Crónica de uma morte anunciada – Diogo Silva (Radar Climático | Opinião)

O caminho para fora da crise económica está traçado. Como o podemos mudar?

Foi aprovado em Conselho de Ministros o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), que lança as bases para o que poderá vir a ser uma Lei do Clima que consagre em legislação a (in)ação climática do Governo. Não há novidades no que já tinha sido anunciado, e a crítica mantém-se: com truques contabilísticos a definirem 2005 como ano base de contagem de emissões de gases com efeito de estufa, a redução anunciada fica aquém do que tem que ser a média global de cortar a metade as emissões até 2030 – meta necessária se queremos evitar uma crise climática em esteróides. Portugal continua a vangloriar-se de liderar uma maratona em que as consequências de não batermos o recorde mundial serão catastróficas, mas onde cada ponto de contagem nos diz que até a frente da corrida está a correr sempre abaixo do necessário. Que mérito tem o Governo quando a liderança mundial é tão fraca?

Não deixa de ser irónico que na mesma semana da aprovação do PNEC, se tenha sabido que a única ligação ferroviária Lisboa-Madrid vai encerrar, que os aviões já poderão vir a ter lotação esgotada, e que os espectáculos poderão avançar… com lotação reduzida e distanciamento social.

 

As prioridades estão estabelecidas, claras e anunciadas, e sabe-se por isso que o que se pode esperar é o regresso ao normal. Um normal em que a maioria dos apoios extraordinários do Estado resgatam grandes empresas e deixam impotentes os 99,9% de micro, pequenas e médias empresas; num país onde a pobreza atinge 2 milhões de pessoas e onde o salário de 1 em cada 10 pessoas empregadas não as tira da pobreza (números de 2018, imagine-se agora).

Neste confinamento obrigatório, quem mais sofreu não foi a percentagem ínfima da população que ficou entediada por não ter mais que fazer em casa: foi quem teve que continuar desconfinada para poder manter a casa e quem foi obrigada a parar porque ficou desempregada ou em layoff. É assustador ver o quão ineficiente é o sistema económico actual: precisamente no momento em que é mais necessário que existam serviços básicos essenciais e quem os disponibilize, são chutadas para fora do “mercado de trabalho” milhões de pessoas que prefeririam trabalhar e precisamente as que mais precisavam desse trabalho. Excelente funcionamento o deste mercado!

Continuar por este caminho é continuar a crónica de uma morte anunciada: a de um futuro justo, em que todas as pessoas tenham direito a uma vida digna e em que os limites ecológicos sejam respeitados.

Se queremos evitar o precipício, é preciso resgatar o nosso futuro.

É preciso resgatar as pessoas que mais estão a sofrer neste momento, e reorientar a economia para o cuidado da vida.

É preciso que no dia 6 de Junho sejam mesmo muitas as pessoas a sair à rua.

E é preciso não ficarmos por aqui.

Sabemos o futuro que queremos e sabemos que só com a nossa ação conjunta, unida e contínua podemos escrever outra História.

Sejamos as pessoas de quem estávamos à espera.

Diogo Silva, activista climático no Climáximo e 2degrees artivism

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