Antes da cimeira do clima de Biden, Climáximo apresenta guia para seguir cimeiras do clima.

Depois de 26 conferências da ONU, dezenas de cimeiras do G-8, G-7 e G-20, e muitas mais conferências internacionais, as emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar. O Climáximo explica porque é que estes eventos diplomáticos – apesar de serem quase sempre em tom de celebrações de vitória – não resultam em avanços na acção climática.

O Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, convocou para os dias 22 e 23 de Abril uma “Cimeira dos Líderes pelo Clima” (Leaders Summit on Climate), convidando 40 líderes mundiais num encontro virtual para debater políticas climáticas.1

O Climáximo, colectivo pela justiça climática, sublinha que as políticas climáticas até agora apenas serviram para criar oportunidades de lucro para as mesmas empresas que lucraram com os combustíveis fósseis. As cimeiras, pela sua vez, gastaram mais recursos e energia em marketing e estratégias de comunicação do que na criação de políticas públicas. Estas não são falhas do sistema, são a maneira como o sistema funciona. Isto foi experimentado ao longo de décadas. É tudo previsível.

Nesse sentido, em vez de enviar mais uma denúncia, depois de uma cimeira inútil em que se avançará na mercantilização do planeta enquanto se tentar lavar a imagem dos governos e da indústria de combustíveis fósseis, o Climáximo preparou um guia de como seguir os discursos e as declarações neste tipo de cimeiras.

Muitas vezes o diabo está nos detalhes, outras vezes está muito mais visível. Em todos os casos, existem dezenas de especialistas que trabalham para esconder o significado da informação. Este guia pode ajudar o público e a imprensa interessada a interpretar os “resultados” da(s) cimeira(s) duma forma mais clara.

(1) Quem foi convidado?

Quem não foi convidado?

As cimeiras da ONU têm delegações de todos os países, mas têm simultaneamente representantes das empresas no mesmo espaço a organizar palestras, exposições e pequenas reuniões oficiosas.

Para a primeira cimeira climática de Biden foram convidados os membros da Major Economies Forum on Energy and Climate (Fórum das Economias Maiores sobre Energia e Clima, que tinha sido criado em 2009 e esteve inactivo desde essa altura) e “outros países que mostram forte liderança climática, são especialmente vulneráveis aos impactos climáticos, ou seguem modelos inovadores para chegar à neutralidade carbónica.” Pode-se fazer uma observação dos países que faltam nesta curta lista – onde estão Moçambique, Bangladesh, Kiribati, entre tantos outros dos países que já estão a ser devastados pela crise climática? E o que fazem nesta lista, por exemplo, a Polónia, a Arábia Saudita, a Turquia e os Emirados Árabes Unidos, considerando estes critérios?

É também importante ficarmos atentas: há mais convidados? por que critérios foram escolhidos? que interesses representam?

(2) Quem está presente?

Quem não está presente?

É também importante analisar quem não participou na cimeira e por que motivos. Os negacionistas climáticos preferem tendencialmente estar presentes para travar o processo ou criar lacunas, enquanto os países mais afectados boicotam estes espaços, denunciando que os mesmos só legitimam falsas soluções para a crise climática.

Desta vez até pode não ser o caso, porque esse problema pode estar pré-resolvido pela escolha da lista de convidados de Biden. Mas negacionistas não faltam.

(3) As discussões são sobre que ano?

Os participantes vão estar vivos? Vão estar no poder?

Nestas negociações em particular, os políticos gostam de fazer compromissos para tempos que não os impliquem.

É por isso que, em vez de falar sobre o que vão fazer em 2021 ou 2022, provavelmente vão falar sobre 2030 (quando dificilmente estarão no poder – excepto os que estão sempre no poder) ou falarão de forma corajosa sobre o que irá a acontecer em 2050 (quando provavelmente muitos já não estarão vivos).

(4) Qual é o ano de referência?

Cada país tem o seu ano de referência favorito. Os documentos da ONU usam dois: redução de emissões relativo às emissões em 1990 (nos acordos e protocolos anteriores) e redução de emissões relativo às emissões em 2010 (relacionado com o Acordo de Paris e a base dos cortes necessários segundo os relatórios do IPCC).

Os governos portugueses gostam de usar o ano de 2005, porque logo a seguir veio a crise financeira que fez colapsar as emissões.

O último relatório do IPCC diz que é necessário “cortar as emissões actuais por metade até 2030”. Os governos na Europa também falam em cortar as emissões para metade, mas mudam os anos de referência e então aquilo já tem pouco a ver com o que a Ciência está a dizer. É preciso cortar as emissões pela metade até 2030 – em relação às emissões de 2010. Em relação às emissões de 2010. 2010.

(5) Vão cortar as emissões?

Vão deixar os combustíveis fósseis debaixo do solo?

Vão fazer a transição?

Nestas cimeiras há uma tendência geral de evitar o ponto principal: cortar efectivamente emissões, o que implica deixar os combustíveis fósseis debaixo do solo. Muitos governos, em vez de dizer o que vão fazer, falam acerca do que vai acontecer, sem explicar como. Esta talvez seja a melhor medida para avaliar o compromisso dos governos com a acção climática.

Os governos estão a dizer que vão deixar os combustíveis fósseis debaixo do solo? Ou estão a dizer que vão dar subsídios / incentivos / garantias às empresas e aos mercados?

Uma variante desta ambiguidade e desresponsabilização é acerca do emprego. Quando um governo diz que “empregos vão ser criados” em vez de dizerem que “vai criar os empregos necessários”, sabemos que a credibilidade desta previsão baixa muito. Quando um governo fala de transição, isso quer dizer muito pouco. Fala do encerramento de algumas estruturas que já são inúteis, mas não fala acerca do local para onde se deslocará essa actividade (isto é, não garante cortes efectivos de emissões), não envolve trabalhadores e não dá, obviamente, garantia a quem trabalhava nessas indústrias de que terá a participação e o apoio necessário.

(6) Quanto aquecimento causam os compromissos declarados?

Os comunicadores dos governos usam uma estratégia frequente: comparam os compromissos actuais com alguma situação anterior pior, e depois anunciam que houve um avanço. Quando uma pessoa tem um braço completamente gangrenado, cortar um dos dedos infectados não salva a pessoa.

Com as mobilizações e greves climáticas nos últimos anos, apareceu um hábito desagradável para estes governos, que é comparar os compromissos com a ciência climática e com a sua execução. Isso tem ajudado a perceber a enorme ilusão que é todo o aparelho institucional internacional que lida com a crise climática.

O Carbon Budget Calculator2 (Calculadora do Orçamento de Carbono) é uma ferramenta essencial para distinguir acção climática de palavras vazias.

(7) Esse compromisso já não tinha sido feito antes?

Como correu dessa vez?

Qualquer pessoa atenta às declarações do G20 terá reparado que os líderes continuam a fazer os mesmos compromissos climáticos ano após ano, sem qualquer avanço real. Isto acontece por duas razões: primeiro, porque os compromissos são sempre sobre o mandato do próximo governo (pergunta 3); e segundo, porque esses compromissos nunca são vinculativos.

Mesmo assim, há um certo wishful thinking em dizer que “desta vez é que vai ser.” Isto aplica-se tanto aos cortes das emissões como ao financiamento climático. Existe alguma razão específica, alguma medida concreta e vinculativa, para acreditar nisso? Existe alguma meta real, quantificável que vá entrar em efeito no curto-prazo para monitorizá-la? A resposta é não.

Em todas as cimeiras há alguma novidade imprevista (ou meticulosamente fabricada) para garantir algum impacto mediático. Deixando de lado esses truques, o Climáximo considera que na Cimeira dos Líderes do Clima desta semana:

  • Será reconsolidada a hegemonia dos EUA – o maior produtor de combustíveis fósseis do mundo – nas políticas climáticas. Isso vê-se no facto da cimeira ser realizada fora dos processos internacionais e vê-se na escolha dos convidados e dos não-convidados.

  • Lavar-se-á a imagem dos países presentes mais responsáveis pela aceleração da crise climática, tendo sido convidados alguns show-cases de países muito afectados pela crise climática, cujos presidentes posarão para fotos com apertos de mão com os líderes políticos responsáveis pelas catástrofes.

  • Será anunciado o lançamento de novos projectos renováveis um pouco por todo o mundo, enquanto dezenas de novos gasodutos, oleodutos, portos e terminais de GNL, novos poços de petróleo, expansão aeroportuária, fracking e desflorestação continuarão lançados sem anúncio. As energias renováveis não retiram o dióxido de carbono nem outros gases com efeito de estufa da atmosfera. Nenhum governo anunciará o cancelamento de um novo projecto de combustíveis fósseis ou encerramento antecipado duma infraestrutura existente em 2021 ou em 2022.

  • Nas declarações finais tornar-se-á claro à luz da ciência climática que quaisquer novos compromissos garantem esgotar o orçamento de carbono antes de 2030.

  • Os governos vão desresponsabilizar-se do caminho que está a ser seguido, rumo ao caos climático, apresentando o mercado e tecnologias que não funcionam como a única solução para a crise climática. O tal “número pequeno de líderes de negócio” ficará – uma vez mais – muito satisfeito com este desfecho.

Este guião serve, com ligeiras modificações, para acompanhar as futuras cimeiras climáticas. Está disponível como PDF aqui: Guia para seguir cimeiras do clima – Climáximo


1 Informação obtida no comunicado de imprensa no site da Casa Branca: https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statementsreleases/2021/03/26/president-biden-invites-40-world-leaders-to-leaders-summit-on-climate/

2 Carbon Budget Calculator é uma ferramenta interactiva em que o visitante pode escolher vários cenários de cortes de emissões e ver quando o orçamento de carbono acabaria: https://carbonbudgetcalculator.com/ Por exemplo, se todo o mundo se comprometesse a reduzir as emissões por metade em 2030, nesse mesmo ano acabaria o nosso orçamento de carbono para 1,5ºC, o que significa que teríamos de encerrar a economia inteira para ficar dentro das probabilidades assinaladas pela ciência.

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