O coronavírus e o movimento climático. – Bill McKibben

Artigo originalmente publicado no The New Yorker, em 18/03/2020.


Minha filha — adulta e realizada, mas que continua a ser a minha filha —, perguntou-me outro dia: “Você acha que vamos continuar tendo crises como esta a minha vida inteira?” Provavelmente não exatamente como a do coronavírus (as pandemias são desastres muito singulares, pelo fato de ocorrerem no mundo inteiro ao mesmo tempo), mas já há muito temo que o resultado do aquecimento da Terra seja uma série contínua e acelerada de desastres que eventualmente irá ultrapassar a nossa capacidade de lidar com os mesmos. O ritmo desses eventos tem aumentado nos últimos anos, e nossa capacidade de mantê-los em um nível gerível depende, sobretudo, da velocidade com que fizermos a transição energética dos combustíveis fósseis [para fontes renováveis].

É por isso que, para mim, a pandemia do coronavírus é frustrante: por estar temporariamente interrompendo a construção do movimento que é necessário para vencer a indústria de combustíveis fósseis. Assim como o basquetebol e a Broadway precisaram fazer uma pausa, algumas formas de protesto também. Greta Thunberg pediu aos estudantes que passassem a fazer uma greve climática digital, por um tempo: “Nós, jovens, somos os menos afetados por esse vírus, mas é essencial que sejamos solidários com os mais vulneráveis e que ajamos no melhor interesse de nossa sociedade comum”, disse ela aos seus quatro milhões de seguidores no Twitter. O Movimento Sunrise — jovens inspiradores que celebrizaram o Green New Deal — pediu aos organizadores “para evitar multidões”, dizendo: “como geração moldada pela Internet e pelas mídias sociais, é hora de inovarmos, principalmente pelas vias digitais”.

Quando não estou escrevendo este boletim, sou organizador voluntário do Stop the Money Pipeline, que tenta persuadir bancos, companhias de seguros e gestores de ativos a pararem de financiar a indústria de combustíveis fósseis. (Meu interesse cresceu a partir de uma matéria que escrevi para o The New Yorker no outono passado.) Alguns de nós foram presos em janeiro, no lançamento da campanha, que iria culminar com uma onda de atos de desobediência civil não violenta, que incluiriam a ocupação de centenas ou milhares de agências do Chase Bank, em 23 de abril, um dia após o cinquentenário do Dia da Terra. (JPMorgan Chase é o maior financiador individual de combustíveis fósseis do mundo.) Mas agora não podemos. Assim que o potencial de transmissão comunitária da Covid-19 ficou claro, ficou evidente também a crueldade que seria introduzi-lo no sistema prisional. Eu já passei tempo suficiente em cadeias para saber o quanto são geralmente imundas, superlotadas e cheias de pessoas (muitas das quais não deveriam estar lá) em constante movimento entre celas, prisões e tribunais. Já é difícil o bastante manter os presos saudáveis sem a introdução de microrganismos adicionais através de manifestantes desconhecidos. E, de qualquer maneira, as pessoas realmente não deveriam estar se aglomerando agora.

O ativismo digital raramente é tão eficaz quanto a ação não violenta em carne e osso, mas, por enquanto, essa é a única forma de envolvimento possível. Na segunda-feira, Paul Engler, um dos melhores estrategistas da ação não violenta, escreveu que “devemos nos basear, tanto nas possibilidades de novas tecnologias que permitam uma ação descentralizada, quanto em algumas lições tradicionais herdadas de antigos movimentos sociais”. E quando a pandemia passar? Veja o que diz o Extinction Rebellion do Reino Unido: “Nada será como antes e precisamos estar preparados” — prontos para retomar a desobediência civil “no momento certo”.

Escola do Clima

Caso você esteja se perguntando por que os ativistas estão tão enfurecidos com os bancos, leia este relatório da ONG Amazon Watch, uma organização sem fins lucrativos com sede em Oakland, Califórnia, sobre as “cinco instituições financeiras corruptas” envolvidas com a perfuração de petróleo na Floresta Amazônica. Um dia, as pessoas poderão se espantar ao rever uma época em que os banqueiros acharam apropriado lucrar com o que o relatório chama de “parte do ‘termostato’ natural da Terra”, a fim de extrair hidrocarbonetos que destruiriam o sistema climático.

Um artigo publicado pela revista Nature Communications na semana passada mostrou que grandes ecossistemas, incluindo a Amazônia, tendem a entrar em colapso “desproporcionalmente mais rápido” do que os menores. Cito: “Os resultados sugerem que mudanças nos ecossistemas da Terra ocorrem ao longo de períodos de tempo ‘humanos’ de anos e décadas, o que significa que o colapso de grandes ecossistemas vulneráveis, tais como a Floresta Amazônica e os recifes de corais caribenhos, pode levar apenas algumas décadas, uma vez acionado o processo”. Como disse aos repórteres, o investigador principal John Dearing, da University de Southampton, no Reino Unido: “as mensagens aqui são gritantes”.

Embora a notícia tenha praticamente passado despercebida no meio da pandemia, a Comissão Especial dos Senadores Democratas sobre a Crise Climática realizou uma importante audiência, na semana passada, sobre os riscos que o aquecimento global representa para os mercados financeiros e sobre a transição energética necessária para evitá-los. O depoimento de Sarah Bloom Raskin, ex-membro do Conselho de Administração do Federal Reserve, foi particularmente poderoso, e uma versão americana dos alertas que Mark Carney — que foi, de 2013 até o início deste mês, o presidente do Banco da Inglaterra — tem feito durante os últimos cinco anos. Raskin disse que, enquanto a exposição do setor financeiro à indústria de combustíveis fósseis pode provocar turbulências, o afastamento em relação ao petróleo e ao gás implica “uma realocação enorme de recursos e uma revolução tecnológica”, uma realocação que “geraria, de acordo com algumas estimativas, novos e criativos investimentos a um ritmo aproximadamente quatro vezes maior do que a taxa atual.

Passando o microfone

Tara Houska é uma Anishinaabe da Nação Indígena Couchiching, de Minnesota; ela é advogada, trabalhando com questões de terras indígenas, e fundadora do Coletivo Giniw, que se descreve como uma “resistência na linha de frente indígena liderada por mulheres para proteger nossa Mãe, defender o sagrado e viver em equilíbrio”.

Você está envolvida na luta da Linha 3 há muito tempo. Lembre-nos dos fundamentos dessa luta, e por que ela é tão importante para as comunidades indígenas.

O Linha 3 é um projeto de um enorme oleoduto de areias betuminosas que vai de Alberta até as margens do Lago Superior. Apenas esse único oleoduto representa um aumento de 10% da produção de petróleo do Canadá. A expansão da exploração de areias betuminosas, diante da crise climática, é uma loucura total. A população de Minnesota e as nações tribais têm lutado com unhas e dentes dentro do sistema por anos, mas chegamos à fase de autorização final pelo Estado. Eu vivo em um campo de resistência a oleodutos na floresta há quase dois anos, vigiando o movimento do solo e da terra. As escavadoras estão aqui.

A rota proposta no projeto Linha 3 atravessa o território Anishinaabe, o que poderia acabar com o coração da nossa cultura: o arroz selvagem. O arroz selvagem é de extrema importância para o nosso povo. É o único grão mencionado em qualquer tratado já feito entre as nações indígenas e os Estados Unidos. A construção de oleodutos através de zonas húmidas — através de mais de duzentos cursos de água e bacias hidrográficas em leitos de arroz selvagem — prejudica irreversivelmente a qualidade da água e dos ecossistemas que o arroz necessita. A montante e a jusante, a Linha 3 é uma continuação da violação dos direitos dos povos indígenas e dos direitos das gerações futuras a um mundo sustentável.

Líderes indígenas estão na vanguarda da luta pelo clima nos últimos anos. O que eles estão trazendo para este trabalho que torna sua presença tão importante?

Os povos nativos não são novatos na defesa da terra — é o que fazemos desde que a colonização chegou. Mas a ascensão das mídias independentes e sociais trouxe uma nova luz às nossas narrativas e lutas por justiça. Os povos indígenas são apenas 5% da população global, detendo 80% da biodiversidade mundial. Os povos indígenas têm outras formas de viver, outros sistemas de valores, que mantêm os conhecimentos básicos que muitos seres humanos esqueceram e que precisam lembrar. Não podemos beber dinheiro. Devemos viver em equilíbrio, como guardiões.

Você passa um bom tempo na floresta, caçando e assim por diante. Qual o papel do mundo natural em sua vida?

A natureza me ajuda a descobrir o que realmente importa no curto tempo de vida que tenho. Aqui, as simples verdades da vida são tangíveis, e as prioridades são claras. Tudo é trabalho duro, todo ser tem um propósito e fluidez. Tudo tem um espírito e deve ser tratado com respeito. É a vida circular.

Placar

Donald Trump não recebeu muitos aplausos pela velocidade de resposta de seu governo ao coronavírus. Mas, o que o preocupou foi uma grande queda no valor das ações das empresas petrolíferas no início da semana passada, talvez porque alguns de seus maiores financiadores tenham perdido bilhões. No final da semana, ele havia instruído o Departamento de Energia a encher a Reserva Estratégica de Petróleo “até ao top”, no que a Oil Change International considerou um exemplo de como “colocar os interesses dos executivos do petróleo e gás à frente dos interesses das pessoas e comunidades”.

Os esforços para descobrir o efeito do vírus no aquecimento global continuam. Uma grande variável é como a China pode reagir à desaceleração de sua economia. Após a crise financeira de 2008, a recuperação da China dependeu de grandes infraestruturas (como aeroportos) com grande uso de combustíveis fósseis e, de acordo com o South China Morning Post, essa estratégia pode ser novamente utilizada. O Instituto de Recursos Mundiais sugere que a melhor opção, não apenas para a China, mas para o mundo, seria o investimento em energia baixa em carbono.

Para aquecer

Esta parece ser uma semana em que precisamos de muito conforto — os nervos de todos estão à flor da pele, enquanto tentamos nos adaptar a novas realidades. A música que mais provavelmente pode me devolver o equilíbrio é “O-o-h Child”. (Há até uma mensagem a favor da energia solar.) O hit original, com os Five Stairsteps, é, sem dúvida alguma, ótimo, e você definitivamente deveria sentar-se com o maravilhoso mix de Kamasi Washington. Mas, se quiser ter certeza de que tudo vai ficar realmente O.K., ouça a versão de Nina Simone até o final.


Bill McKibben é um dos fundadores da campanha climática 350.org e um escritor colaborador para o The New Yorker. Ele escreve The Climate Crisis, o boletim do The New Yorker sobre meio ambiente.

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