Activistas climáticas: porque o vosso trabalho depende de acabar violência policial – Dany Sigwalt (Radar Climático | Opinião)

Este artigo foi originalmente publicado no blogue da autora no Medium a dia 3 de Junho de 2020 com o título “Climate Activists: Here’s Why Your Work Depends on Ending Police Violence”. Na tradução, omitimos alguns parágrafos que nos pareceram muito contextualizados nos EUA. Deixámos estes parágrafos no fim da tradução.


Vivemos num mundo em que agentes governamentais podem matar centenas de pessoas todos os anos, sem que o sistema inteiro seja por isso responsabilizado. Quando a crise apresenta uma oportunidade para os ultraricos extraírem mais riqueza das pessoas e do planeta, como é que podemos esperar que esse mesmo governo seja responsabilizado por causa das alterações climáticas?

Para ganhar a luta climática, temos de reinventar as estruturas de poder que se mantiveram funcionais desde a escravatura. Para ganhar a luta climática, precisamos duma ruptura entre os nossos sistemas económicos e os legados do colonialismo, escravatura, genocídio e a violência nos quais o nosso país foi fundado e temos de empurrá-lo para libertação, liberdade, autonomia e justiça.

A violência policial assusta-me mais que as alterações climáticas. Eu co-lidero uma organização focada nas alterações climáticas, e encontro-me paralisada tentando perceber como engajar neste momento político, porque a violência policial aterroriza-me. Não passa nem um dia em que não me preocupe sobre a minha segurança ou da minha família às mãos do estado. Num dia aleatório, nós podemos ser parados pela polícia quando estamos a voltar da creche com o nosso filho (#PhilandoCastile). Alguém pode chamar a polícia por o meu primo de 12 anos estar a brincar à frente do seu edifício (#TamirRice). Preocupo-me porque a polícia pode invadir a minha casa à procura de alguém que nem lá vive e matar-me à meia noite (#BreonnaTaylor). Ao contrário da maioria das caras públicas do movimento climático, eu tenho um fardo indevido por ter uma vida a combater ansiedade climática e ansiedade policial ao mesmo tempo.

Experienciamos dificuldades complexas que nos esgotam mental, emocional e fisicamente. Eu nunca pensei que este país fosse perfeito, mas como muitos de vocês, eu cresci a acreditar que havia uma espécie de estabilidade se eu fizesse tudo “certo”. Se eu fosse à faculdade, se eu trabalhasse muito, e se me comportasse de forma “certa” nos mundos branco, heterossexual e cis-gênero, eu podia razoavelmente esperar ter no resto da minha vida alguma segurança e estabilidade. Vou dizer-vos, como alguém criada pelos descendentes da Escravatura, que experienciou a segregação do Jim Crow em primeira mão, este tipo de estabilidade é muito atraente. Semanas como esta lembram-me que esta visão de estabilidade nunca foi uma realidade para uma mulher negra queer neste país; e nunca será na sua configuração actual.

É emocionante ver declarações de solidariedade nas redes sociais pelas organizações climáticas de todos os tamanhos. Por um momento, sinto-me visível. Depois, penso sobre a composição racial de muitas destas organizações climáticas. Reflicto sobre as histórias que a malta Negra ou outra malta racializada partilhou comigo em que explicaram como foram tratadas como descartáveis, por tokenismo, e traumatizadas até ao ponto de abandonarem o movimento climático, prejudicadas por este movimento que lhes dizia estar investindo nos seu bem-estar e futuro.

Isto me leva de volto ao meu ponto principal: Nós temos de remodelar o sistema que nos permitiu chegarmos à crise climática em primeiro lugar. Temos de responsabilizar o patriarcado capitalista de supremacia branca, e construir um poder colectivo para criar um futuro melhor para todos nós. Neste momento, a malta negra, a malta indígena, e outras pessoas racializadas estão na linha da frente da crise climática, mas qual é o nosso objectivo se estas pessoas são baleadas a caminho de se juntarem ao movimento climático?

Há muitas razões pelo qual o caso do George Floyd está a provocar esta convulsão; incluindo ansiedades e medos por causa da pandemia da COVID-19; ansiedades económicas, fascismo ao qual já não posso chamar “creepy”, e muitas mais. Mas o que eu acho que mais toca às pessoas é ver a narrativa de “umas maçãs pobres” ser revertida. Houve 3 agentes da polícia que observaram e participaram quando o seu colega sufocou violentamente um outro ser humano durante oito minutos e quarenta e seis segundos, enquanto este homem estava gritava por ajuda dizendo que não conseguia respirar. Nenhum deles parou o seu colega. Alguém pode-me explicar a probabilidade de quatro dessas “maçãs pobres” estarem na mesma chamada naquele dia?

Então, como vamos desmantelar estes sistemas aos quais Martin Luther King Jr chamou de “Trigêmeos de Mal”: exploração económica, militarismo e racismo? Não vou fingir ter as respostas.

Há séculos que vivemos neste projecto de terrorismo global em nome do capitalismo, ele está enraizado em todas as áreas das nossas vidas. Há várias gerações, que pessoas, os meus heróis, tem lutado contra este sistema. Uma coisa de que tenho certeza é que votar não é a única resposta nem a mais importante, porque os políticos não nos vão salvar. Querem provas? O bairro em que o George Floyd foi morto é representado por oficiais eleitos progressivos racializados.

Vivemos num mundo em que agentes governamentais podem matar centenas de pessoas todos os anos, sem que o sistema inteiro seja responsabilizado por isso. Volto a perguntar: como podemos esperar que esse mesmo governo seja responsabilizado pela mitigação das alterações climáticas, enquanto a própria crise apresenta aos ultraricos a oportunidade de extraírem ainda mais riqueza?

Temos de cortar o financiamento da polícia e do complexo militar-industrial. Temos de re-imaginar apoio governamental para pessoas normais; coisas como funcionários sociais formados em de-escalamento, acesso aos serviços de saúde mental e um sistema económico funcional que permita trabalho com significado, são essenciais para construir as comunidades justas e seguras que merecemos.

Construir poder significa empurrar o governo para que este se importe com as pessoas mais do que com os dólares e implemente políticas que sustentem esse ethos. Quando todos os quatro polícias que realizaram e acompanharam o homicídio disparatado do George Floyd forem levados à justiça, estaremos um passo mais perto dos nossos objectivos imediatos de parar o colapso climático. Enquanto construímos este poder, chegamos mais perto da soberania indígena e da justiça ambiental, reproductiva, imigrante, económica e social como um tudo.

A forma como venceremos na mitigação das alterações climáticas é através da responsabilização do governo em relação aos cidadãos, e neste momento, isso significa lutar pela justiça para George Floyd. Se se importam com as pessoas, com a humanidade e com a justiça, agora é o momento para dar o corpo para as Vidas Negras e construir um poder político Negro. Há formas em que vocês podem e devem fazer isto: apareçam em solidariedade com o movimento pelas vidas negras, centrando a causa na liberação dos Negros, e levantando perspicazes lideranças Negras no trabalho climático.

Aparecer pela malta Negra no movimento climático significa uma escolha consciente da casa do movimento. Significa ver quem está na sala, perguntar porque as pessoas negras não estão presentes. Escolher conscientemente significa prestar atenção a quem tem estado cá há mais tempo e quem tem poder. Se esse poder não se parece como o movimento do qual queres fazer parte, escolher conscientemente significa sair e encontrar o trabalho que as pessoas Negras, as pessoas Indígenas e as pessoas racializadas estão a liderar, e conectar-se a ele.

Escolha consciente da casa do movimento significa pôr no centro os mais afectados pelas alterações climática e pelo racismo ambiental: as pessoas Negras e Indígenas, e pessoas racializadas, todos os dias. Apoiar o movimento climático que merecemos, e necessitamos para vencer, significa reencaminhar dinheiro e capital social de forma a apoiar a liderança e visão para construir um movimento inclusivo e poderoso pela justiça climática.


Dany Sigwalt é Co-Executive Director da organização Power Shift nos EUA.


* Maybe you’re wondering why people can’t be more patient and work within the system, because it seems like things are slowly getting better, after all. The truth is that they aren’t getting better. More Black men are incarcerated today, under legalized slavery, than were enslaved in 1863. Black folks are twice as likely to die from COVID-19, and carry the weight of unequal access to healthcare that leads to deadly consequences for things as seemingly routine as childbirth or as terrifying as cancer. To make things worse, the trauma that we carry from experiencing moments like this, where the powers that be tell us our Black lives aren’t valuable and that any of us — literally — could be next, makes even manageable health conditions like high blood pressure or diabetes deadly. This is the intended design of this project that is the United States of America.

To be clear: the police system in this country can directly trace its roots to slave patrols. Since 9/11, our police systems have been emboldened by our nation’s increasing investment in militarism, receiving military surplus to justify our bloated military budget. And we’ve also got to note that Big Oil’s interests are directly linked to the US military system that bombs its way into countries filled with Brown and Black people to gain access to their oil.

Meanwhile, we’ve seen our public schools (including state universities), healthcare, and the entire social safety net defunded to support a War on Terror that reinforces the white supremacist power structure that allows state-sanctioned murder of Black Americans to go without redress. By tearing down this police state, we’re also chipping away at the military and Big Oil’s standing. Dismantling this death grip on our economic system and funding a human-centered budget is a core part of a larger vision for reparations for this country’s original and continued sins.

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