Não nos obriguem a vir para a rua gritar – Diogo Silva

A Ciência é clara: temos menos de dez anos para cortar a metade as emissões globais de gases com efeito de estufa. Se quisermos ser justos face à responsabilidade histórica e capacidade económica de um país, isto significa cortar ¾ das emissões em Portugal. Estamos a arder e qualquer tarefa política que não contribua para a solução, agrava o problema.

O PS tem o seu aniversário esta semana e há pouco ou nada a celebrar. É cada vez maior a hipocrisia de se dizer guiar pela ação climática e nos fazer ir a pique para o caos climático — o caos que aprofunda todas as crises sociais e ambientais que já vivemos.

Não faltam casos para o notar, só este ano: a presidência do Conselho da UE em que se dá prioridade a desafios verdes mas se aceitam patrocínios das empresas mais poluidoras; a negociata na Refinaria da GALP em Matosinhos que mantém a capacidade de refinação nacional mas nada garante ao futuro de quem lá trabalha; e a vontade inexplicável de mais um aeroporto em Lisboa, mesmo que se tenha que criar leis que retirem poder de veto aos municípios. Ao mesmo tempo, perseguem-se ativistas que tudo têm feito com o quase nada que têm, para travar tanta insanidade junta.

Precisamos de aviões mas não precisamos de mais aviação.

Ligar o continente às ilhas é um serviço público essencial, mas num momento de quebra total de procura global, com uma crise climática a avançar em ritmo acelerado para o colapso de vários sistemas básicos de suporte à vida, precisamos de menos avião e mais imaginação. Só a falta de imaginação pode levar alguém a dizer que não há alternativa.

E o decrescimento da aviação fosse planeado com todos os trabalhadores e populações afetadas?

E se fosse garantido que todas as trabalhadoras da aviação tivessem formação e emprego garantido nos setores onde tem que haver um investimento massivo, como as energias renováveis e a ferrovia?

E se, como se prevê, tivéssemos que criar tanto emprego nessa transição justa que não só precisamos de empregar quem sai dos sectores poluentes como também temos que empregar muito mais pessoas, podendo dar prioridade a quem mais sofre com o flagelo do desemprego?

E se as contas que têm sido feitas nos digam consistentemente que o custo da inação da climática é muito maior do que o custo da ação climática justa?

Ideias não faltam, tanto na campanha ATERRA como nos Empregos para o Clima. Falta vontade política, abunda e fede a hipocrisia.

No aniversário do PS, só as ruas servirão para o travar de nos levar a pique para o caos climático. A nossa casa está a arder e não podemos depositar a esperança onde ela vai para morrer. Esta segunda-feira, a tarefa política certa é estar numa manifestação Em Chamas.

Artigo originalmente publicado no jornal Expresso a dia 19/04/2021.

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