Capitalismo é extremismo – João Costa

“No meio está a virtude”

“O equilíbrio é a base de tudo”

 

Estas frases feitas costumam ser utilizadas para corroborar visões políticas moderadas, mas numa sociedade desequilibrada, ser do centro é ser extremista.

O que vejo à minha volta é que o sistema capitalista é desequilibrado e insano. Por isso a única maneira de ser equilibrado é ser anti-capitalista.

Vou começar por números mais gerais mas que mostram bem esse desequilíbrio: 2153 bilionários têm mais riqueza do que 4,6 mil milhões de pessoas (60% da população mundial). E isto sem contar com o dinheiro que os 2153 bilionários têm em paraísos fiscais, nem o que ganham de acções ou imóveis que tenham.

Podes pensar que isto é aceitável (não sei bem como) mas se ao mesmo tempo pensares que 690 milhões de pessoas passam fome (8,9% da população mundial), que um terço dos alimentos produzidos anualmente são desperdiçados, que há dois mil milhões de pessoas sem acesso a água potável (30% da população), que 2 mil milhões de pessoas não tiveram acesso a refeições seguras e nutritivas, e a lista continuaria por vários parágrafos, folhas e livros, entendes rapidamente o extremismo e insanidade do capitalismo.

Podes pensar que o capitalismo está a resolver estes problemas aos poucos. Mas se olharmos para os factos, vemos que nem por isso:

– em 2019 existiam mais 60 milhões de pessoas mal nutridas do que em 2014.

– O desperdício de alimentos no mundo mais que duplicou, de 2019 para 2020.

– A riqueza dos bilionários do mundo aumentou 900 mil milhões de dólares, apenas em 2018. Enquanto isso, a riqueza da metade mais pobre da humanidade, 3,8 bilhões de pessoas, caiu 11%.

– Globalmente, as despesas militares aumentaram 3.6% em 2019, para 1 917 mil milhões de dólares. E nem mesmo durante a pandemia as despesas militares pararam de aumentar para mais de 1,6 biliões de euros.

 

Todos os dias ouvimos a palavra extremistas para catalogar quem critica o capitalismo, mas em cada um desses dias morrem 800 crianças com diarreia por falta de acesso a água potável. São 33 crianças por minuto ou 292 000 por ano. Extremismo é o “business as usual”! Quando a sociedade normaliza estes números e eles deixam de chocar as pessoas, é sinal que estamos todas intoxicadas pelo extremismo do sistema em que vivemos.

E em tudo o resto, o extremismo impera:

32% da população mundial (2,3 biliões de pessoas) não tem acesso a saneamento básico

1 em cada 5 crianças (258 milhões) não tem acesso à escola

18,3 milhões de crianças são deslocadas internas

770 milhões de pessoas não têm acesso a electricidade

40% das pessoas em todo o mundo não têm acesso a combustíveis limpos para cozinhar

 

E, novamente, a lista não pára…

 

O extremismo é tanto que nem as pessoas que trabalham conseguem escapar:

– Quase 500 milhões de pessoas que trabalham têm remuneração insuficiente

3,4 biliões de pessoas (48% da população) vivem com menos de 5,5dólares por dia

– Em Portugal, um quinto da população portuguesa é pobre e a maioria das pessoas em situação de pobreza trabalha

E no que diz respeito ao trabalho (escravo), nem mesmo as crianças escapam, pois o trabalho infantil aumentou pela primeira vez em 20 anos.

Obviamente que o capitalismo não considera os trabalhos de cuidados como trabalho e sim como voluntariado, simplesmente porque não dá lucro. Mas estes trabalhos são a base de tudo.

O desequilíbrio e o extremismo do sistema é tanto que enquanto destruímos ecossistemas, queimamos combustíveis fósseis, deixamos pessoas a morrer, somos ensinados a pensar que dominamos a natureza, em vez de pensarmos que fazemos parte dela. Mais de metade da população mundial (55%) vive em zonas urbanas e destes, 20% vive em favelas. Se só contabilizarmos 37 países, existem 1,9 milhões de pessoas em situação de sem abrigo mas em todo o mundo estima-se que sejam 100 milhões de pessoas.

Até agora estou a escrever apenas sobre bens básicos como saúde, alimentação e habitação. Direitos humanos e não luxos. Mas também podemos falar em luxos, como por exemplo as viagens de avião que nos são vendidas como democráticas. Em linguagem extremista, democrático é 11% da população ter andado de avião ou 1% dos passageiros representarem metade das emissões do sector da aviação.

No capitalismo o extremismo é tanto que aceitamos como uma fatalidade que não haja vontade/dinheiro/maneira de acabar com a fome mas aceitamos que todos os anos se gastem 1917 mil milhões de dólares em despesas militares. Apenas cinco países representam 62% deste valor, sendo a América do Norte responsável por 38%.

O capitalismo não respeita os direitos humanos e também não respeita sequer o próprio planeta, pois todos os anos consome 156% da biocapacidade do planeta.

O capitalismo não procura alimentar, abrigar ou cuidar das pessoas nem do planeta. Procura apenas o lucro, tudo o resto são externalidades, como os economistas lhe chamam. Sim, os direitos humanos e o planeta são chamados de externalidades. O capitalismo procura apenas a produção de lucro e a sua concentração em poucas pessoas. Só come quem tem dinheiro para comprar comida, só tem casa quem pode pagar uma e só tem acesso à saúde quem puder pagar por ela.

Tudo isto acontece porque é assim mesmo que está programado para acontecer, não é por falta de recursos ou por qualquer outra impossibilidade, senão vejamos:

– em 2010 foram produzidas 150 mil milhões de peças de roupa

30% das roupas produzidas nunca chega a ser vendida e outros 30% só é comprada com desconto

Mais de 60% da produção de roupa é feita no sudoeste asiático e 60% do consumo ocorre na UE, EUA e japão

12,8 Milhões de toneladas de roupa são deitadas fora anualmente

Ou, como já referi acima, um terço dos alimentos produzidos para consumo humano é perdido ou desperdiçado globalmente.

 

Obviamente é possível alimentar todos os seres humanos, mesmo que algum dia cheguemos a ser 20 mil milhões de pessoas. Se todos os anos alimentamos 70 mil milhões de animais para consumo humano, obviamente conseguimos alimentar todas as pessoas do planeta, condignamente. Basta que a comida seja produzida para alimentar pessoas e não para gerar lucro. As técnicas de agricultura intensiva e monocultura degradam os solos, além de produzirem alimentos menos nutritivos. Outra consequência é a desflorestação pois quando se desgastam os solos, é preciso ocupar novos solos e por isso a agricultura é responsável por 80% da desflorestação a nível mundial.

 

O capitalismo (através das empresas de combustíveis fósseis e da sua propaganda) leva a que coloquemos a responsabilidade em cima de nós. Mas, mais uma vez, o extremismo do capitalismo (e a mentira) impera, já que os  1% mais ricos do mundo são responsáveis por mais do dobro das emissões poluentes do que 50% mais pobres.

O capitalismo diz-nos para reciclar, mas não nos diz que desde sempre só 9% do plástico foi reciclado. Nem tão pouco diz que os planos da indústria petroquímica é aumentar a produção de plástico em 50% até 2025.

 

Outra mentira que o capitalismo e a sua propaganda dizem, é que os humanos são um vírus ou uma praga e que só sabem destruir o planeta. Obviamente que isto não é verdade, porque basta pensar que as comunidades indígenas viveram na floresta por 5 mil anos sem destruir o bioma, ou que essas comunidades indígenas protegem 80% da biodiversidade do planeta e são apenas 5% da população.

 

O extremismo do capitalismo é fácil de entender, se virmos que o lucro está acima de tudo: direitos humanos, saúde, outros seres vivos e até mesmo dos limites físicos do planeta.

 

Para que queremos um sistema que não serve para garantir que os seres humanos e os outros seres vivos vivam com dignidade?

Para que queremos um sistema tão extremista que acha que é possível crescer infinitamente, num planeta que tem recursos finitos?

 

As crises sociais, climática e ecológica estão interligadas e o ponto em comum é o extremismo do capitalismo.

 

Ser anti-capitalista é ser equilibrado, pois o capitalismo é extremismo.

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