Falhar para a frente. – Sinan Eden

Riscos vs. Riscos

Estamos a pôr em risco a civilização humana. O que significa mortes, fome, crises, violações das pessoas e dos direitos humanos, casas a arder e casas inundadas.

O movimento pela justiça climática surge neste contexto. Milhares de activistas estão a pôr-se em risco em acções de desobediência civil, para evitar o risco do colapso climático.

E o Climáximo surgiu neste contexto: num contexto de grandes riscos. Organizámo-nos com esta cultura organizativa de tomar riscos e aprender com os erros.

Desafiámo-nos, durante os primeiros anos, para introduzir e normalizar a acção directa e não-violenta. Fizemos acções bastante fortes, sem qualquer estrutura de apoio legal.

O assunto não podia esperar, por isso nós também não esperámos. Podíamos falhar, e em certos sentidos falhámos, e aprendemos com os nossos erros.

Andar na escuridão, andar para a frente

Em 2018, ainda antes das greves climáticas, dissemos: vamos organizar um acampamento de acção contra o gás fóssil. Assumimos publicamente um compromisso de escalamento de mobilizações para os dois anos seguintes. Assim, sem qualquer experiência prévia na preparação de acampamentos e sem sabermos se já estariam disponíveis as máquinas para fazer o furo de gás, na altura que marcámos, montámos na mesma um acampamento em Bajouca.

Já em 2019, envolvemo-nos na Greve Climática Estudantil e na Extinction Rebellion, novos fenómenos que trouxeram novas tácticas e novas formas de organização. Entregámos todos os nossos recursos e o conhecimento a estes processos. Participámos na Semana de Rebelião em Abril de 2019 e disponibilizámos toda a nossa infraestrutura para a Rebelião em Lisboa em Setembro de 2019 sempre só com as bandeiras da Extinction Rebellion. Com a Greve Climática Estudantil, logo no início ajudámos as organizadoras com as palestras nas escolas, em Maio de 2019, mobilizámos a sociedade civil em apoio das greves e, em Setembro de 2019, co-organizámos a Greve Climática Global. Organizámos muitas formações estratégicas e formações de organização. Ambos os grupos já têm as suas próprias lideranças e os seus próprios percursos. Em ambos os casos de tentativas de colaboração, capacitação e criação de sinergia, houve frustrações, ansiedades e desilusões. (Nascimento é uma experiência dolorosa para todas as pessoas na sala.) Muitas delas foram pela nossa causa, algumas conseguimos curar. Aprendemos imenso e o próprio Climáximo mudou drasticamente, ao longo deste período. Falhámos muito. Falhámos rápido. A história estava extremamente acelerada.

Depois, em 2020, decidimos organizar a acção Galp Must Fall. Mantivemos a acção mesmo com a COVID-19 e mesmo quando foi decidido que a assembleia dos accionistas seria feita online. Em Abril de 2020, em plena pandemia, fizemos acções online e offline. Não conseguimos fazer a Galp cair (não desta vez, pelo menos). Foi um enorme risco estratégico tentar organizar e mobilizar nessa altura. As aprendizagens superaram os sucessos.

Já em Junho de 2020 convocámos (com outras organizações) uma manifestação nas ruas, Resgatar o Futuro. Foram muitos os riscos. Riscos sanitários, como cuidar as manifestantes. Riscos sociais, como a recepção pública duma manifestação nessa altura. Riscos políticos, como tentar combinar as crises interligadas numa narrativa unida. Riscos organizativos, como construir um movimento de movimentos, a partir de grupos com culturas organizativas diferentes. Podia ser um momento desencadeador dum descontentamento popular. Podia ser um flop completo. Nunca vamos saber qual seria, porque entretanto surgiu o movimento Vidas Negras Importam, após o assassino do George Floyd, nos EUA. Assim, juntámos as duas narrativas e oferecemo-nos para a organização logística duma manifestação liderada pelo movimento anti-racista. Fomos flexíveis em termos políticos e organizacionais, mas tudo mudou em poucos dias. Houve falhas rápidas, erros rápidos, faltas de cuidados. Estiveram milhares de pessoas na rua. Mas o nosso contributo foi muito inferior ao que este processo nos trouxe em termos de aprendizagem política.

Depois, em Outubro de 2020 (desta vez já no fim da pandemia, pensávamos nós) convocámos o bloqueio da rotunda de Marquês de Pombal. No Dia da República, sob o lema “Nós somos os Anti-corpos”, juntando um discurso anti-sistémico e reivindicações estruturais fortes. Sem um fluxo de mobilizações, dependendo dos nossos próprios recursos, propusemo-nos a bloquear a maior rotunda dentro da cidade de Lisboa. E conseguimos. Não conseguimos mudar o discurso em relação à crise sanitária, mas conseguimos bloquear a rotunda.

Em Maio de 2021, com a acção Em Chamas, colocámo-nos no meio das crises da TAP, Groundforce e aeroporto do Montijo. Tivemos um enorme sucesso táctico, mas falhámos ao nível da narrativa. Não conseguimos trazer os elementos da transição justa e justiça climática para o debate público. A discussão continua a ser dirigida pelas accionistas e pelo mundo financeiro, ancorada no lucro privado. E agora temos 26 pessoas que foram detidas e levadas a tribunal por desobediência civil em defesa dum planeta habitável, isto representa um novo nível de risco organizativo para nós e um novo nível de risco para as activistas.

Cada acção e cada iniciativa é alimentada pelas anteriores; temos uma estrutura cada dia melhor e mais sólida, e em cada acção estamos a falhar num nível mais elevado. Porque falhamos para a frente.

Uma cultura organizativa de arriscar

No meio disto tudo, lançámos o Acordo de Glasgow, um compromisso para coordenação e escalamento internacionais. Em Portugal, fizemos um inventário das emissões e criámos um espaço colaborativo do movimento, a Agenda pela Justiça Climática. Uma enorme quantidade de recursos foram alocados para criar redes de cooperação intra-movimento, sem qualquer garantia óbvia de sucesso.

Ao mesmo tempo, internamente, declarámos estado de emergência climática dentro do Climáximo. Alteramos o nosso funcionamento de três em três meses quase por completo, arriscámos novas formas de organização, e estamos sempre em modo de reflexão estratégica.

E agora?

Agora, vamos a Sines, à refinaria da Galp, ao centro dos problemas e das soluções. É um risco assustador para tomar. Vamos conseguir explicar a nossa visão de justiça social? Vamos conseguir realizar a acção como desejámos? Vamos conseguir colocar os accionistas da Galp no centro da responsabilidade pela crise climática e pelo desemprego e precariedade? Vamos conseguir deixar sementes numa cidade que contribuiu tanto para o desenvolvimento deste país, para que essa mesma população se junte à construção colectiva e popular de uma nova economia baseada nas necessidades das pessoas e do planeta em vez do lucro e destruição? Não sabemos. Não precisamos de saber isso, para sabermos que é preciso agir.

Tudo isto acima, tem a nossa assinatura. Tudo que falhou é da nossa responsabilidade. Tudo que funcionou teve o nosso modesto contributo.

A crise climática leva-nos a uma precariedade planetária. Viver num mundo de 2ºC mais quente seria viver permanentemente em risco. Para evitar isso, temos que aprender a encontrar a coragem dentro do susto e organizar-nos para tomar riscos.

O business-as-usual está a matar-nos, está a queimar a nossa casa. Organização de business-as-usual, organização por hábito e por timidez política, contribui para manter tudo como está. Ambicionemos organizar-nos para falhar e para aprender. É difícil. É assustador. É a única forma que temos para conseguir uma probabilidade mínima de evitar o colapso.

Ambicionemos a falhar rápido e a falhar para a frente.

Agarra as nossas mãos. Vamos juntas.

Vamos Juntas!


Texto escrito durante o curso Ecology of Social Movements no Ulex, em Outubro de 2021.

sdr

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