Mais emprego, menos emissões: uma ideia doutro planeta? – Diogo Silva

A transição energética em Portugal é um resgate a quem quer viver do dinheiro, em vez de quem precisa do dinheiro para viver. Assim foi em Sines, com o fecho da central eléctrica a carvão da EDP, assim é agora com o fecho da refinaria de Matosinhos da GALP, e assim podemos antever que venha a ser praticado de forma… industrial. Entre o fecho hoje e novas aberturas futuras da indústria das tecnologias “limpas”, o rasto sujo é o desemprego imediato dos que ali trabalham em condições precárias. Os lucros são salvos e as pessoas são alvos.

Com uma transição energética cada vez mais inevitável, o processo será sempre este se não houver um plano social claro e mobilizações lideradas por quem ali trabalha, em que a luta para chegar ao fim do mês e a luta para não chegar ao fim do mundo sejam compatíveis. Se isto não acontecer, é previsível que se continuem a fechar cada vez mais unidades industriais com o mesmo método e a mesma destruição.

No debate internacional sobre a crise climática não faltam soluções propostas que cumprem estes requisitos. Em Portugal, existe já há três anos uma campanha que une sindicatos e movimentos sociais para lutar por centenas de milhares de Empregos para o Clima e pôr um travão definitivo nas emissões nacionais. Serão novos postos de trabalho, públicos, que reduzem diretamente as emissões de gases com efeito de estufa. A prioridade de emprego deve ser precisamente para quem já é hoje mais afetado: quem trabalha nas indústrias que têm que fechar e quem vive na linha da frente dos efeitos da crise climática. Todas as contas indicam que os postos de trabalho que têm que se extinguir são muito inferiores em número do que os que têm que se criar.

Podia aprovar-se já hoje a criação de uma empresa pública de energia renovável ou de uma rodoviária eléctrica nacional. Podia aprovar-se já hoje o investimento em mais e melhor ferrovia, que ligasse todo o país. Podia aprovar-se já hoje a redução do horário semanal para 32 horas. Estas são só algumas das medidas concretas da campanha, que podiam ser aprovadas imediatamente na Assembleia da República, e nos poriam a caminho da redução necessária e justa de emissões no nosso país. A oportunidade é única para criar um plano social justo para a transição energética e o maior processo de reconversão da economia das últimas gerações.

A melhor Ciência disponível diz-nos que temos menos de dez anos para agir radicalmente, sob o risco de uma ação moderada nos trazer um planeta inabitável. Não há alternativa que não seja fechar a torneira das maiores fontes de emissões, e acelerar na direção contrária de reorientar a indústria e a economia para o cuidado da vida – em vez de obrigar a vida a servir a economia.

Novos tempos exigem uma nova política, que se guie não pelo politicamente viável mas pelo cientificamente necessário. Será isto uma ideia de outro planeta ou vamos pô-la ao serviço de salvar a vida neste?

Originalmente publicado no Jornal Económico a dia 08 de Janeiro de 2021

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