A hora certa para a queda da Galp – Inês Teles

Os dias que temos atravessado carregam em si uma aura de distopia. Um sentimento de estranheza que, embora nem sempre consigamos bem definir, está sempre presente: quando saímos para comprar comida e olhamos as ruas despovoadas; quando a notícia do dia, todos os dias, é a pandemia; quando por todo o lado se impõe em letras garrafais o aviso para ficarmos em casa e nos isolarmos, mas muitos têm na mesma que ir trabalhar, e muitos desses em sectores não essenciais ou onde poderia ser aplicado o teletrabalho, comprometendo assim a sua saúde e a das suas comunidades.

Em pleno estado de emergência devido ao novo coronavírus, urge tomar medidas que travem a proliferação da doença e que possam suprimir esta crise, e garantir o bem-estar de todos. Contudo, no meio da estranheza, permanece a crise climática. Uma crise que todos os dias mata pessoas e que é promovida pelo modelo a que muitos de nós chamam “normalidade”, mas cujo nome é, na verdade, capitalismo. Alimentados pela narrativa que nos é servida pelas elites ricas e poderosas, cremos, por vezes, que não há uma alternativa a esta forma de vida. E acreditamos que é simplesmente impossível mudar radicalmente de sistema e implementar medidas que rompam com o business-as-usual, pavimentando o caminho para uma transição justa que nos permita travar o caos climático.

Esta crise faz-nos ver que isso é uma mentira. Que quando os governos se vêem entre a espada e a parede é possível desafiar as supostas regras basilares da sociedade. Temos assistido a vários exemplos disso pelo mundo fora. Mantém-se porém um vínculo forte à “normalidade”, sustentado por todos os interesses regidos pela autoridade do lucro. Começam já a surgir por todo o lado pedidos de resgate por parte das empresas que povoam a economia fóssil e que, durante décadas, têm vindo a explorar pessoas e recursos do planeta, vertendo gasolina numa casa em chamas. As escolhas tomadas neste momento serão determinantes na definição do caminho que vamos percorrer no pós-covid19: um caminho tenebroso de austeridade e sofrimento, pior do que o que se desenrolou na crise de 2008, e que nos mantém na direcção do caos climático; ou um caminho de mudança e de construção de uma forma de viver que privilegie a dignidade humana, os laços entre pessoas e o respeito pelo planeta.

Neste quadro encontra-se a Galp, empresa petrolífera, e principal responsável baseada em Portugal pelo cenário de destruição climática massiva no qual estamos mergulhados. A tendência geral para a diminuição no consumo energético e uso de combustíveis fósseis resultante da crise do coronavírus, que desencadeou a disputa dos preços do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita tem, desde o início do ano, induzido em queda livre o preço do barril de crude, que regista os preços mais baixos dos últimos 30 anos. Este abalo tem tomado de assalto os mercados, e a Galp não é excepção, tendo sofrido uma desvalorização pronunciada dos seus activos financeiros, nas últimas semanas.

Contudo, num clima de incerteza em que se prevê uma crise económica intensa, que afectará todos os sectores, os gestores da Galp resolvem comprar massivamente acções da empresa. Isto denota uma segurança de que irão lucrar no meio da calamidade, por certo alimentada pela ideia de que estes gigantes fósseis serão resgatados pelo Estado, como tem sempre acontecido no passado. A sua imagem de paladinos e benfeitores importantes para a sociedade e que, portanto, devem ser salvos, tem até sido já trabalhada, com a oferta de bens e serviços destinados a ajudar o sector público no combate ao coronavírus. Sector público esse que tem sido, ao longo de décadas, o alvo a abater pelos interesses económicos que alimentam empresas como a Galp.

A contradição acentua-se quando, ao mesmo tempo que é feita esta aposta numa imagem da gigante petrolífera como agente de responsabilidade social, são despedidos 90 trabalhadores da refinaria de Sines (activo da Petrogal, empresa do grupo Galp), aproveitando os constrangimentos inerentes à pandemia (com o estado de emergência a limitar direitos dos trabalhadores, em nome da celeridade na tomada de decisões urgentes pelo Governo). E num momento em que nem é possível estes saírem à rua para se manifestarem, a Galp não se pronuncia sequer sobre este caso, salientando a importância para a economia do recurso a prestadores de serviços externos. Assim se vê que os interesses assentam exclusivamente no lucro de gestores: a remuneração do CEO Carlos Gomes da Silva aumentou novamente no ano de 2019 (estando nos 1,778 milhões de euros), mas num momento em que é especialmente importante que se garanta a segurança dos trabalhadores, a empresa olha para o lado face a despedimentos.

É, portanto, neste contexto que a nossa luta continua, e que se torna ainda mais urgente colocar em andamento acções determinantes que garantam que uma Galp que está a cair nunca volte a levantar-se, e que o mesmo aconteça com o monstro do sistema económico vigente. É certo que a crise de saúde pública que se impõe nos coloca perante novos desafios, tornando impossível levar a acção pela justiça climática às ruas. Mas novas soluções têm sido trabalhadas e a acção que idealizámos sob a palavra de ordem de que a “Galp Tem de Cair!” está mais sólida e relevante que nunca.

Até dia 24 de Abril, data em que se realiza a Assembleia Geral Anual da Galp – onde crimes contra a humanidade são colocados em andamento e as vidas de pessoas são jogadas, como se de peões se tratassem – tencionamos expor a actividade destruidora e opressiva da Galp. Esta é uma empresa que, entre 2015 e 2019, viu a sua produção de petróleo quase a triplicar e, embora se apresente como tendo elevadas preocupações a nível de sustentabilidade, os planos actuais são de continuar neste caminho, duplicando, até 2030, a produção de petróleo e gás dito “natural”. Numa expressão gritante da alienação do próprio sistema capitalista sobre si mesmo, os magnatas da economia fóssil continuam a acreditar que os recursos limitados do planeta podem providenciar lucros infinitos, e nessa busca doentia condenam o presente e o futuro da humanidade.
A Galp não pode ser salva pelo Governo. O único caminho compatível com a travagem do colapso climático é o da reestruturação do modelo de negócios existente, com o encerramento de todas as infra-estruturas de exploração de combustíveis fósseis, assim como a nacionalização e criação de uma rede pública de energia assente exclusivamente em renováveis. O capital que será injectado na economia para resolver a crise que se avizinha, tem que ser aplicado em medidas de transição justa. E estas têm que assegurar a manutenção dos postos de trabalho existentes, apostando na requalificação de trabalhadores, para que estes possam passar a trabalhar em empregos para o clima, numa economia de baixo carbono.

Todo o negócio da Galp assenta numa continuação de dinâmicas colonialistas, que devem ser travadas, garantindo a responsabilidade histórica de reparação das comunidades afectadas. Mais uma vez, a empresa tenta pintar a sua imagem de verde, apresentando planos de, até 2021, adquirir 100% de electricidade renovável nas operações em Portugal. Esta medida esconde porém a aposta na deslocalização da extracção de combustíveis fósseis para o Sul Global, alimentando práticas neo-colonialistas assentes na exploração escandalosa de recursos e pessoas em zonas como o Brasil, Angola e Moçambique. Estes são países onde as consequências das alterações climáticas são já gravemente sentidas (relembremos a devastação deixada em Moçambique pelo Ciclone Idai, por exemplo), e onde as infra-estruturas e populações se encontram numa posição de maior vulnerabilidade face a estas catástrofes. Nesta acção, estamos lado a lado com activistas de Moçambique, que têm vindo a assistir à degradação de ecossistemas e à violência sem escrúpulos a que têm sido sujeitas as comunidades que vivem nos locais onde estão a ser construídas infra-estruturas de apoio à exploração de gás fóssil.

Atravessamos um momento crítico, em que a nossa capacidade de acção colectiva poderá determinar se voltamos a uma “normalidade” catalisadora do caos climático e social, ou se mudamos radicalmente para um caminho que rejeite o modo de produção capitalista e nos permita lidar com a crise climática com o foco no bem-estar das pessoas e não nos lucros das empresas. A Galp tem de ser a primeira a cair, iniciando assim uma cadeia de mudança que nos permitirá construir um sistema assente na justiça social e climática.

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