Quinze a zero para a Justiça Climática – Diogo Silva

Em 2015 havia 15 contratos ativos de pesquisa e exploração de combustíveis fósseis em Portugal. Com a renúncia da empresa Australis Oil & Gas, não resta nem um furo, como prometeu o movimento pela justiça climática há cinco anos

Para quem afirma que os protestos e mobilizações são formas desnecessárias de agitação social, que os mesmos fins se podem atingir de formas menos confrontativas, que quem tem poder de decisão cede pela razão sem mais do que algumas reuniões, convido-os a explicarem como seria possível esta enorme vitória sem um movimento sem precedentes de mobilização social pela justiça climática.

É um merecido momento de celebração para pessoas como a Fátima, que tem liderado a Associação Bajouquense para o Desenvolvimento neste combate absolutamente desigual que vergou a sua Junta de Freguesia e depois a Câmara Municipal a pronunciarem-se contra o projeto. Sem uma linha da frente com o grau de determinação que as pessoas da Bajouca demonstraram, nada disto seria possível.

Nas contas da exploração fóssil, o movimento pela justiça climática deu quinze a zero a uma das indústrias mais poderosas do país. Cada vez mais, a transição energética que sempre exigimos parece mais inevitável. A dúvida é se chegará a ser justa e virá a tempo.

O caso de Sines é paradigmático: fecha-se uma central que garantia trabalho a centenas de pessoas, sem garantias nenhumas de emprego para quem dependia direta e precariamente da mesma. Os executivos facilmente mudam de unidade mas quem faz o trabalho essencial de linha da frente fica de mãos a abanar. Já a EDP, está em negociação para o contrato do hidrogénio dito verde que não é mais do que um plano de resgate governamental português e europeu a uma indústria fóssil em degeneração que oculta a todo o custo o seu rasto de destruição. No salve-se quem puder, só pode quem tem acesso ao poder.

Se empresas como a EDP ou a GALP não sobreviveriam sem um braço autoalgemado ao Estado, porque é que não o substituímos já por um sector público de energia 100% renovável gerido democraticamente pelos cidadãos, em vez de autocraticamente dominado por acionistas privados?

Os planos dos quais o Governo faz alarido para a próxima década continuam a incluir expandir portos para importação de gás expropriado de terras indígenas, um novo aeroporto em área protegida, e minerar terra e mar como se o futuro fosse escavacar em vez de regenerar. Isto é só o que temos que travar para não aumentar emissões, falta o outro tanto que nos levaria a reduzi-las a metade em menos de dez anos, como a ciência nos indica.

Hoje é dia de celebrar. Amanhã voltamos ao trabalho.

Dia 25 de setembro estamos na rua para um dia de Mobilização Climática Global, dia 5 de outubro vamos demonstrar a força dos Anti-Corpos e dia 17 de outubro é hora de Resgatar o Futuro.

A janela de ação continua a encurtar. Só o crescimento deste movimento poderá garantir que chegamos a tempo.


Este artigo foi originalmente publicado no jornal Expresso a dia 8 de Setembro.

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