Radar Climático (20 de Maio)

O ciclone tropical Amphan está neste momento na Baía de Bengala e passou à categoria 5, numa das mais rápidas intensificações da força destes sistemas tropicais alguma vez registada, esperando-se que o ciclone atinja a Índia e o Bangladesh na quarta-feira. O Amphan é o ciclone mais forte de sempre na Baía de Bengala e é só o segundo “super-ciclone” que alguma vez ocorreu nesta baía. O primeiro, em 1999, matou quase 10 mil pessoas. Estão neste momento a ser evacuadas milhões de pessoas das zonas costeiras, mas há enormes dificuldades por causa das medidas de confinamento do coronavírus.

Num dos maiores produtores mundiais de carvão, os Estados Unidos, projecta-se que este ano, pela primeira vez, haverá mais electricidade produzida a partir de renováveis do que de carvão. Há uma década atrás, 50% da electricidade do país provinha de carvão, mas segundo o Instituto de Economia Energética e Análise Financeira deverá cair para 10% nos próximos cinco anos. Por outro lado, o Global Carbon Project prevê que o Covid-19 dará a machadada final nas emissões de carvão este ano e que será muito difícil a indústria recuperar apesar do aumento de capacidade instalada na Índia. As petrolíferas apostam na fraude do gás natural para destruir o carvão e manter o seu negócio, enquanto muita da nova capacidade de produção eléctrica instalada no mundo é de fonte solar e eólica. A retoma da Nova Rota da Seda da China, baseada em fósseis e carvão, pode ser uma grande ameaça para estes prognósticos.

Segundo o Airline Bailout Tracker, já foram gastos 12,7 mil milhões de euros em resgates à aviação na União Europeia, com 17,1 mil milhões adicionais agora em discussão. Por outro lado, os EUA já aprovaram 25 mil milhões de euros de ajuda à sua aviação no mês passado. Na reunião dos ministros da Defesa da UE, o ministro dos negócios estrangeiros da UE pediu aos ministros para que não haja quaisquer cortes nos orçamentos militares, com a previsão de um aumento do gastos públicos com armas e despesas militares.

40% das famílias nos Estados Unidos que ganham menos de 40 mil dólares por ano viram pelo menos um dos membros da famílias perder o seu emprego, e nos últimos 2 meses perderam-se 36 milhões de empregos no país. Segundo o presidente da Reserva Federal (Fed), o desemprego pode chegar aos 25%, valor só comparável aos da Grande Depressão, enquanto a Goldman Sachs aponta para uma recessão de -30% para este ano. No embalo das declarações estapafúrdias de Trump, o presidente do Fed diz que não deverá haver uma depressão e que o país “ainda ficará melhor” do que estava antes do coronavírus e que “não vai demorar muito” para que isso aconteça. Entretanto, deu-se no país a maior queda de preços ao consumidor desde 1957, a produção industrial caiu 11,2% (maior queda em 100 anos), as manufacturas caíram 13,7% e os preços do retalho caíram 16,4%.

Um plano de 500 mil milhões para a estímulos económicos executado pela Comissão Europeia através de empréstimos foi lançado por Angela Merkel e Emmanuel Macron, para resgatar as indústrias europeias da crise do Covid19 e “retomar o crescimento”. Este plano não só é apenas um quarto do primeiro  plano apresentado pelos Estados Unidos (as economias da UE somadas têm tamanho aproximadamente igual ao dos EUA), como já encontra a oposição de países como a Holanda e a Áustria, por não ser baseado directamente em dívida e por não ter como contrapartida evidente novos programas de austeridade. A isto acresce a já corrente disputa judicial entre instituições alemãs e europeias sobre os estímulos que o Banco Central Europeu possa ou não realizar, comprometendo a capacidade deste plano ser estendido.

Dados recentes obtidos através de apps nos EUA estão a revelar que os protestos no Michigan, Wisconsin, Illinois, Colorado e Florida, de apoiantes da extrema-direita e da campanha para a re-eleição de Donald Trump nos EUA, podem estar a ser um foco de difusão do coronavírus, já que os manifestantes não têm quaisquer cuidados sanitários e deslocam-se centenas de quilómetros depois dos protestos, inclusivamente para outros estados. Um dos organizadores dos protestos na Carolina do Norte testou positivo para Covid19 e continua a organizar protestos onde participa. No final de Abril, manifestantes armados no Michigan invadiram o capitólio e só foram travados à porta do gabinete da Governadora.

A indústria automóvel quer receber subsídios de apoio à produção de veículos na União Europeia e Reino Unido, sem quaisquer condições, sejam carros a diesel ou eléctricos. A BMW, a Daimler e a Fiat Chrysler, entre outras, estão a pressionar os comissários europeus para que crie um estímulo à aquisição de carros, independentemente do combustível, recebendo um resgate directo com dinheiros públicos sem terem sequer que fornecer qualquer contrapartida e ignorando a crise climática.

Coincidência ou nem por isso, os quatro países com maior número de pessoas infectadas por Covid-19 são governados por governos autoritários de direita: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e Brasil. A combinação de fundamentalismo religioso, desconfiança permanente sobre a medicina e ciência, paranóias securitárias, líderes providenciais que prometem um regresso a uma espécie de passado que nunca existiu e fé absoluta nos mercados tem produzido condições catastróficas para as populações desses países, tornando-as mais vulneráveis que nunca ao colapso das suas condições de vida com ameaças directas à vida.

A EDP vendeu as centrais de gás Castejón I e III em Espanha à petrolífera francesa Total por 515 milhões de euros, assim como uma carteira de 2,5 milhões de clientes residenciais em Espanha. Este é mais um passo no seu percurso de se desfazerem dos seus activos, capitalizando e seguindo um caminho de risco reduzido, tornando-se num esqueleto de operações logísticas e passando para mãos alheias a responsabilidade sobre os trabalhadores que tinham ao seu serviço. Pode, cada vez mais, estar a deixar de fazer sentido uma nacionalização da empresa, uma vez que cada vez há menos para salvar.

A Câmara de Lisboa está disposta a adiantar três anos de rendas aos proprietários que coloquem os seus imóveis num novo programa de habitação. Em vez de ser feita uma aposta no arrendamento acessível de casas vazias e na construção/reabilitação de habitação social pública, é criada uma espécie de parceria público-privada, que prioriza a segurança dos proprietários que andaram, em muitos casos, a arruinar a habitabilidade na cidade de Lisboa, com a exploração de imóveis para alojamento local.

Em zonas como o Alentejo, a queda nos preços agrícolas é de 40 a 50%, sendo que em zonas do centro, como Oliveira do Hospital, Seia e Nelas, a queda já ultrapassa os 50%. Isto coloca em risco a sobrevivência de vários pequenos produtores, sendo que alguns já consideram a falência inevitável. A Ministra da Agricultura levou à Comissão Europeia a hipótese da transferência, de caráter excepcional, de 85 milhões de euros do envelope financeiro 2021-27, para ajudar os agricultores afetados pela pandemia, mas Bruxelas recusou, para já, a necessidade de novas medidas adicionais para o setor. Vê-se que claramente não tem razão.

850 milhões de euros foram entregues ao Novo Banco, apesar de não ter sido concluída a auditoria que era considerada essencial antes de ser colocado mais um cêntimo neste buraco negro. Mas aquilo de que se fala é do desentendimento a nível de calendário entre Centeno e Costa. Dando este como ultrapassado, é como se não houvesse mais nada a debater sobre o caso. Mais dinheiro é injectado sem questões na banca privada, enquanto o país é ameaçado pela sombra da austeridade, e quando cada euro dirigido para sectores essenciais, como a Habitação, a Saúde, a agricultura, ou para salvar trabalhadores é repensado, regateado e travado ao máximo.

“Não vamos negociar sem que sejam aceites condições firmes de repartição de encargos entre as partes e normas de controlo por parte do Estado sobre o destino” dessa ajuda. Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas, diz que se essas condições não forem aceites, não haverá intervenção pública na TAP, não excluindo o cenário da eventual insolvência da empresa. Neste braço de ferro está em jogo, entre outras coisas, o futuro dos trabalhadores da empresa. Se a insolvência da empresa é um cenário que está na mesa, porque não a passagem da totalidade para as mãos do Estado, de forma a manter os postos de trabalho e requalificar os moldes segundo os quais esta funciona, dentro dos pressupostos necessários para travar a crise climática?

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