Na nossa era, ondas de calor são crimes – João Camargo

As ondas de calor longas e de temperaturas muito elevadas são fenómenos de mortandade extrema. Os sistemas eléctricos colapsam. Os transportes ficam muito limitados. Deslocar-se é muitas vezes um risco. A crise climática é uma crise global. É também um crime global.

Tem havido uma relutância histórica da imprensa em atribuir directamente fenómenos climáticos extremos ao aquecimento global, mas com o agravar da crise climática esse prurido tem definitivamente de acabar. Com todos os recordes de temperatura a serem quebrados sucessivamente e com as concentrações a manterem-se em ascensão, a manifestação da crise climática é a concretização dos piores cenários que a ciência climática há muito avança. Não são crimes sem autor: governos e empresas que tudo fazem para manter a normalidade do capitalismo fóssil são criminosos contra o conjunto da Humanidade.

Ontem estiveram 49.7ºC na Columbia Britânica, Canadá, à mesma latitude que Londres. O recorde batido era do dia anterior, com 47.9ºC, que batera os 46.6ºC do dia anterior. São as temperaturas mais elevadas alguma vez registadas no Canadá, batendo os longínquos 45ºC de 1937 em quase cinco graus. A cidade de Vancouver, com 2,5 milhões de habitantes, é das mais afectadas. Esta onda de calor está sob a costa ocidental do Norte da América, e só no Canadá já foram registadas mais de cem mortes directamente causadas pelo calor.

Nos Estados Unidos, os estados de Washington e Oregon torram há vários dias, com temperaturas a chegar aos 46.7ºC. As cidades de Portland e Seattle viram ontem uma queda de temperatura, mas está previsto que volte a subir em breve. Estamos a falar de zonas tradicionalmente frias. A maior parte das casas não tem ar condicionado ou outro meio de refrigeração. Mas mesmo que tivessem, os impactos na rede eléctrica, com secções a derreter e quebras no fornecimento, tornam cada casa uma potencial armadilha mortal. O calor tornou as deslocações também muito mais difíceis. As estradas abriram fendas e o asfalto derreteu em vários locais, enquanto a maior parte da rede de transportes públicos colapsou: durante três dias os eléctricos de Portland estiveram desligados porque os cabos eléctricos derreteram, o metro de superfície foi suspenso devido ao impacto do calor sobre os cabos eléctricos.

Estes são os impactos de ondas de calor com esteróides, isto é, as ondas de calor da nova normalidade climática. Portugal está particularmente exposto às mesmas, já sendo as ondas de calor actuais quase dez vezes maiores do que nas últimas décadas do século XX, como recorda o Pedro Matos Soares, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, cujos estudos projectam para o futuro um aumento ainda maior das ondas de calor, tanto na temperatura como na duração das mesmas.

As ondas de calor longas e de temperaturas muito elevadas são fenómenos de mortandade extrema. Os sistemas eléctricos colapsam. Os transportes ficam muito limitados. Se a construção das casas é má, as casas tornam-se um perigo. Deslocar-se é muitas vezes um risco. Se durante a noite a temperatura não baixa, corpos, materiais, todo o ambiente se degrada e a qualidade do ar baixa drasticamente. Não é raro associarem-se incêndios florestais a isto. Apesar de toda a soberba dos países ricos, que ignoram a crise climática porque os principais impactos são sofridos primeiro pelos países pobres e depois pelas populações pobres dentro dos países ricos, quando uma onda de calor dura mais do que três ou quatro dias, as infra-estruturas que garantiriam a segurança deixam de ser factores diferenciadores porque colapsam. A crise climática é uma crise global. É também um crime global.

Os fenómenos climáticos extremos são consequência directa da acção do capitalismo fóssil. Os responsáveis, quer políticos, quer empresariais, pela continuação da existência dos principais emissores de gases com efeito de estufa, são criminosos contra a Humanidade, actual e futura. A nomenclatura destes fenómenos precisa de mudar. Não falemos mais de furacões Mike ou Charlie, mas de furacões BP, Lufthansa ou Gazprom. Não falemos mais da seca da Califórnia, mas da seca Shell. Não falemos das ondas de calor do Pacífico Norte ou do Mediterrâneo, mas sim da onda de calor Total ou da onda de calor China Coal.

Apesar de este crime ser inequívoco, não só não é punido, como a sua continuação não é sequer dissuadida, já que todos os governos do mundo empurram para uma recuperação económica que novamente faça crescer as emissões, estando já previsto para 2021 um aumento de emissões histórico.

O sistema legal não está equipado para lidar com estes crimes. As instituições políticas criadas sob e para a manutenção do capitalismo tampouco. As suas regras, leis e procedimentos foram criadas para facilitar todos os bloqueios possíveis a uma acção tão revolucionária como aquela necessária para atingir um corte global de 50% das emissões até 2030. A crise climática e os crimes climáticos não serão resolvidos pelas instituições actuais.

Artigo originalmente publicado no Jornal Público a dia 01 de Julho de 2021.

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