Davos, o diário de uma caminhada – Paulo

Introdução

Faz este mês um ano desde que aconteceu um momento histórico no movimento activista e de luta pela Justiça Climática, quando em Janeiro de 2020 na Suíça e pela primeira vez em 50 anos de protestos anuais, um enorme grupo de cerca de 1500 activistas, caminhou durante vários dias nos Alpes Suíços para chegar à vila de Davos, para durante a caminhada e no World Economic Forum (WEF), a nível internacional sensibilizar as pessoas sobre os graves problemas ambientais e sociais, e protestar contra o status-quo de interesses político-económicos instalados que têm ao longo de décadas, explorado e destruído a natureza com a mentalidade extrativista e de crescimento económico ilimitado, que não passa de uma pura fantasia, criando assim o maior perigo para a humanidade e toda a vida no planeta, as Alterações Climáticas, que comprometem seriamente o nosso futuro já para os próximos anos.

Este ano e devido à grave pandemia do covid-19 (criada precisamente pela sistemática exploração de animais e destruição da natureza), não haverá um protesto deste género e envergadura na Suíça. No entanto, para recordar, comemorar e nos inspirarmos nesse evento, apresentamos este artigo que é um relato dessa caminhada, feita por um dos activistas que participou no evento, que pretende descrever mais detalhadamente essa aventura com o objectivo de ajudar a inspirar as pessoas, transmitindo de forma mais profunda sobre o que representa ser um activista, a sua importância e o impacto no mundo, e que todos nós temos igualmente uma responsabilidade para, na medida do que nos for possível e através de acções de activismo / voluntariado, fazermos a nossa parte e contribuir para ajudar a proteger a vida no planeta e o nosso próprio futuro como humanidade.

Não pense que uma pessoa não pode fazer a diferença, pois quando há determinação, cada um de nós poderá ajudar a criar um grande impacto positivo no mundo. Greta é um excelente exemplo disto, uma “simples” adolescente que decidiu fazer algo e conseguiu criar um movimento global ao consciencializar e mobilizar dezenas de milhões de pessoas por todo o mundo.

Temos cada vez menos tempo para a mudança, e cada vez mais urgência na mesma, que não poderá ser realizada com meros “cuidados paliativos” (ao estilo Acordo de Paris) não indo à raiz do problema. “A nossa casa está a arder”, como Greta já referiu e bem para descrever a urgência da situação, e neste momento, só mudando radicalmente o sistema para outro que seja mais ético, ecológico e justo para tudo e todos, será possível haver uma real e profunda mudança da sociedade e obter esperança de um futuro melhor, e para tal, todos nós temos de sair da nossa zona de conforto e ir para a rua exigir aos decisores políticos e económicos, essa mesma mudança, e para tal a desobediência civil pacífica e massiva será a peça chave.

Um mundo diferente não pode ser construído por pessoas indiferentes” – Peter Marshall

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Antes de ler o relato, veja os seguintes vídeos resumo da marcha a Davos 2020:

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Diário de uma caminhada – O início da aventura

No dia 16 de Janeiro de 2020, cheguei a Zurique na Suiça para participar no evento do Strike WEF ( www.strike-wef.org/gb/ ), onde iria representar o Climáximo. O Strike WEF é um evento organizado por diversos colectivos e activistas suíços para alertar e criar consciencialização na sociedade e lutar contra as alterações climáticas, pressionando instituições políticas, empresariais e outras, para criar leis e mudanças nesse sentido.

Este evento consiste numa marcha de cerca de 50 kms, desde Landquart até Davos (através de vales e trilhos de montanha), onde ao longo do caminho ir-se-ia tentar sensibilizar as populações locais, atrair a comunicação social mundial para passar a mensagem, e o evento iria culminar num protesto no centro de Davos, ao lado da estação de comboios principal, como forma de alertar e consciencializar as pessoas em geral (in loco e especialmente através dos média), e em particular pressionar os políticos e empresários no evento do Fórum Económico (e pelo mundo fora) a deixarem de se ficar apenas pela retórica e promessas vazias, de pararem de atirar areia para os olhos, por exemplo, pelo famigerado greenwashing, e sim, começarem a falar de forma séria e com propostas concretas e profundas sobre questões de protecção ambiental, alterações climáticas, justiça climática, questões éticas e sociais, entre outros assuntos muito importantes que devem ser tratados e implementados com a máxima urgência… mas infelizmente estas instituições e indivíduos recusam-se ver e fazer algo nesse sentido, porque preocupam-se mais com poder e dinheiro, entre outros interesses politico-económicos.

Antes da caminhada em si, a organização do evento preparou algumas formações importantes sobre desobediência civil para todos os activistas que iriam participar, algo essencial para este tipo de eventos, visto que seriam preparados alguns actos de desobediência civil como o bloqueio de estradas. Aquando da minha chegada a uma das formações que foi realizada numa (excelente) sede de activistas climáticos a norte de Zurique (em Schiffau), a mesma foi feita em alemão visto que quase todos os participantes eram ou de origem Suiça ou Alemã/Austríaca, dessa forma foi necessário uma pessoa a traduzir, e inevitavelmente apesar da boa vontade da tradutora, houve perda de informação.

Para além destas formações, também foi organizada uma “conferência alternativa anti-Davos” que foi realizada na zona central de Zurique, no edifício Volkshaus (localizado em Helvetiaplatz), sendo uma associação cultural muito activa e relevante na cidade onde vários colectivos podem organizar eventos. O slogan principal desse evento era a frase “system change, not climate change” (Mudança ao sistema e não mudanças climáticas). Foram discutidos diversos tópicos, nomeadamente a justiça climática, o facto de os países mais pobres serem aqueles que primeira e principalmente mais sofrem com as alterações climáticas, causadas muito em especial pelos países mais ricos, outros tópicos incluem o feminismo, o fracasso do sistema económico mundial (capitalista, etc), o consumismo exacerbado, entre outros assuntos relevantes. O evento esteve praticamente cheio, desde “simples” pessoas interessadas nos temas, até activistas de diversos cantos da europa que procuravam aprender mais, sendo que muitos deles iriam participar na Caminhada.

Como representante da Climáximo tive oportunidade de no dia 18 assistir a essa conferencia e fazer alguns contactos relevantes. Nesse dia também tive a possibilidade de conhecer o meu grupo de afinidade (são uma espécie de “família” constituída por pequenos grupos de activistas que iriam participar na caminhada e com os quais ficar-se-ia mais próximo de forma a facilitar e providenciar apoio mútuo), que consistia essencialmente em diversas raparigas e rapazes da Alemanha e Suíça. Ao final do dia tivemos a oportunidade de poder conversar mais para nos conhecermos, poder dormir numa outra associação cultural num local muito interessante, e a preparar-mo-nos mentalmente para o que vinha no dia seguinte, que seria o primeiro dia da caminhada.

Caminhada – Dia 1

Na manhã do primeiro dia de caminhada, num dia muito frio, eu e muitos outros activistas partimos num autocarro fretado pela organização do evento, desde Zurique em direcção a Landquart, para nos juntarmos a muitas outras centenas de pessoas a partir desse ponto onde se iria iniciar a caminhada. Esta vila fica numa entrada de um vale para os alpes suíços.

O ponto de encontro de todos os activistas participantes na caminhada era ao lado da estação de comboios, onde ficamos quase duas horas para dar tempo para todos os grupos chegarem e organizar-se a marcha. Não só havia pessoas que estavam presentes a título individual, como igualmente havia muitas organizações/colectivos locais e europeias de defesa do ambiente e de defesa dos direitos de animais e humanos, nomeadamente o Extinction Rebellion, Fridays for Future, Clown Army, entre muitos outros…

Algumas das frases presentes nas faixas diziam por exemplo: “World Economic Failure, climate justice now” (referência ao WEF – Tradução: Fracasso Económico Mundial, justiça climática já); “Se o clima colapsa, qual é a primeira coisa que se devia pensar? Tentar resolver o problema”; “How dare you” (referência à Greta – Tradução: Como se atreve?); “Respeite a existência ou espere resistência”; “O clima está a mudar! Porque você não muda?”; “Mais do que dinheiro” (numa imagem com o planeta Terra); “Capitalistas, lordes da guerra, opressores, o vosso tempo está a terminar”; entre muitas outras mensagens (ver as fotos do evento).

Falando com pessoas da organização soube que a Greta Thunberg também pensou na possibilidade de caminhar connosco até Davos, onde ela iria participar em algumas conferências para sensibilizar as pessoas para os graves problemas das alterações climáticas, mas por questões de segurança foi decidido que iria direto para Davos e assim aproveitar para também participar mais cedo no evento do Fórum Económico.

Entretanto a organização do evento promoveu um evento local onde algumas pessoas e organizações falaram de forma a informar e incentivar as pessoas sobre o que se iria passar durante essa caminhada, além de termos tido o nosso primeiro almoço vegano do evento (toda a alimentação servida pela organização era 100% vegetal e muito saborosa).

A nível da comunicação social, estiveram presentes diversos média, desde estações de televisão mas especialmente rádios e jornais. A maioria deles eram provenientes da Suiça e Alemanha, sendo que eu e os membros do meu grupo de afinidade fomos entrevistados por alguns desses média antes da caminhada começar.

Nessa altura encontrei os dois membros do “PT revolution TV”, que iriam fazer live streaming de todos os dias da caminhada, além de dois portugueses residentes na Suíça. Infelizmente não tenho conhecimento de mais nenhum português que tenha partido de Portugal de propósito para participar no evento. Foi caricato e quiça mesmo surreal e engraçado, que quando referia às pessoas que tinha vindo de Portugal de propósito para participar no evento, todas comentaram que ficaram surpreendidas por ter vindo de um país tão longínquo (em comparação com quase todos os outros). Conforme os dias foram passando pude confirmar que a esmagadora maioria dos activistas presentes nos diversos dias eram provenientes da Suiça, Alemanha e Austria, havendo também diversos grupos muito mais pequenos da Itália e de outros países periféricos à Suíça.

E assim por volta do meio dia finalmente começamos a caminhar pela vila e na direcção do vale que primeiramente iria levar-nos até Schiers (primeira paragem) e depois a Kloster (uma grande vila 11 kms antes de Davos), e o ambiente humano era simplesmente fabuloso, todas as pessoas manifestavam muito calor humano, alegria e entusiasmo por estarem a participar num evento e aventura especial como esta, que consistia numa forma de protesto, pressão e sensibilização pela protecção do ambiente, além de ser igualmente como uma espécie de passeio pela extraordinária beleza que são os Alpes Suíços.

Entretanto, conforme íamos caminhando, durante esse dia (e os outros), os militares suíços tiveram a “amabilidade” de nos acompanhar ao longe através de helicópteros militares, de forma a nos vigiar. No terceiro dia isso foi bem mais patente, pois apareceram em muito maior número e até a fazer voos rasantes a poucas dezenas de metros com o objectivo de nos amedrontar (ler mais abaixo), mas não conseguiram produzir esse efeito e pelo contrário, em tom de brincadeira costumávamos acenar para os mesmos para perceberem que não nos iriam intimidar.

Durante os primeiros quilômetros nevou com alguma intensidade, até fazermos a primeira paragem numa aldeia situada n​um vale profundo, entretanto comecei a ajudar os camera-man do PTrevolution que estavam a fazer os directos, também participando nas filmagens e nos comentários nesse dia e ao longo dos outros dois dias, muito especialmente no último antes da chegada a Davos.

Ao longo do percurso de 12 kms que fizemos, foi igualmente muito interessante a interacção com as populações locais por onde passávamos, visto que quase todos olhavam para nós com sorrisos, a filmar, a acenar e a bater palmas como forma de apoio, inclusivamente até mesmo alguns polícias. Realmente sentíamos que tínhamos o apoio da população, algo que nos ajudou a motivar.

Depois de alguns quilômetros fizemos uma paragem técnica num enorme descampado para tratar da organização de grupos que iriam dormir em locais específicos. Soubemos nesse momento que a organização tinha feito um apelo às populações ao longo desse vale, para que dessem guarida a centenas de activistas, e muitas pessoas mostraram solidariedade e disponibilizaram as suas casas para acolher o maior número de pessoas que podiam. Tanto eu como o meu grupo de afinidade como outros grupos de afinidade, no total de cerca de 20 pessoas, ficamos numa casa de 3 andares no alto de uma das montanhas que nos rodeavam, e a família que nos acolheu demonstrava ter uma enorme sensibilidade e consciência para as questões ambientais e sociais, e cuidou de nós como se fizéssemos parte da sua família. Sempre que podia aproveitava a oportunidade para falar com habitantes locais e da Suíça de forma a conhecer melhor a realidade local/nacional, e o que achavam do Fórum Económico Mundial (FEM – WEF em Inglês) e do que nós estávamos a fazer. O que me foi dito foi que uma grande parte da população não tem interesse ou não aprova o FEM e preferiam que não se realiza-se, e disseram que para ajudar a convencer a população local da utilidade do FEM, o governo suiço anunciou que as despesas para organizar o FEM chegavam a 50 milhões de francos, e que o retorno financeiro seria de 60 milhões (sem explicarem como), mas poucos acreditam nisso e pensam que isso serve apenas para “atirar areia para os olhos” dos cidadãos.

Depois da conversa e reunião que tivemos de forma a preparar o dia seguinte, e antes de dormir, aproveitei a oportunidade para ter mais uma aventura e sozinho fazer um pequeno passeio à noite pelo topo da montanha, sendo que é uma experiência muito diferente e que vale a pena… isto é, se não se tiver medo de andar de noite no meio da floresta.

Caminhada – Dia 2

Acordamos muito cedo e tomamos um grande e delicioso pequeno almoço, que foi preparado pela organização do evento tendo sido transportado até à casa onde estávamos a dormir. Depois dos agradecimentos e despedidas para com a família que nos acolheu, seguimos caminho a descer a montanha até uma aldeia no fundo do vale, onde nos iríamos encontrar com o grosso dos activistas e tomar um chá oferecido por um restaurante local. Depois continuamos a caminhada a cantar, a dizer frases de protesto, a acenar aos motoristas (passávamos perto das estradas) e habitantes. Esta seria a etapa mais longa com cerca de 22 kms que teríamos de percorrer, que iria terminar na vila de Klosters., onde iríamos dormir no pavilhão local. Apesar de este ter sido o dia com mais quilômetros de caminhada, foi o dia mais calmo e com menos eventos relevantes a contar.

Embora no primeiro dia tenha havido uma elevada quantidade de pessoas a participar na marcha, com cerca de 1500/2000 pessoas, no segundo dia foi diferente, tendo participado pouco mais de 500 activistas, mas como era de esperar, no terceiro dia a situação foi novamente diferente e participaram cerca de 1000/1500 activistas,

A meio da caminhada paramos numa aldeia onde tomamos o almoço, repleto de alimentos muito saborosos, e quem quisesse podia repetir mas só depois de todos se terem alimentado. O espírito de solidariedade, confiança, apoio e respeito pelos outros companheiros de viagem estava sempre presente em todos os momentos, num certo sentido éramos como uma grande família, unidos por causas de grande importância. Este foi um dos aspectos que tornou esta aventura ainda mais especial. Só experienciando algo assim é que se pode compreender realmente a sua profundidade e impacto pessoal e colectivo.

Depois dessa paragem continuamos a viagem durante mais algumas horas, sempre guiados pela polícia (que ia à frente a orientar e a bloquear estradas) até chegarmos a Klosters, e dirigimos-nos para o pavilhão local onde iríamos assistir a uma conferência e dormir em grupo, visto que a arena tinha a capacidade para alojar várias centenas de pessoas no chão.

Entretanto, também começamos a nos preparar para o último dia, o mais crítico, fazendo reuniões primeiro entre os grupos de afinidade e depois com todos os outros grupos em conjunto, de forma a decidir que opções existiam para apanhar diferentes caminhos e o que fazer. Essas reuniões eram feitas de uma forma horizontal (realmente democrática) em que todos tinham uma voz e poder de decisão, e foram vitais para decidir o que fazer e como no dia seguinte, visto que como não tínhamos autorização para caminhar pela estrada que iria directo para Davos porque estava bloqueada pela polícia, e também pretendíamos fazer algumas acções de desobediência civil. Tudo somado, o dia seguinte prometia ser muito tenso.

Caminhada – Dia 3

No terceiro e último dia desta aventura, acordamos bem cedo de manhã para nos podermos preparar melhor para um dia que prometia ser intenso e mesmo potencialmente bastante complicado, em relação ao que poderia acontecer com a polícia ao longo da caminhada. Na noite anterior e nesta manhã tivemos diversas reuniões para tomar várias decisões do que fazer ao longo do dia, de forma a preparar-se a estratégia e mitigar potenciais dificuldades que pudessem surgir, visto que o intuito era o de bloquear estradas e protestar em diversos pontos ao longo do caminho que iríamos percorrer. Tentamos sempre ter muito cuidado nessas reuniões finais para evitar que as autoridades descobrissem os nossos planos, mas como irá ser referido mais à frente, as mesmas (polícias, militares, etc) conseguiram descobrir o que tínhamos planeado porque desde o início que tinham polícias infiltrados no grupo, e de forma constante estavam a monitorizar as comunicações (vídeos dos live streaming, walkie talkies, etc) que estávamos a utilizar na caminhada.

Depois de tomarmos o último pequeno almoço, todos os activistas começaram por se dirigir para o exterior do pavilhão e para o meio da vila de Klosters, de forma a concentrar as pessoas e preparar o início da etapa final da marcha. Nesse momento havia muitos meios de comunicação que estavam a filmar, fotografar e/ou a entrevistar activistas, e a maioria iria acompanhar os activistas ao longo de todo o percurso, algo que seria muito importante por questões de segurança das pessoas (testemunhar potenciais abusos / ataques da polícia).

Assim, numa determinada hora quando todas as pessoas estavam juntas e preparadas, começamos a caminhar montanha acima, todos a cantar e/ou a gritar palavras de ordem, sempre bem animados e com um forte espírito de grupo, com muita vontade de cumprir todos os objectivos e chegar a Davos.

No entanto de todo o grupo de activistas, por questões estratégicas e devido ao grau de dificuldade na caminhada através da montanha, cerca de metade iria dividir-se e optar por caminhar na direcção da estação de comboios em Klosters e por esse meio ir directo para a estação de Davos Laret, que ficava no topo da montanha mais ou menos a meio do percurso de 12 quilômetros. A outra metade iria realizar todo o percurso a pé, fazendo a parte mais difícil da caminhada que seria subir toda a montanha durante cerca de 5 quilômetros, uma subida exigente em trilhos pequenos e cobertos de neve, que por vezes poderiam ir até a 1,5 metros de profundidade. Apesar de fisicamente ter sido mais difícil esta parte do percurso, muito em especial para pessoas menos experientes, pessoalmente para mim foi uma das melhores e mais interessantes fases da caminhada, em que fizemos trilhos de montanha por dentro da floresta que eram muito bonitos e interessantes, com uma paisagem deslumbrante (ver as fotos).

Enquanto subíamos a montanha e mais perto do topo, começamos a reparar num aumento do número e frequência dos helicópteros militares a nos sobrevoar e a filmar, para poderem vigiar os dois grupos (o que subia a montanha e o que estava na estação de Davos Laret). Connosco e na frente de cada grupo iam sempre dois policiais fardados para “desbravarem” o caminho e impedirem potenciais problemas que pudessem surgir.

Sobre a questão relativa às autoridades, é igualmente importante salientar que desde o início da caminhada (dia 1) que eu como outras pessoas desconfiávamos que pudesse haver algum policial infiltrado dentro do grupo de activistas, como é usual a polícia fazer neste tipo de casos, e foi precisamente neste terceiro dia que pudemos confirmar essas suspeitas. Conseguimos descobrir e desmascarar o policia infiltrado a fazer-se de activista de forma a tentar vigiar as pessoas e obter informações, e quando o mesmo percebeu que tinha sido descoberto, desistiu de manter o disfarce e desde então até ao final saiu do grupo e permaneceu junto aos colegas fardados que estavam na frente da marcha. Apesar desta descoberta, ainda havia suspeitas da possibilidade de haver pelo menos mais um polícia infiltrado, que não conseguimos descobrir.

No entanto a situação ia mais além de “simples” polícias infiltrados, pois eu e outro colega português da PT revolutions que estava responsável por fazer o live streaming do evento, iríamos descobrir mais tarde na caminhada, numa altura que já estávamos perto do grande lago adjacente a Davos, que de facto as autoridades suíças (polícia, militares, serviços secretos), sempre estiveram a espiar em directo as transmissões de vídeo live streaming da PT revolutions. Soubemos isso por um acaso, porque nesse momento que estávamos parados junto ao grande lago, encontramos alguns militares suíços que estavam a ver as transmissões do live streaming e em conversa com os mesmos até chegaram a (oficiosamente) admitir isso.

Logo na altura que soubemos disto e depois do surpresa inicial pelo ridículo da situação, eu e o Nuno prontamente decidimos enviar uma “mensagem de saudação” (ver o live stream) a todas essas autoridades, e em tom de brincadeira aproveitar para perguntar se, para tomarem tantas e exacerbadas medidas de segurança e espionagem, se por acaso tinham medo de nós, dos factos expostos pelos nossas palavras e da nossa mensagem (pelo menos os políticos garantidamente que sim). Afinal não éramos nenhum grupo radical e sim totalmente pacifista, e demos a recomendação para em vez de estarem a perder tempo com pacifistas, deveriam sim fazer algo de útil e investigar os verdadeiros criminosos, sejam políticos ou outros. Ficou a mensagem para eles.

Cerca de 3 horas depois de subirmos a montanha, encontramos o outro grupo que estava à nossa espera perto da estação de Davos Laret, num local perto de um lago congelado onde fizemos uma pausa para descansar, alimentar e preparar as próximas horas. Nesse momento já tínhamos feito metade do caminho e até ao momento não tinha havido nenhum problema, mas a parte chave vinha logo a seguir, sendo que as próximas horas certamente iriam ser muito tensas, pois já estávamos preparados para começar a fazer algumas acções de desobediência civil, como bloquear estradas.

Depois de 30 minutos de paragem, prosseguimos caminho na direcção de Davos, onde poucos minutos depois passamos por uma aldeia e finalmente cruzamos a estrada principal que liga Kloster a Davos (estrada essa bloqueada pela polícia com um check-point localizado mais perto de Klosters), sendo que mais de metade do grupo passou pela estrada para deslocar-se por um caminho de terra batida que passa pelo meio da floresta, mas logo que a primeira metade passou, os activistas que estavam na parte de trás começaram a dividir-se em dois pequenos grupos para bloquear essa estrada, um ficou a bloquear a estrada nesse ponto exacto que passamos e outro foi a correr mais acima da estrada para bloquear uma outra parte da mesma… e foi este o momento mais tenso de toda a caminhada.

Apesar de suspeitarmos que a polícia já sabia o que pretendíamos fazer, ainda assim nos primeiro minutos a polícia não conseguiu impedir o que estava a acontecer de momento porque não tinham efectivos suficientes para travar os activistas, no entanto não demorou muito a começarem a aparecer diversas carrinhas da polícia com membros da polícia de choque, a começar a equiparem-se para travar os activistas, pois já estariam preparados para agir para confrontar este tipo de acções de desobediência civil. Durante esta fase de bloqueio de estrada, tive novamente a possibilidade de apoiar o PTrevolutionTV e ajudar nas filmagens e comentários, estando a filmar o bloqueio e a polícia a chegar, a preparar-se para investir e forçar o desbloqueio da estrada. Apesar de nas reuniões dos activistas (da parte da manhã) ter ficado combinado que o grupo que ia para Davos continuaria a caminhada para chegar a tempo à vila para se poder realizar o protesto na mesma (que iria começar às 15h), ainda assim todas as pessoas pararam e ficaram a mostrar solidariedade com os dois pequenos grupos que ficaram atrás a bloquear a estrada, através de palavras de ordem e cantos, mostrando que estávamos ali a os apoiar e a ajudar no caso da polícia intervir. Foi um momento de grande solidariedade e união de grupo. No total o bloqueio demorou algo por volta de 60 a 90 minutos, sendo que durante essa altura existiram diversos helicópteros a fazer voos rasantes a muito baixa altitude de forma a filmar e intimidar os activistas. No entanto, apesar da polícia de choque já estar preparada para atacar os manifestantes, esta agiu de forma inteligente e foi paciente esperando pela desmobilização das pessoas, sendo que numa determinada altura os 2 grupos desmobilizaram e prosseguiram com a caminhada, e fomos, mais uma vez, todos juntos a caminho de Davos. Este foi sem dúvida o momento mais tenso e difícil da caminhada, em que estivemos muito perto de ser atacados pela polícia.

Entretanto continuamos mais para sul para Davos através de caminhos de montanha e passamos por uma aldeia através da estrada principal durante algumas centenas de metros, tendo a polícia de choque estado fortemente presente para “guiar” e obrigar os manifestantes a irem por um determinado caminho fora dessa estrada, sendo que não tivemos hipótese de continuar pela mesma por esse motivo, embora tenhamos feito mais uma paragem de vários minutos para mais uma vez bloquear a estrada, em que mais uma vez as pessoas aproveitavam para cantar, dançar e lançar palavras de ordem. Cerca de 15 minutos depois continuamos mais um quilômetro até pararmos num outro ponto que voltava a cruzar a estrada principal, numa zona que ficava ao lado de um grande lago ao lado de Davos. Nesse momento já conseguíamos ver a vila a poucos quilômetros de distância. Faltava muito pouco para a caminhada terminar, cerca de uma hora de caminhada. Tentamos ir pela estrada principal até à vila, mas mais uma vez a polícia não permitiu, pelo que fomos obrigados a tomar um outro caminho mais longo à volta do lago principal de Davos.

Os últimos kms correram de forma pacífica e sem nenhum sobressalto, mas infelizmente quando já estávamos a entrar dentro de Davos, os activistas que iriam regressar a Zurique de autocarro (eu inclusive) tiveram de sair da marcha e não puderam participar no protesto em Davos. Mais tarde tive a oportunidade de ver pelos vídeos da PT revolutions como correu o protesto, e foi positivo, a polícia não colocou nenhum entrave. Assim, pela primeira vez em 50 anos, activistas puderam chegar a Davos e protestar. Que se tenha conhecimento, durante toda a caminhada não ocorreu nenhum tipo de violência ou detenção perante os activistas, o que tendo em conta o tenso contexto, foi muito positivo.

E para mim terminava assim esta incrível aventura na Suíça, que foi algo especial a diversos níveis. Levava o sentimento de missão cumprida e de memórias que não esqueceria, pelo lindo país e caminhada em si, pela aventura, pelo convívio (como que em família) que tive com os outros activistas. Se este evento voltar a ser repetido em anos futuros, recomendo a todos que possam que participem no mesmo.

Como curiosidade final, assina-lo que no dia seguinte tive a infelicidade de cruzar-me com Donald Trump no aeroporto, sendo um dos maiores responsáveis actuais por muitos dos problemas ambientais, sociais, éticos, entre outros, existentes no planeta. Basta lembrar de como a Greta reagiu quando viu pessoalmente este indivíduo. Trump representa o que há de pior no ser humano e na sociedade, é um símbolo perfeito para o sistema e mentalidade vigente, que é retrogrado, ganancioso, divisor e auto-destrutivo, e do qual temos de mudar de forma bastante radical, isto, se queremos proteger o que resta da vida no planeta e para a própria humanidade sobreviver.

Resultados e Conclusão

Esta caminhada de Landquart a Davos foi sem dúvida uma aventura enorme e especial. O evento em si esteve muito bem organizado e os responsáveis do mesmo e todos aqueles que participaram estão de parabéns, visto que todos se comportaram de forma pacífica e cooperativa, colaborando para o sucesso do evento. Notou-se que a organização (formada por diversos colectivos na Suíça) teve um gigantesco trabalho logístico e precisou de muitos recursos (humanos, económicos, etc) para realizar o evento e nos proporcionar todos os apoios e a melhor experiência possível. Há que reconhecer e os congratular por todo esse esforço humano e económico.

A nível dos objectivos que nos propusemos alcançar com a caminhada, pode-se dizer que em geral foram cumpridos e tivemos muito sucesso: Além da marcha em si ter corrido muito bem, segundo a organização do evento, desde que existe o FEM de Davos (há 50 anos), esta foi a primeira vez que activistas conseguiram chegar a Davos e nos foi permitido protestar no meio da vila. O evento também chamou a atenção dos meios de comunicação internacionais, o que permitiu divulgar a mensagem um pouco por todo o mundo, sendo que em Portugal o mesmo foi falado e divulgado na televisão, rádio, jornais e revistas (ver no final).

Infelizmente, à semelhança do que aconteceu na COP de Madrid no final de 2019, ao contrário da retórica de alguns políticos e empresários que participaram no FEM e que de forma breve e inconclusiva mencionaram a necessidade de proteger o ambiente, na realidade a conferência de Davos não produziu literalmente nenhum efeito prático no sentido de criar medidas concretas para proteger o ambiente, como a diminuição dos GEE (Gases de Efeito de Estufa – dióxido de carbono, metano, entre outros), ou quaisquer outras medidas que são absolutamente necessárias e urgentes.

O Futuro:

Torna-se dolorosamente óbvio que de forma geral, o poder político e econômico ignora de forma constante e deliberada os factos do que se passa actualmente no mundo, além dos avisos da ciência acerca da catástrofe ecológica e sexta extinção em massa pela qual já estamos a presenciar e viver, que infelizmente vai intensificar-se muito nos próximos anos, e seja por interesse ou medo, não tem vontade suficiente para elaborar medidas para a protecção do ambiente e combate às alterações climáticas, que são o maior perigo e desafio que a Humanidade já enfrentou em toda a sua existência.

Desta forma, cada vez mais é necessário que seja o povo em geral e as organizações e colectivos sociais e ambientais a irem para a rua protestar pacificamente (ex: desobediência civil, boicotes, etc) para fazer pressão e exigir que as pessoas e entidades com maior poder político e económico para mudar o mundo, o façam realmente no sentido de ajudar a proteger a natureza e toda a vida. Terminou a era do simplesmente “pedir a mudança” e esperar bom senso da “outra parte” (de quem tem o poder), começou a era do “EXIGIR a mudança”, do povo tomar o poder nas ruas, através de desobediência civil não violenta e por outras formas que façam a diferença, para abalar o status quo, conseguir-se criar uma massa crítica e assim forçar uma profunda mudança politico-económica, ambiental, ética e social a nível global.

Já existem soluções (técnicas, científicas e filosóficas) para todos os problemas com os quais nos deparamos, basta haver vontade política e social para as implementar à escala nacional e internacional. Muitas dessas soluções podem ser encontradas em eco-aldeias e eco-comunidades um pouco por todo o mundo, onde as pessoas vivem numa quase perfeita harmonia com os outros e com o ambiente. (Para mais informações consultar: www.ecovillage.org )

Segundo o consenso científico, temos menos de 10 anos para conseguir esse objectivo antes de ser tarde demais, e se falharmos nisto, não haverá esperança para a vida no planeta e consequentemente, para a humanidade… mas enquanto houver vida há sempre esperança, e nós não desistiremos até conseguirmos elevar a consciência da humanidade e criar essa profunda mudança do sistema…Afinal como Margaret Mead já referiu: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e empenhadas possa mudar o mundo, de facto, foi sempre assim que aconteceu”.

…BY 2020 WE RISE UP…

Seja a mudança que quer ver no mundo” – Mahatma Gandhi

(Paulo – Relato escrito em 2020)

* * *

Vídeos e Informações Adicionais

– Mais vídeos da organização: https://strike-wef.org/gb/video/

– Mais informações sobre o evento de Strike WEF – Davos: https://strike-wef.org/gb/die-winterwanderung-hat-davos-erreicht-der-protest-geht-weiter/

– LIVE STREAMING do PTrevolutionsTV – Filmagem completa dos 3 dias de caminhada:

– Mais vídeos:

https://www.facebook.com/watch/NOWEF/

– Mais fotografias tiradas por diversas pessoas:

https://www.facebook.com/ptrevolutiontv.live/posts/3301256263225154

– Algumas notícias do evento nos média em Portugal:

https://www.wort.lu/pt/mundo/ativistas-pelo-clima-iniciam-marcha-a-caminho-de-davos-5e24af9fda2cc1784e35458b

https://www.dn.pt/dinheiro/voces-ainda-nao-viram-nada-ativistas-do-clima-prometem-agitar-forum-economico-11729256.html

https://observador.pt/2020/01/19/ativistas-pelo-clima-iniciam-marcha-para-recordarem-em-davos-que-nao-ha-planeta-b/

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