A bancarrota moral dos defensores do eucalipto – João Camargo

A bancarrota moral dos defensores do eucalipto e das celuloses é simples: não têm qualquer alternativa a apresentar e só nos exigem que desistamos de ter um futuro. Não têm qualquer plano além do deserto e do colapso: dizem que não se pode reduzir a área gigantesca de eucaliptal, que não se pode tocar nos lucros das celuloses, que não se podem cortar emissões, que nem sequer se pode adaptar o território às alterações climáticas. Essa é, há décadas, a política pública em Portugal

Enquanto os campos ainda fumegam e ardem, a poderosa indústria das celuloses activou os seus intelectuais orgânicos para defender a velha óptica panglossiana: “Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Não haveria pois mais a fazer, já que o trabalho de resolver ou gerir a questão dos incêndios estaria além das nossas capacidades. Existe um senão: em Portugal não existe mitigação ou adaptação às alterações climáticas que não passe por uma redução drástica da área de eucaliptal e da dimensão da indústria das celuloses no país.

Parto do pressuposto de que quem defende o eucalipto e o modelo de negócio das celuloses não nega a existência de alterações climáticas. Se isso for verdade, colocam-se imediatamente dois grandes problemas:

  1. Não existe neutralidade de carbono na indústria das celuloses: a mobilização de solos para a implantação de eucaliptais emite grande quantidade de dióxido de carbono que estava retida nos solos; a utilização de fertilizantes e adubos nos primeiros anos da cultura liberta ainda mais dióxido de carbono para a atmosfera; todas as operações de maneio, limpeza e corte implicam uma grande quantidade de máquinas com motores de combustão interna e todos os materiais que são transportados para as fábricas de celulose e papel estão associados a mais emissões. O dióxido de carbono que foi capturado pelos eucaliptos ao longo do seu crescimento é libertado em grande escala nas fábricas e, por isso, as instalações da The Navigator Company fazem desta a empresa portuguesa que mais emite gases com efeito de estufa das suas centrais, acrescendo ainda as emissões das fábricas da Altri. Acresce a contribuição do eucalipto para a expansão dos fogos e as projeções de material incandescente a quilómetros de distância, foco de inúmeros incêndios secundários, que são emissores líquidos de gases com efeito de estufa.
  2. A presença de eucaliptal em cerca de 900 mil hectares do nosso território impede efetivamente a adaptação às alterações climáticas e à viabilidade em temperaturas mais elevadas. A voracidade, capacidade de expansão, de crescimento do eucaliptal e consumo acelerado de nutrientes do solo e água tornam impossível a criação de florestas e bosques resilientes às alterações climáticas, que combatam a desertificação e contribuam para amenizar o clima a nível local. Uma boa parte do eucaliptal hoje está instalado em territórios que seriam ideais para florestas verdadeiras, com biodiversidade e complexidade biológica. As três rotações (cortes) de eucaliptais deixam no fim o solo comprometido para outros usos, e frequentemente abandonado com eucaliptal. O aumento da frequência de secas, ondas de calor e incêndios faz com que a janela de oportunidade para fazer esta adaptação seja cada vez mais pequena.

A manutenção do eucaliptal como existe hoje impede efetivamente qualquer ação climática útil em termos da viabilidade do país nas próximas décadas. Acresce que a realidade é que não está a haver para uma regressão, mas sim uma expansão das áreas de eucalipto, incluindo em solos com potencial agrícola e, no mais claro exemplo da selvajaria a que estamos entregues, com rega de eucaliptos, desperdiçando água essencial para acelerar a desertificação.

Os defensores do eucaliptal já perceberam há algum tempo a inviabilidade de argumentar pelo aumento da área de eucalipto num país que tem a maior área relativa de eucalipto do mundo e com incêndios cada vez mais infernais. Não podendo fazê-lo, insurgem-se contra qualquer proposta que toque sequer ao de leve nesta dimensão do problema, argumentando abstratamente sobre a falta “gestão” do território e a necessidade de aumentar o rendimento dos proprietários. Por gestão querem dizer fogo “preventivo”, isto é, queimar as áreas rurais durante o Inverno para evitar a biomassa que possa arder no verão. Sendo esta uma operação muito intensiva, garantiria a libertação em grande escala de dióxido de carbono para a atmosfera e aceleraria o ciclo de desertificação que tão rápido já avança. Sobre a necessidade de aumentar o rendimento para os proprietários florestais, é um argumento paradoxal, já que a situação de difusão em grande escala do eucaliptal provocou uma desvalorização geral e constante dos rendimentos florestais e até das propriedades rurais de aptidão florestal, e continuará a fazê-lo. Os argumentos economicistas são raquíticos: considerando a área ocupada e os impactos económicos, sociais e políticos associados a esta indústria, a percentagem de PIB (que diz pouco às pessoas) é quase nada e o fraco emprego associado (se acreditarmos nos dados de 3000 pessoas empregadas no setor), considerando se ocupa 10% do território e se impedem largas áreas de se tornarem ecológica, social e economicamente viáveis (em particular as áreas plantadas e as zonas industriais). O eucaliptal e as celuloses foram e são um garrote sobre vastas áreas do mundo rural, impedindo diversidade económica e ecológica, enquanto forçam milhares de pequenos proprietários todos os anos a expandir mais a área, fornecendo mais de 10 milhões de árvores que todos os anos produzem nos seus viveiros. E a cultura do eucalipto anda há décadas de mão dada com o abandono. Não há nenhuma liberdade associada a esta escolha, só o esmagamento económico por um gigantesco monopólio rural e industrial.

Os intelectuais ao serviço do eucaliptal e das celuloses têm de garantir, repetir e reiterar que não há nada que se possa fazer, e que nada pode pôr em causa os lucros desta indústria, aconteça o que acontecer. O objetivo é um só: manter a lente afastada da indústria e evitar que se ponha em causa a licença social das celuloses operarem em Portugal nesta escala.

Reduzir drasticamente a área de eucaliptal em Portugal não vai resolver por si só a questão dos incêndios e do avanço da desertificação, mas sem isto acontecer, não haverá qualquer estratégia viável de futuro que não seja aceitar o deserto e aceitar a massificação das migrações forçadas do interior para o litoral e, mais tarde, de abandonarem um país cada vez menos capaz de se bastar. Uns serão migrantes, outros refugiados climáticos.

A bancarrota moral dos defensores do eucalipto e das celuloses é simples: não têm qualquer alternativa a apresentar e só nos exigem que desistamos de ter um futuro. Não têm qualquer plano além do deserto e do colapso: dizem que não se pode reduzir a área gigantesca de eucaliptal, que não se pode tocar nos lucros das celuloses, que não se podem cortar emissões, que nem sequer se pode adaptar o território às alterações climáticas. Essa é, há décadas, a política pública em Portugal, porque não existe só uma porta-giratória entre o Estado e a Indústria – são essencialmente a mesma coisa. Nada do que está a acontecer é inesperado. Houve decisões deliberadas para deixar o país arder. Continuam, mesmo agora, a ser repetidas: no Conselho de Ministros, nos gabinetes da Navigator e da Altri, na sede da CELPA. Só um forte movimento popular pode começar a fazer o essencial: retirar a licença social destas indústrias e não desistir de preparar o país para um clima diferente daquele em que vivemos nas últimas décadas.

 

Este artigo foi originalmente publicado no Expresso, dia 22 de Julho de 2022.

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