vazio, fazem parte do grupo de investidores (capitalistas) que investem na economia. Para o fazerem podem usar as ações da Galp de duas formas: usar o dinheiro que provém dos dividendos (lucros) noutros projetos na economia, ou pedir dinheiro emprestado utilizando as ações da Galp como garantia. A partir do momento em que a Galp está em pior forma financeira, tanto os dividendos serão menores, como os empréstimos obtidos tendo como contrapartida ações da Galp serão menores, levando assim a uma quebra do investimento total na economia. O que à partida seria uma benção, uma queda do preço de uma matéria prima e redução de emissões, pode revelar-se o contrário, quando o investimento na economia acaba reduzido.

Além do efeito no investimento, há também uma quebra no consumo, como por exemplo está a acontecer em massa no setor do turismo em Portugal. Os turistas que deixam de se deslocar deixam também de consumir viagens de avião, jantares em restaurantes, camisolas do Cristiano Ronaldo e estadias em hotéis. Os gastos que os turistas deixaram de fazer são as receitas que os empresários dos respetivos setores deixaram de ter, e como é necessária receita para gastar, os próprios empresários deixam de poder gastar, digamos em electrodomésticos, roupa e carros, entre muitas outras coisas, o que por sua vez significa uma quebra nas receitas dos vendedores de electrodomésticos, roupa e carros, prejudicando assim os seus gastos, e o ciclo assim continua, alastrando-se e deprimindo toda a economia.

Os gastos que os turistas deixaram de fazer são as receitas que os empresários dos respetivos setores deixaram de ter, e como é necessária receita para gastar, os próprios empresários deixam de poder gastar

Com a diminuição do consumo, diminui o volume de negócios das empresas, começa a escassear o dinheiro e estas recorrem a cortes na despesa. Uma parte importante da despesa são os gastos com pagamento de salários e por isso rapidamente se seguem os despedimentos. Como quem não trabalha não recebe, quem não trabalha também não gasta e assim os despedimentos provocam mais uma redução nos gastos totais na economia. Podemos assim chegar a situações em que ninguém tem trabalho porque ninguém gasta, e em que ninguém gasta porque ninguém tem trabalho. Isto torna-se perigosamente ameaçador no caso do turismo em Portugal, onde há muita utilização de mão de obra precária, pelo que não será surpreendente acontecerem despedimentos em grande escala muito em breve.

A situação parece grave? Quando nos recordamos dos bancos, peça central na economia, a situação ainda se torna pior. As empresas tendem a depender de empréstimos para funcionar, recorrendo a estes para executar investimentos correntes, e utilizando depois as receitas futuras para os pagar. O que acontece quando as receitas futuras não se concretizam? Os empréstimos não são pagos, logo os bancos não receberão dinheiro para efetuar futuros empréstimos, estancando assim os fluxos na economia, levando a uma quebra adicional no investimento.

O que acontece quando as receitas futuras não se concretizam? Os empréstimos não são pagos, logo os bancos não receberão dinheiro para efetuar futuros empréstimos

A situação dentro da banca ainda se pode agudizar mais quando consideramos a economia hiperfinanceirizada do mundo atual. Em primeiro lugar o consumo nas economias capitalistas modernas é altamente assente no financiamento, não só para bens mais caros e duradouros, como carros e casas, mas também em grande medida para bens como aparelhos electrónicos. A impossibilidade de pagar estes bens a pronto implica a criação de mais um nó na economia baseada em crédito. 

Em segundo lugar, a alta finança que se desenvolveu a partir dos anos 70 passou a entrincheirar-se em todo o sistema financeiro mundial. Assim, cada vez mais, a atividade dos bancos deixou de ser a concessão de simples empréstimos, passando para a especulação, baseada na concessão elevados volumes de empréstimos para a apostas dignas de casino, usando técnicas e produtos financeiros quase só perceptíveis para os que dedicam a sua vida a tal. Em caso de falha destas apostas, o caos é assegurado, à medida que os empréstimos contraídos para especular deixam de ser pagos, e os preços de todos os ativos financeiros caem a pique, tal como esteve para acontecer com o fundo especulativo Long Term Capital Managment, nos anos 90, até este ser resgatado pela Reserva Federal Americana e outros bancos.

Toda esta malha de interações acaba por se conectar. Por exemplo, à medida que as pessoas ficam desempregadas, também se tornam incapazes de pagar as suas rendas, levando à depreciação do preço dos imóveis, o que por sua vez leva a uma queda do valor dos portefólios dos investidores, e assim os níveis de investimento sofrem. A isto junta-se a tremenda hiperligação que existe entre os mercados a nível mundial. Por exemplo, quando uma fábrica deixa de funcionar na China – o que de facto aconteceu em grande escala quando a quarentena foi instalada para combater o Coronavírus – esta pára de comprar matérias primas, digamos do Brasil, e deixa de produzir componentes para vender, provocando a paragem de outras fábricas, digamos na Alemanha, assim propagando a contração económica pelo mundo fora.

Quando uma fábrica deixa de funcionar na China – o que de facto aconteceu em grande escala quando a quarentena foi instalada para combater o Coronavírus – esta pára de comprar matérias primas, digamos do Brasil, e deixa de produzir componentes para vender, provocando a paragem de outras fábricas, digamos na Alemanha.

Quando consideramos a existência do Estado a situação torna-se ainda mais complexa. Com a quebra na atividade económica, este perde a sua fonte de receitas, impostos sobre essa mesma atividade. Quanto maior for a necessidade de equilibrar as contas, maior será a necessidade de obter novas receitas: subir impostos, ou cortar em despesas como o Serviço Nacional de Saúde e os salários dos funcionários públicos. Qualquer uma das duas atuações prejudica a atividade económica no curto prazo (embora de forma diferente), gerando mais tendências depressivas.

Estas são as mecânicas típicas do desenrolar de uma crise. No entanto, esta conta com ingredientes extra, já que não parte só de um choque na procura, que ocorre quando a economia deixa de ter capacidade para absorver a sua produção na sequência de uma crise financeira. Estamos também na face de um choque de oferta, em que o aparelho produtivo deixa de poder funcionar, com fábricas e lojas forçadas a encerrar, deixando de produzir e de vender. Estes choques na procura e oferta potenciam-se um ao outro. 

Outro aspecto que diferencia esta crise das anteriores é a sua incidência geográfica. Olhando para a crise do subprime que arrancou em 2008, esta começou como uma crise Americana, espalhando-se depois para todo o mundo. No caso do Coronavírus, apesar de este ter aparecido na China, os choques económicos têm-se dado numa sequência rápida por todo o mundo, virtualmente em todo o lado ao mesmo tempo, ou seja, a crise é propagada de todo o lado, para todo o lado, simultaneamente. 

Por último, os meios que os estados detêm para combater crises encontram-se limitados. Por um lado os estados detêm altas dívidas, impedindo-os de pedir dinheiro emprestado para aumentar os seus gastos, por outro lado os bancos centrais têm menos possibilidades de ajudar os bancos, visto que as suas taxas de juro já se encontram em valores quase nulos.

Por último, os meios que os estados detêm para combater crises encontram-se limitados.Por um lado os estados detêm altas dívidas, impedindo-os de pedir dinheiro emprestado para aumentar os seus gastos, por outro lado os bancos centrais têm menos possibilidades de ajudar os bancos, visto que as suas taxas de juro já se encontram em valores quase nulos.

 

Quanto à alavancagem financeira (utilização de empréstimos) desmesurada e multiplicadora de crises, essa é uma realidade que se repete, e será certamente um enorme catalisador desta crise, sendo esta um reflexo de um sistema frágil que privilegia o lucro nos bons tempos, e apresenta a conta à sociedade durante os maus.

Tal como os choques iniciais de crises económicas se alongam por países e anos – por exemplo a crise do subprime na América em 2007- 2008 despertou a crise das dívidas soberanas da europa com ínicio em 2010 – podemos esperar uma depressão económica para durar.

Ainda antes de assente a poeira do Coronavírus podemos contar com tempos difíceis de crise económica, e com certeza que as reações a esta irão impactar de forma drástica a sociedade, quer vença quem queira deixar tudo na mesma e continuar de desastre em desastre, ou quem procure uma agenda pela justiça social, na qual o grande desafio desta geração seja resolvido, as alterações climáticas.

 

 

 

 

 

 

 

 

One thought on “Tossir meses, doente anos – As ondas de choque económicas do Coronavírus – João Reis

  1. Li e reli a análise, correcto! sabemos o que capitalismo se aproveita das crises para explorar sempre os mesmos. Mas que saídas então teremos? que deveremos fazer, qual o posicionamento que a esquerda deve ter no seu ponto de vista? Cumprimentos e desejando tudo de bom para si e os seus e para toda a humanidade.

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