O coronavírus é bom para o clima? – Sinan Eden

Quando se tem um martelo, tudo se parece com um prego. Inclusive as cabeças das pessoas, aparentemente.

Um argumento refutado há dois séculos está a ressuscitar de uma forma surpreendentemente esquisita, num contexto que só produz evidências contra ele. Aliás, chamo-lhe argumento mas é mais desejo que argumento, porque suportado meramente por um suposto “bom-senso” que não alinha nem com a lógica nem com os factos.

Estou a falar, como podem ter adivinhado, sobre a mistura de discursos que surfam entre “sobre-população”, “seres humanos serem um vírus” e “o planeta curar-se a si próprio pela pandemia global”. Esta propaganda misantrópica e cínica está a circular não só nas redes sociais mas também na comunicação social.

Demonstrar um argumento por diversos caminhos faz parte da estética da matemática, e não consegui resistir à tentação. O argumento já era zombie, mas hoje há uma novidade: o novo coronavírus fornece novas formas de refutá-lo que, estranhamente, estão a ser reproduzidas para prová-lo.

Em primeiro lugar, não sei se repararam, todos os impactos da pandemia e da crise de saúde pública a que assistimos até agora aconteceram num período de poucos meses. Ou seja, os seres humanos são a mesma espécie. Se o impacto humano no ambiente mudou, não mudou por razões biológicas que lhe sejam imputáveis porque a biologia humana não mudou. Aliás, se algo mudou, mudou exactamente por razões sociais e económicas.

Em segundo lugar, o resultado do novo coronavírus não é termos menos seres humanos. Aliás, a pandemia matou 20 mil pessoas mas a redução de poluição na China durante duas semanas salvou por volta de 50 mil vidas. Se o impacto ambiental da sociedade humana tem algo a ver com o número de pessoas, então o defensor do argumento de sobre-população devia esperar mais poluição, não menos.

Em terceiro lugar – isto é divertido porque me sinto o Capitão Óbvio –, caso se julgue que as emissões de CO2 na China diminuíram (temporariamente) em 25% devido a uma redução demográfica de 3 mil pessoas (0.0002% da população), sendo essa a prova de os seres humanos serem um vírus, o grau de erro aí é de um factor de 10 mil. Para esclarecer, este erro é como se eu fosse para a cozinha da minha casa agora e esperasse ver a pintura Guernica do Pablo Picasso na minha parede, que na verdade está em Madrid. Se estão confortáveis com erros deste tamanho, a vossa vida pode ser bastante complicada – nomeadamente, se saem de casa para ir ao supermercado mas em vez disso acordam na Líbia.

Achar que o problema é antropológico e que tem a ver com a natureza humana deixa por explicar todas as outras doenças (curáveis, em muitos casos) que matam centenas de milhares de pessoas no Sul Global. Aliás, a pobreza crónica imposta no Sul Global está directamente ligada às actividades extractivistas das multinacionais (e antes disto, ao colonialismo dos estados europeus). Ou seja, matar pessoas das comunidades indígenas aumenta (e garante) a destruição ecológica no Sul Global. Mas se o ser humano fosse vírus, “eliminar” estas pessoas devia resultar em melhores condições ambientais, certo?

Numa camada abaixo desta confusão toda, subsiste a a crença de que problemas sociais podem ser explicados biologicamente. É, no fundo, uma versão simplificada do positivismo.

Isto é muito conveniente, porque esconde o verdadeiro vírus: o capitalismo é o parasita para o planeta e para a sociedade ao mesmo tempo.

A maneira como vamos responder à crise de saúde pública vai determinar o futuro do planeta. Injectar dinheiro “nos mercados” e resgatar as empresas multinacionais (começando com os sectores de aviação e petrolífero) alimentaria o parasita capitalista que está a empurrar-nos para o abismo do caos climático. Em vez disso, nós precisamos de organizar a sociedade de uma forma radicalmente diferente. Precisamos de apostar nos serviços públicos e bens comuns, precisamos de cuidar uns dos outros e do planeta. Na verdade, isto vai implicar mais actividade humana, não menos: vamos precisar de recuperar os ciclos naturais e sociais quebrados pelo capitalismo. Além de deixar de destruir, vamos ter de criar novos ciclos, que passarão por reparar as relações sociais, substituindo relações de dominação por relações de solidariedade e cooperação.

Isto é um assunto social.

Tratá-lo como um assunto técnico, biológico, antropológico, é alimentar o monstro da ética neoliberal. Não só justifica o status quo, mas também permite inacção por parte da sociedade civil perante as crises sociais e climática.

A pandemia do novo coronavírus aponta para um sentido exactamente oposto: mostrou as possibilidades políticas e económicas, nacionais e internacionais, disponíveis nas mãos dos governos. A escolha é social e política. Nenhum vírus vai salvar o clima, nenhum vírus vai cuidar dos mais vulneráveis nas nossas sociedades. Nenhum vírus vai recuperar os ecossistemas. Todas estas são nossas escolhas, que se vencem com a luta política e social. Somos nós aqueles de quem estávamos à espera.

One thought on “O coronavírus é bom para o clima? – Sinan Eden

  1. Viva, este link foi partilhado por amiga para sustentar uma sua reflexão. Cheguei, pois, aqui por mão alheia e deparo-me com um texto cheio de fragilidades argumentativas, apresentadas num tom arrogante de superioridade científica provocatória, entre o humor benemérito e a certeza dos números (lamentavelmente muito comum entre a comunidade académica, em particular no universo das chamadas “ciências exatas” que pensam a matemática como algo objetivo, i.e., normativo).
    Aponto algumas das minhas perplexidades, pois. Não compreendo a lógica nem a coerência argumentativa da frase — “Se o impacto ambiental da sociedade humana tem algo a ver com o número de pessoas, então o defensor do argumento de sobre-população devia esperar mais poluição, não menos”. Ou seja, o autor assume que subjacente à ideia que ataca está necessariamente o argumento — se queremos acabar de vez com a raça, vamos poluir como se não houvesse amanhã? Não poderá antes encontrar-se a ideia de que temos mesmo de mudar o chip da humanidade viral, de modo a encontrar um equilíbrio de sustentabilidade futura, em harmonia com o ecossistema?
    E a apresentação do argumento na crença na explicação biológica/aka, positivista, deveria ser sustentada por uma explicação, e não partir do pressuposto de que sabemos de que se trata exatamente… Mais um vazio na tessitura discursiva que faz com que se deslace a teia do pensamento.
    Na verdade, creio, o argumento de que o ser humano é viral (apresentado de modo genial pelo Agent Smith na distopia Matrix) refere-se a um tipo de identidade preconizada precisamente pelo colonialismo, porque o “capitalismo-vírus” foi inventado por nós (ocidentais privilegiados) que dominamos o sistema, exportando o modelo de desenvolvimento hegemónico (não pelas plantas nem pelos bichos, claro!).
    Mais, ao apresentar as soluções, que me parecem bastante justas, sim, e talvez até óbvias (respondendo na mesma moeda discursiva), o autor declara: “Na verdade, isto vai implicar mais actividade humana, não menos”. Este argumento é algo falacioso, se tivermos em conta a teoria do decrescimento, não? Ou seja, a reestruturação do sistema implica ação, mas MAIS do que antes? Desmantelar um sistema produtivo centrado no conceito de crescimento contínuo implica “MAIS atividade”?
    Para mais, a separação do âmbito social das dimensões técnicas (talvez em boa verdade, fosse mais correto o termo ‘tecnológicas’, digo eu), biológicas e antropológicas parece-me insustentável. De facto, como podemos pensar a sociedade separada dos vários setores que a compõem? Não será a sociedade também feita por tecnologia e por antropologia e por biologia, resultando o corpo que habitamos da interação de todos estes fatores?
    Sublinho que a chave de ouro com que o autor termina o texto, num arroubo de esperança, é retirada diretamente do discurso New Age, que implicitamente critica. Sim, o agenciamento político é da responsabilidade de todos e de cada um, mas talvez possa partir de um espaço de mais humildade e respeito.

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