Radar Climático (2 de Junho)

A única ligação ferroviária entre as capitais de Portugal e Espanha foi cancelada definitivamente pela Renfe, operadora privada espanhola responsável pela mesma. Este famoso comboio, que está numa linha que nem sequer é electrificada na sua totalidade (uma parte do seu caminho é feita com recurso a petróleo), foi suspenso no passado dia 17 de março por causa da pandemia do Covid19. Entretanto a Renfe alegou prejuízos de 25 milhões de euros para justificar o cancelamento definitivo, enquanto a CP, co-operadora deste comboio, disse estar em negociações bilaterais sobre este assunto, incluindo os dois governos. Entretanto, o governo português prevê resgatar a TAP em mais de mil milhões de euros (para começar) e o governo espanhol abre linhas de financiamento também de mais de mil milhões para as companhias aéreas Iberia e Vueling. O investimento português em ferrovia de Pedro Nuno Santos tem-se revelado inexistente.

Depois de décadas da mais escabrosa inacção em relação à crise climática, cujas causas e consequências são sabidas há muito por parte dos seus principais agentes, o FMI pede “cuidado” na velocidade da transição energética, por causa da estabilidade financeira.

Sempre na perspectiva das finanças, dos “mercados”, da alteração no valor das acções e do lucro de seguradoras e outros grandes negócios, o relatório do FMI até menciona que “acções de política para mitigar as alterações climáticas reduziriam os gases de efeito de estufa e futuros riscos físicos à partida, conferindo benefícios para a humanidade que se estendem bem além da estabilidade financeira” mas que a “transição para uma economia de baixo carbono precisa de ser gerida com cuidado para evitar reavaliações abruptas e não antecipadas”, ou seja, para não tirar o lucro a quem causa o caos climático e atrasa a sua única solução. Falta o FMI entender que não há lucro quando não há civilização.

A central a carvão Kraftwerk Datteln 4, na Alemanha, foi reaberta 10 anos depois de ser embargada. O muito pouco ambicioso programa do governo alemão prevê só acabar com o carvão no país em 2038, mas isso implicava o encerramento de pelo menos oito centrais a carvão em 2020. No entanto, em plena pandemia, Datteln4 foi reaberta e manifestantes do Fridays For Future e Ende Gelaende participaram em protestos próximo das instalações. O Ende Gelaende ocupou o canal de refrigeração a nado e em canoas e foi garantido pelos activistas que a central será fechada em breve. A central é da empresa alemão Uniper.

Mais um homem negro norte-americano, George Floyd, foi assassinado pela polícia em Minneapolis. Os protestos que se seguiram começaram de forma pacífica e que são reflexo da brutalidade policial generalizada e da discriminação racial sistémica alastraram-se um pouco por todos os EUA, a uma escala inédita nos últimos 50 anos, e também a nível internacional. Em Minneapolis a esquadra de polícia foi incendiada, várias lojas de grandes cadeias foram pilhadas e queimadas, as pessoas saem à rua a meio de uma pandemia para fazer ouvir a sua voz da única forma em que são ouvidas, em nome da justiça racial. Vários exemplos de solidariedade de classe surgiram espontaneamente (como motoristas a recusarem-se a transportar manifestantes detidos, blocos de pessoas brancas a colocarem-se entre manifestantes negros e as forças policiais ou um hotel Sheraton desactivado tomado e gerido por voluntários para albergar cerca de 200 sem abrigo) e os motins ampliam a realidade das pessoas racializadas perante a opressão violenta da hegemonia liberal e racista: carros de polícia que avançam contra pessoas desarmadas, recurso a gás lacrimogéneo e balas de borracha para controle de massas, cargas policiais à bastonada para com pessoas que se afastam dos motins, jornalistas detidos, várias cidades sob recolher obrigatório e o apelo do presidente norte-americano aos ‘cidadãos de bem’ (ou seja, aos seus apoiantes incondicionais) a pegarem em armas e irem defender a propriedade privada. Os confrontos entre manifestantes e polícia já fizeram mais 4 mortos (nomeadamente polícias), Trump já esteve escondido num bunker da Casa Branca, que está cercada por populares, e declarou que os Antifas são um grupo terrorista a eliminar e ameaçou colocar as forças militares em acção no próprio país para “resolver a situação”. Este é seguramente um momento histórico de clivagem nos EUA. A meio de uma crise pandémica com mais de 100.000 mortos, o líder da nação rompe as relações institucionais com a OMS; em plena crise que colocou 40 milhões de pessoas no desemprego, e com motins alimentados a brutalidade policial em dezenas de cidades, o presidente defende uma acção militar interna. Isto pode significar a reeleição de Trump, ou pode ser uma oportunidade para os trabalhadores americanos começarem a derrubar o sistema.

António Costa foi buscar o presidente do Conselho de Administração da Partex Oil & Gas, antiga petrolífera da Gulbenkian vendida a uma petrolífera tailandesa, para determinar o rumo da recuperação económica pós-Covid19. António Costa e Silva não ocupa qualquer cargo na estrutura de governo, tendo sido designado na imprensa como “paraministro”, mas representa pouco mais do que uma antiga aristocracia industrial supostamente iluminada que, segundo o primeiro-Ministro, traria boas ideias para o país, mandando-o como tal ir discutir com ministros e até com os outros partidos como aplicar os fundos da União Europeia para “retomar a normalidade”. É um forte abalo para ministros como João Pedro Matos Fernandes ou Pedro Nuno Santos, que são menorizados com esta decisão. O “paraministro”, posição que não existe no governo português, tem-se desdobrado em entrevistas onde passeia as suas ideias, nomeadamente fazendo questão de dizer que escreveu os próximos anos em dois dias, a seguir a ser chamado por António Costa. O resumo do plano do homem do petróleo não inclui abertamente fósseis (mas de certeza que haverá um gás lá pelo meio) mas é pouco mais do que um capitalismo esverdeado com um reforço do extractivismo mineral em grandes doses e o deslumbramento tecnopositivista. Nenhuma mudança, portanto.

No momento em que o Brasil atingiu o meio milhão de infectados com o CoViD19 (2º lugar a nível mundial) e é o 4º país com mais mortos (mais de 30.000), o Gabinete do Ódio, instrumento bolsonarista (e gerido por Carlos Bolsonaro) para difamar inimigos da Famílicia através de fake news, foi alvo de buscas por parte da Polícia Federal envolvendo deputados federais e empresários.

Em São Paulo houve um confronto entre apoiantes de Bolsonaro e uma frente unida de antifas de 4 claques de futebol da cidade, que terminou com a polícia a intervir contra os antifas e a proteger e a escoltar os bolsominions. Estes confrontos estenderam-se ainda ao Rio de Janeiro, Minas Gerais e Belo Horizonte, mostrando bem a crescente bipolarização na sociedade brasileira.

Enquanto isso, no domingo, Bolsonaro continua nos seus delírios cénicos de helicóptero, cavalo e sempre sem máscara a contactar os seus fanáticos seguidores.

Na semana passada houve também um outro acontecimento triste: morreu o Larry Kramer, um dos fundadores do ACT UP! que lutou durante décadas contra a epidemia do SIDA. Em março de 1987, numa conferência em Nova Iorque com centenas de pessoas da comunidade gay e lésbica, Kramer pediu para dois terços da plateia se levantar, e disse-lhes “Com a velocidade do SIDA agora, vocês podem morrer em menos de cinco anos. … Quanto tempo precisam para indignar-se e combater?” E assim surgiu um dos movimentos mais militantes da história, ACT UP!, conhecido pelas acções directas nas sedes das empresas farmacêuticas e também nas instituições de saúde pública nos EUA. O Larry Kramer inspirou um movimento movido por um forte sentido de urgência, e o movimento pela justiça climática tem muito a aprender da história do ACT UP!.

Um dos focos de novos casos de covid19 na área de Lisboa e Vale do Tejo é o bairro clandestino da Jamaica, no Seixal, com 19 novos casos. 60 agentes da PSP, numa manifestação de flagrante desproporcionalidade, equipados como se fossem para uma zona de guerra, realizaram uma operação sanitária em que foram encerrados, a cadeado e com portas soldadas, 8 estabelecimentos comerciais. No bairro da Jamaica, estas medidas sanitárias foram acatadas com a colaboração dos moradores. A ministra da saúde nega tratamento diferenciado, mas é difícil encontrar semelhanças com a situação da plataforma logística da Sonae na Azambuja, com 175 casos confirmados (o maior surto da região de Lisboa e Vale do Tejo), que continua a laborar, num cluster com 230 empresas e mais de 8500 trabalhadores. Vale tudo para manter o capital a carburar rumo ao crescimento sem fim.


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Crónica de uma morte anunciada – Diogo Silva (Radar Climático | Opinião)

Não deixa de ser irónico que na mesma semana da aprovação do PNEC, se tenha sabido que a única ligação ferroviária Lisboa-Madrid vai encerrar, que os aviões já poderão vir a ter lotação esgotada, e que os espectáculos poderão avançar… com lotação reduzida e distanciamento social.

O mito da sobrepopulação – Rui Garrido

Na realidade, como outras narrativas de responsabilidade individual, a teoria da sobrepopulação não passa de mais um argumento conveniente para empresas como a Shell ou a Exxon confundirem e distraírem as populações. Os benefícios para as partes interessadas são inúmeros:

    • Distribui a responsabilidade das emissões por toda a população igualmente, em vez de responsabilizar os reais poluidores (quem extrai e queima combustíveis fósseis).
    • Transforma as comunidades mais pobres em bodes expiatórios. (Serão países de África e da Ásia a liderar o crescimento da população)
    • Incentiva a inacção. (Não ter filhos é a única solução real.)

Uma janela de responsabilidade – João Camargo

A ideia de “regresso à normalidade” é a expressão máxima de alienação na sociedade. A “normalidade” é um comboio desembestado em direcção a um precipício. As expressões máximas dessa normalidade são a sexta extinção em massa de espécies no planeta, a modificação extrema dos padrões climáticos da última era, a disrupção do ciclo do azoto e a perda dramática de solos. Estes fenómenos não são futuros. Estes fenómenos são o presente.


Quebrar em caso de Emergência #2 – as mobilizações da desta semana. Como participar, porquê, onde

Numa altura em que se enfiam centenas de milhões em bancos e empresas aéreas, quando até já se inventou um “paraministro” que vem de uma petrolífera para definir a próxima década de Portugal, ficar em casa pode ser estender uma passadeira vermelha para o colapso social e ambiental. #ResgatarOFuturo

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