Radar Climático (1 de Julho)

Face à falta de acordo entre a TAP e accionistas privados o governo parece ir forçar a nacionalização da companhia de forma a evitar o colapso desta. Na base da discordância estarão prestações acessórias no valor de 227 milhões de euros. Abre-se assim o caminho para litígios em tribunais (privados) arbitrários sobre o processo. Apesar de estar a nacionalizar a empresa, as prioridades do governo continuam a incidir sobre a viabilidade de vários negócios privados que dependem da TAP, e não de critérios de emissões de gases de efeito de estufa ou a segurança das trabalhadoras.

A Wirecard (empresa alemã de fintech) colapsou, vendo as suas acções a desabar em valor. A implosão aconteceu depois de 1.900 milhões de euros desaparecerem.  A empresa contava com clientes como a Visa e o Mastercard. Apesar deste tipo de fenómenos parecer descontextualizado, estes tendem a aparecer em crises financeiras, quando irregularidades e fraudes tendem a tornar-se mais expostas pelo contexto adverso.

A BP vendeu a sua área de petroquímicos por 4.1 mil milhões de libras à Ineos, para equilibrar perdas e para efectuar a reestruturação. Devido à pandemia e à respectiva queda abrupta de preços que danificou as finanças dos produtores em todo o mundo, a BP alega perdas no valor de 14 mil milhões de libras e justifica assim o corte de 10.000 empregos por todo o mundo. Quando esta e outras vendas forem concluídas servirão para abater ao défice em Abril da BP que era de 60 mil milhões de libras.

Duas plataformas petrolíferas chinesas – a Nan Hai Ba Hao e a Nan Hai Jiu Hao – chegaram esta semana às águas do Árctico russo. Pertencem à China Oilfield Services, que está a trabalhar para a Gazprom, com várias concessões na zona. Um das condições contratuais para que as plataformas possam operar é que a zona esteja livre de gelo o que, com o calor recorde no Árctico, deverá verificar-se. Estima-se que até ao final da década, o Árctico possa não ter gelo durante o verão e que haja enormes reservas petrolíferas e de outros minerais no subsolo polar. Empresas americanas, canadianas, norueguesas e russas estão a vender e comprar concessões de exploração na zona. Além das plataformas chinesas, já está no local a plataforma russa Arkticheskaya e, a caminho, a plataforma Amazon (que já operou no local em 2018 e 2019).

O governo norueguês propõe 125 novos pontos de exploração petrolífera no mar de Barents. Enquanto a Sibéria alcançou temperaturas recorde de 38ºC, e o mar de Barents também regista picos de temperatura muito superiores às médias globais, o governo norueguês propõe ignorar toda a ciência e a realidade da crise climática para alegadamente assegurar “empregos e criação de valor”. No início deste mês tinham ainda sido concedidos benefícios fiscais e incentivos económicos à indústria petrolífera do país, para criação de novos projectos. Se a proposta for aprovada, algumas destas explorações serão das mais a norte existentes, nomeadamente em territórios disputados por países vizinhos, como a Rússia.

Com um intervalo de quatro dias, a Central nuclear de Almaraz, situada a pouco mais de 100 km da fronteira portuguesa, junto ao Tejo, e em fronteira com os distritos de Castelo Branco e Portalegre, sofreu a semana passada dois incidentes que levaram à paragem automática de ambos os reactores. Os proprietários (Iberdrola, Endesa e Naturgy) dizem que os incidentes não provocaram quaisquer impactos nos trabalhadores ou no ambiente. Os trabalhos de manutenção têm sido adiados devido à pandemia e prevê-se que continuem adiados até ao Outono. Além dos incidentes recentes, a central nuclear de Almaraz está construída sobre território com risco sísmico e teve, desde a sua origem, inúmeros problemas de infra-estruturas. Em actividade desde 1981, a central foi projectada para um tempo de vida de 40 anos e deveria cessar a sua actividade este ano, mas existe uma proposta pendente de autorização de extensão do funcionamento até Novembro de 2027 e 2028 para os reactores 1 e 2, respectivamente. A aprovação desta proposta é apontada pelo movimento ibérico antinuclear e outras associações ecologistas como mais um risco desnecessário. A decisão será tomada até final de Agosto pelo governo espanhol.

A Antárctida, no Polo Sul, tem sofrido um aumento de temperaturas médias três vezes superior ao resto do planeta, provocando um crescimento abrupto não só da temperatura, mas também de tempestades e sistemas de altas e baixas pressões que enviam calor a longitudes mais altas. Os cientistas estimam que esta variação extrema de temperaturas na zona mais remota do planeta se deva em parte à variabilidade natural e em pelo menos um terço à crescente concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera devido a acção humana.

Os Estados Unidos vão juntar-se à União Europeia, China e Índia para discutir planos para uma recuperação verde. Face à quebra das emissões devido à Covid-19 e ao potencial de repetir histórias passadas em que após uma crise económica as emissões descem, para depois recuperarem e logo a seguir subirem para novos records, a ideia de uma recuperação que impeça este cenário vai ganhando forma. Conduzida pela agência internacional da energia, esta terá países a que correspondem 80% das emissões a nível mundial.

Extrema-direita alemã tenta infiltrar-se em colectivos ambientalistas e em movimentos rurais. Com a ascensão de movimentos em defesa do clima e verdes pela Europa, a extrema-direita tem procurado adaptar o seu discurso a esta realidade, tendo como uma das portas de entrada a ideia de redução da população mundial e a defesa de valores naturais como valores “patrióticos”. Muitos colectivos têm notado a ascensão destes discursos e a tentativa de afastamento do carácter global e internacional do movimento pela justiça climática. No entanto, este mês houve um protesto de agricultores, à noite, mimetizando um símbolo usado por um movimento ruralista do nazismo, uma espada vermelha a cortar um arado. Um dos organizadores explicou que a faca simboliza os políticos e cientistas que querem destruir a nossa pátria, referindo-se à burocracia necessária para poder utilizar fertilizantes e contestando a necessidade de proteger insectos, destacando a “concorrência desleal” contra produtores agrícolas da Europa de Leste.

Alguns activistas do Extinction Rebellion em Inglaterra lançaram um novo partido (UK Beyond Politics), fazendo uma acção em que roubaram comida dum supermercado e distribuíram a mesma à porta. Tudo para destacar a instabilidade na distribuição global da comida devido à emergência climática e à falta de soluções da política. Este novo partido diz que o actual sistema político é corrupto e está a falhar e quer eleger cidadãos comuns através de assembleias de cidadãos. Roger Hallam, fundador do XR e uma das principais figuras do partido, afirmou que o “XR não tem o monopólio da Desobediência Civil”, que já havia desilusão com a classe política antes do XR e que nada muda sem disrupção, pelo que procuram “uma fusão de democracia participativa com acção directa”. Apesar de partilharem alguns princípios como a criação de assembleias de cidadãos, o XR e o UK Beyond Politics são organizacionalmente separados.


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Comunicado: Climáximo exige nacionalização da TAP com um plano social de transição justa para o sector da aviação

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