Dois mil e vinte: anticlimático com sinais de esperança – João Camargo

O ano começou em chamas. Em Janeiro, ardiam todos os Estados da Austrália, com as grandes cidades rodeadas pelas chamas, enquanto víamos pela primeira vez um país rico e uma população branca e afluente ter de ser evacuada em massa por causa da crise climática. A pandemia chegaria pouco depois, produzindo por acidente a maior queda de sempre de emissões de gases com efeito de estufa. No meio deste caos, as mobilizações climáticas baixaram de intensidade, enquanto o movimento Black Lives Matter tornou-se provavelmente o maior movimento social da história dos Estados Unidos e, na Índia, uma greve geral contra o governo autoritário de Modi juntaria 250 milhões de trabalhadores.

Este será provavelmente o ano mais quente desde que há registo, empatando com ou suplantando 2016. Continua assim a sequência imparável de recordes sucessivos de temperaturas para os anos mais quentes de sempre. A manifestação destas aberrações climáticas não se ficou pelos incêndios na Austrália, mas também pelos recordes absolutos de furacões no Atlântico (13), com seis de grandes dimensões. A temporada dos furacões durou tanto tempo que entrou em Novembro e acabou-se o alfabeto árabe, tendo as tempestades passado a ser designadas por letras gregas. Das 30 tempestades tropicais registadas em 2020, 12 chegaram a terra, outro recorde alarmante. A tempestade subtropical Alpha foi a tempestade atlântica mais oriental alguma vez registada e a primeira a atingir terra em Portugal, no dia 18 de Setembro. Apesar de uma temporada de tufões no Pacífico abaixo do normal, as Filipinas foram devastadas por quatro tufões de seguida, incluindo o tufão Goni, o mais forte deste ano e o mais forte a chegar a terra alguma vez registado.

Na tundra siberiana, atingiram-se em Maio os 25ºC, batendo por mais de 13ºC (!) o recorde anterior. No início de Junho estiveram 30ºC acima do Círculo Polar Ártico e o cada vez mais justificado receio de uma aceleração do derretimento do gelo permanente (permafrost) revela uma vez mais como os modelos climáticos têm pecado por excessiva moderação nos cenários. Na Amazónia, os incêndios florestais continuam a devastar o pulmão do mundo, incentivados pela expansão agro-pecuária, destruindo também as vidas das comunidades indígenas, particularmente afectadas pela pandemia.

Com a crise económica associada à covid-19 vimos uma vez mais os Estados e os bancos centrais a funcionarem como garante único do funcionamento da sociedade e da economia, destruindo-se as fantasias liberais acerca da potência dos mecanismos de resolução pelos mercados. Apesar disso, os governos desejam o regresso do predomínio dos mercados e do business as usual, mesmo que com ligeiras alterações. Este ano uma vez mais demonstrou como a Humanidade se mantém longe da resolução das crises criadas por si mesma, enquanto a alienação do sistema produtivo capitalista continua a dominar a imaginação colectiva. Assistimos ao resgate da indústria fóssil e da aviação por todo o mundo, em que os governantes só perguntam onde é que se entregam os cheques e, claro, garantem que não há limites para o que for preciso pagar. Apesar da conversa da acção verde, de que o European Green Deal é mais um exemplo acabado, até ao momento as medidas de recuperação para estimular a economia não são coerentes com qualquer transição (nem em termos de emissões, nem em termos de justiça social). Surgiu com mais potência que nunca a ideia de “neutralidade de carbono”, a expressão que esconde o que verdadeiramente temos de cortar em emissões: os governos inventam as contas da capacidade actual e futura de absorção de gases com efeito de estufa por parte dos solos, florestas e zonas húmidas, acrescentam uns pozinhos mágicos como a tecnologia de captura e armazenamento de carbono e puff… já não temos de cortar tantas emissões porque, imagine-se, há “emissões negativas”. Para compor a manipulação, anunciam-se cortes no tempo errado: o Reino Unido diz que vai cortar 68% das emissões, a União Europeia diz que vai cortar 55% das emissões (ambos em relação a 1990). Os cortes que temos de fazer são em relação em 2010.

Em 2020 aconteceu a maior queda de emissões de gases com efeito de estufa desde que há registos, 7% de redução (a única outra redução nas últimas três décadas foi na crise financeira de 2008, uma queda de 1,2%). O que poderia ser uma boa notícia caso tivesse sido intencional, ensina-nos apenas que é preciso um plano social de grande amplitude para conseguir os cortes necessários para travar o colapso climático.

Segundo o Emissions Gap Report, das Nações Unidas, precisamos de cortar acima dos 7,6% de emissões por ano até 2030 para travar um aumento da temperatura acima dos 1,5ºC. Não é isso que se tem passado, nem é isso que os governos de todo o mundo planeiam. O seu plano passa por ignorar a ciência climática e deixar-nos avançar alegremente rumo à destruição. Entre 2010 e 2019, as emissões cresceram em média 1,3% ao ano. Ao longo da última década os sete maiores emissores de gases com efeito de estufa – China, Estados Unidos, União Europeia, Índia, Rússia, Japão e transportes internacionais – contribuíam com 65% das emissões globais. De acordo com os compromissos do Acordo de Paris, as emissões continuam na direcção de um aumento de 3,2ºC até ao final do século, muito longe de qualquer medida de segurança. Segundo o mesmo relatório, seria necessário multiplicar por três o nível de cortes hoje previsto para o Acordo de Paris para conseguir evitar um aumento de temperatura de 2ºC até 2100 e multiplicar esses cortes por cinco para manter o aumento de temperatura abaixo dos 1,5ºC.

Esse corte, claro, não deve ser igual, como as responsabilidades pelas emissões passadas e actuais não são iguais. Os 1% mais ricos do mundo são responsáveis pelo dobro das emissões dos 50% mais pobres – por isso, não há qualquer dúvida que a resolução desta crise passa obrigatoriamente por retirar aos mais ricos o poder de destruir as nossas vidas. Segundo o mesmo relatório das Nações Unidas, a elite mundial tem de reduzir as suas emissões para 1/30 do que emite hoje, isto é, têm mesmo de deixar de ser essa elite. É seguro assumir que não o farão por livre e espontânea vontade, o que significa que só farão quando a isso forem obrigados.

Em Portugal, o ano ficou marcado pelo facto caricato de António Costa ter entregue o “plano para a década” ao barão petrolífero da Partex, António Costa e Silva, pela insistência na construção de um novo aeroporto (catastrófico no Montijo, como o seria em qualquer outra localização), pelo fim de todas as concessões petrolíferas em Portugal através da desistência dos contratos da Australis Oil & Gas, na Batalha e Pombal, e pela febre do hidrogénio verde, que tem como principal intérprete João Galamba. Entretanto, está consolidado o modelo de Transição Matos Fernandes: as empresas grandes emissoras anunciam encerramentos e despedem trabalhadores e, no fim, o ministro diz que vai arranjar umas formações e, claro, para umas eventuais novas empresas que hão-de surgir, formadas com dinheiros europeus. Este é o modus operandi que já vimos no encerramento da Central da EDP de Sines e da Refinaria da Galp em Matosinhos, e não só não garante a transição à velocidade que necessitamos como transforma os trabalhadores em inimigos da descarbonização, vista como estratagema para nova etapa de acumulação de capital, entre outras, pelas empresas que têm responsabilidade criminal na crise climática.

A extrema-direita, depois de alguma hesitação no início do ano, reforçou-se perante o atrapalhado combate à covid-19 por parte dos governos. Este reforço é principalmente mediático, nas redes sociais e no comentário, com a maior manifestação cultural situando-se algures entre a psicose do vírus ter sido criado na China, a ideia de que o vírus não mata ou que a vacina muda o DNA das pessoas e as transforma em pessoas-répteis. O discurso de ódio encavalita-se neste espaço e ganha lugar também no centrão, desesperado por poder e autoridade num tempo de tanta incerteza.

A quarentena intermitente global significou uma redução dramática nas mobilizações sociais por todo o mundo, exceptuando o gigantesco movimento Black Lives Matter que, dos Estados Unidos, alastrou por todo o mundo (em Portugal, gerou a maior manifestação anti-racista de sempre), e a Greve Geral na Índia, em Novembro. O próprio movimento pela justiça climática, que em 2020 se mobilizou como nunca, sofreu uma quebra. Nesse sentido, 2020 foi claramente anticlimático, embora em Portugal tenham existido importantes momentos, desde a vitória do fim dos contratos de petróleo, às greves climáticas e aos Anti-corpos. A COP26, que teria lugar em Glasgow, foi adiada, como se a (in)acção institucional se pudesse dar ao luxo de mais um ano de recuo. Dois mil e vinte confirma-nos que, dadas todas as oportunidades para travar o colapso climático, os governos escolherão sempre o caminho errado, que é exactamente aquilo que está a acontecer nos percursos traçados para a chamada “recuperação”, que aspira a nada menos que retomar o rumo à catástrofe.

É também nos piores momentos que podem surgir os melhores sinais: foi em Novembro de 2020 que foi assinado o Acordo de Glasgow. Mais de 120 organizações de todo o mundo já assinaram este compromisso climático popular de assumir a criação de um plano próprio para travar o colapso climático, um plano popular para garantir que o aumento de temperatura fica abaixo dos 1,5ºC até 2100. É decididamente um passo em frente, descolando da impotência institucional para tentar travar a insanidade que engoliu o sistema em que vivemos.

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