Diogo Silva, ativista pela justiça climática: “o desafio da nossa geração”

Chama-se Diogo Silva, tem 28 anos e é ativista pela justiça climática.

Com um percurso marcado por uma sucessão de experiências que, de tão diversas, parecem ter sido inevitáveis para que, hoje, seja voz, braços e pernas de um coletivo que advoga a urgência da mudança estrutural, Diogo afirma que este “é o desafio da nossa geração”: atuar por um “futuro justo num planeta habitável” para todas as pessoas e não só algumas.

Sendo o trabalho que faz enquanto ativista plenamente voluntário, Diogo é também “comunicador freelancer”, procurando estar sempre ligado, de alguma forma, à temática que o faz mover e atuando junto de entidades que acredita terem um vasto potencial de mudança.

De ninho na Costa da Caparica, coleciona várias memórias em Aveiro. Recorda, em aconchego, as férias de infância na cidade onde a BUGA o surpreendeu numa altura em que não era comum andar de bicicleta e a presença, com o Projeto 80, na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, onde a vasta e diversa montanha de veículos de propulsão humana ficou vincada no seu imaginário.

Entre várias iniciativas e projetos, destacam-se o seu percurso no Movimento Transformers, que foi a sua primeira “grande escola” no universo do impacto social, e a cocriação, em 2019, do Art for Change Collective, um coletivo artivista pela justiça climática que procura não só travar a crise do clima como também avançar a justiça social.

“Não sabia que queria ser ativista”, mas hoje é-o com a certeza de que é urgente a transformação da sociedade e de que esta passa por uma transição justa, em que “as pessoas menos responsáveis pela crise climática são as mais beneficiadas e as mais responsáveis as que mais pagam.”

O rebentar da “bolha”

No seio de uma família muito ligada ao campo, que partia de férias com “as bicicletas às costas”, Diogo sempre teve um contacto muito próximo com a natureza, embora, na altura, não a perspetivasse ainda como um conceito que engloba também o ser humano. Aos 7 anos (e não aos 6, como havia intentado) entrou para os Escuteiros, onde, à consciência ambiental, se foram aliando fazeres que despertavam também o interesse pelo impacto social.

Mas foi aos 15 que se deu o “rebentar da bolha de privilégio” em que havia habitado até então. Num encontro internacional de jovens, que concentrava pessoas de todas as partes da Europa que provinham de bairros sociais, percebeu que, sendo “o estranho ali no meio”, viviam realidades completamente diferentes. “Foi, por um lado, complicado de aceitar”, conta, “mas, por outro, muito interessante para alguém com 15 anos, que queria descobrir o mundo, conhecer, saber mais. Eu tinha muito essa fome”, partilha. Foi um “momento-chave”, que despertou o agora ativista para as imensas fragilidades do mundo.

Construir caminho(s)

Com sede de explorar e aprender, procurando “encontrar um meio termo entre os mundos mais objetivos e os mais subjetivos”, ingressou em Economia, na Nova School of Business and Economics, em Lisboa. De pés já na Faculdade, não tardou a procurar estar ativo e tecer outros caminhos que não somente o da licenciatura. Integrou a AIESEC, a maior organização estudantil do mundo que promove a liderança entre jovens estudantes, integrou a Comissão de Jovens que apoiava a campanha presidencial de Fernando Nobre, lançou uma empresa com um grupo de amigos e, no segundo ano, juntou-se ao que é hoje o Movimento Transformers.

Esta seria a sua primeira grande “escola” de gestão – pertencer à Equipa de Coordenação e ao ampliar de um movimento de “pessoas que fazem a diferença através daquilo que mais gostam de fazer”, usando o seu talento, ou superpoder, para melhorar o mundo.

No final da licenciatura, com a certeza de que não queria ser economista, manteve-se centrado nos Transformers e, curiosamente, foi numa apresentação do movimento que acabou por encontrar um próximo desafio: o Projeto 80, “um programa, de âmbito nacional, que procura promover o associativismo, a educação para a sustentabilidade, o empreendedorismo e a cidadania democrática”.

Cruzou o país, num roadshow de três meses, com o propósito de promover o projeto e incentivar estudantes a desenharem o seu próprio projeto de sustentabilidade, acabando por passar por Aveiro, depois de um período sem visitar a região.

Seguiu-se um trabalho na área social, que depressa o desiludiu e o fez perceber que o caminho para ser melhor gestor não passaria por ali. Começou a procurar oportunidades em diferentes consultoras e, quando estava já prestes a desistir, aconteceu a iMatch, uma empresa de consultoria colaborativa. “Foi amor à primeira vista”, diz. Ali, encontrou espaço para novas aprendizagens, tendo alcançado uma posição de responsabilidade em pouco tempo. Mas havia algo em falta. Com a pressa do quotidiano, era difícil concretizar ideias que pudessem gerar um impacto social profundo. “O que fazíamos tinha impacto social, mas não ao nível que desejava”, conta. “Sentia que estava a ficar muito objetivo”, que tinha deixado adormecer a parte criativa, e, por isso, após três anos e meio, saiu da consultora para rumar a novos projetos. 2019, ano em que a justiça climática seria “tema-chave”, seria também o ano de voltar a despertar os seus mundos mais subjetivos.

Arte, clima e justiça social

Enquanto trabalhava ainda na iMatch, leu um livro de Naomi Klein, intitulado ‘This Changes Everything’, que “mudou mesmo tudo”. De repente, o impacto social e o ambiente passaram de mundos separados no imaginário de Diogo a mundos indissociáveis. Começou a envolver-se em manifestações contra o petróleo ainda quando na consultora e, em 2019, tornou palpável a mudança.

Vinte páginas de ideias em Word depois, algo era claro: “queria trabalhar na área da justiça climática” e queria fazê-lo reconectando-se com a arte. Juntou-se, primeiro ao Climáximo, um “grupo de ativistas movidos pela urgência do combate às alterações climáticas e os seus graves efeitos” e, depois, na tentativa de conectar os dois mundos – arte e ativismo –, lançou, com outras pessoas, o que é hoje o Art for Change Collective (inicialmente, 2degrees artivism).

Partindo da premissa de que, para haver mudança efetiva, “é necessário envolver a cultura”, o coletivo tem como missão “mobilizar, capacitar e conectar uma nova geração de ativistas para a justiça climática”, focando-se não em pequenas ações individuais, mas sim na transformação da sociedade. Isso implica, garante Diogo, “não ver a crise climática como uma ilha”, isolada de outras questões e lutas sociais. Pelo contrário — o coletivo consciencializa também para as interligações entre esta e vários outros temas de justiça social e ambiental.

Com presença em todos os grandes momentos de mobilização nacional pela justiça climática desde a sua criação e com várias ações realizadas – das quais se destaca, em  setembro de 2019, a primeira edição do CineClima, uma iniciativa que se materializou em mais de 40 sessões gratuitas de cinema e debate, de norte a sul do país, durante 3 dias –, o coletivo prepara-se agora para lançar a primeira temporada de um podcast‘Clima e…’ –, que conta já com episódios piloto sobre Feminismo e Desperdício, entre outros.

Num futuro próximo, espreitam “algumas grandes ações”, como a greve climática global no dia 25 de setembro, uma manifestação de “lógica intersecional” em torno do dia 5 de outubro e, no dia 17 desse mês, a manifestação ‘Resgatar o Futuro’, que une vários movimentos sociais em torno da urgência de “pensarmos e lutarmos por um mundo diferente”.

Hoje, o Art for Change Collective contempla já algumas vias para poder crescer de forma sustentável, com conta na plataforma Open Collective e, pontualmente, contas de Patreon associadas a projetos.

Aveiro: tripas e bicicletas

Com família na cidade dos moliceiros quando era criança, Diogo guarda “uma ligação emocional a Aveiro”. Recorda, com felicidade, as férias em que passeava de BUGA pela cidade e em que, à noite, depois de jantar, se fazia à barraca de tripas para revisitar o doce característico a que, ainda hoje, não consegue resistir.

Mais tarde, com o Projeto 80, retornou duas vezes – uma a Aveiro, outra à Gafanha da Nazaré, onde o número de bicicletas que encontrou na Escola Secundária o surpreendeu. “Era incrível”, diz, afirmando que, tendo crescido com um dos poucos que andava de bicicleta no quotidiano e a levava de férias, para Diogo, as BUGAs e o imenso espaço dedicado ao meio de transporte na Gafanha da Nazaré são motivo de enlevo. “Ainda hoje, estas duas cidades são exemplos nesse sentido”, afirma.

Já com a iMatch, esteve ainda na região, com um programa de aceleração de startups em parceria com a PRIO que, sendo “interessante do ponto de vista de inovação”, gerou nele algum desconforto, confessa, pelo ângulo proposto, que visava “contribuir para a inovação numa empresa que eu acho que deve mudar de área de negócio”.

O que é preciso para ser ativista?

“Ser ativista é duro”. Muitas vezes, procura-se a perfeição em seres, por defeito, imperfeitos. “É um trabalho de resistência”, afirma Diogo, que, com o que vai fazendo enquanto freelancer, procura não se desligar do que é também “o dia a dia das pessoas e das empresas”, mantendo o equilíbrio entre uma visão mais macro e micro do mundo.

Para ser ativista, diz, o que é preciso, no início, é “sentir um grande desconforto; ter o sentimento de que as coisas, como são, não fazem sentido” e usar essa inquietação como veículo para o empoderamento. É preciso “garantir que te sentes capacitado para fazer a diferença” e isso “é possível se nos juntarmos a outras pessoas”, fazendo “parte de um movimento que conduz à mudança real” e seja capaz de “sonhar novas utopias”.

 

Artigo originalmente publicado na Aveiromag a 19/08/2020.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Instagram
RSS
Vimeo
Flickr