O tarde demais não é tarde demais

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Este ano arrancou com 90% do país em seca. Desde aí, assistimos a ondas de calor por todo o mundo, incêndios catastróficos na Europa, cheias brutais no Paquistão e um aumento brutal do custo de vida. Uma guerra de grande escala continua, afetando milhões e fazendo com que os planos do capitalismo global se tornem ainda mais suicidas. O fornecimento global de alimentos está pela primeira vez em causa. A crise climática está aqui e agora.

Estamos assustadas e ansiosas com o presente e futuro que enfrentamos. O nosso medo e tristeza deve-se a um profundo amor e solidariedade para com todas as pessoas e seres vivos. Por vezes, instala-se em nós um profundo desespero face ao fim do mundo como o conhecemos. Nesses momentos, relembramo-nos que isto não implica o fim do mundo. Somos realistas. É certo que não podemos mudar o passado e que estamos apenas no início da crise climática. Porém, o que acontece no futuro depende do que fazemos agora. Temos o poder coletivo para escolher entre os melhores e os piores caminhos a seguir, e tudo o que está entre eles.

Atrevemo-nos a imaginar novos futuros, a escolher os melhores caminhos e a lutar por eles. Sabemos que as alternativas existem. Sabemos que cada fração de grau importa para milhares de milhões de vidas. Sabemos que não é tarde demais. Sabemos que o tempo de agir é agora.

Seguimos juntas, em solidariedade e raiva, estabelecendo novos compromissos para os próximos meses:

1) Renovamos a nossa luta, diversificando as nossas táticas. Seremos movidas pela criatividade e imaginação para alcançarmos visibilidade incontornável e disrupção permanente.

2) Reinventamos o coletivo: colocamos o sentido de coletivo e o cuidado no centro, e recentramo-nos em campanhas com planos coerentes, ampliando os espaços de envolvimento no movimento pela justiça climática. Atrevemo-nos a mudar tudo juntas, estabelecemos equipas autossuficientes e corajosas que integram as aprendizagens do passado e arriscam-se a novos erros.

3) A luta por justiça social e climática é de todas e para todas. Apostamos em novas estruturas que permitam que mais pessoas se juntem ao movimento pela justiça climática ao longo de Portugal, através das campanhas e do Encontro Nacional pela Justiça Climática. Continuaremos também a apoiar e a colaborar com outros coletivos através da Agenda pela Justiça Climática em Portugal.

4) Hoje o movimento tem mais resiliência política: surgiram duas novas organizações no último ano – Último Recurso, para apoio legal, e o coletivo de formações Fermento. Falhámos em alcançar independência financeira. Comprometemo-nos assim a integrar a escolha política de autofinanciamento em tudo o que fazemos.

5) Vamos desafiar o movimento internacional pela justiça climática para se ancorar na realidade climática, construindo um movimento capaz de assumir e executar a missão social e política de alcançar justiça social e climática dentro dos prazos ditados pela ciência climática.

6) Continuaremos a desafiar e a mitigar os comportamentos sexistas a que fomos socializadas: vamos redistribuir o trabalho reprodutivo no coletivo; vamos visibilizar vozes de não-homens-cis e construir novas formações para porta-voz e comunicação; vamos capacitar homens a gerirem conflitos, fazerem cuidados e identificarem e mitigarem os seus comportamentos sexistas. Vamos também expandir as nossas ferramentas de mitigação de opressão, participando em formações e conferências do movimento anticolonialista.

7) Em três meses, vamos voltar a olhar para os nossos compromissos e reportar de novo no nosso site.

Estamos assustadas pela complexidade da tarefa. Escolhemos enfrentar a maior crise da humanidade, de mãos dadas. À nossa frente encontram-se milhares de possibilidades. Há muito para fazer e muito pelo qual vale a pena lutar. O futuro está a ser construído agora. Juntas agarramos com as nossas mãos a responsabilidade e a oportunidade de alcançar uma sociedade com o cuidado e a vida no centro.


Em Setembro de 2019 declarámos, dentro do Climáximo, um estado de emergência climática. A linha principal, de dizer a verdade a nós próprias, manteve-se até hoje. Em 2020 estabelecemos novas medidas e em 2021 reinventámos o nosso funcionamento e estratégias. Hoje voltamos a estabelecer novos compromissos, olhando a realidade nos olhos.

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