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Colapso civilizacional como telenovela – Parar Enquanto Podemos

Portugal debateu, durante várias semanas, que partido ia votar no quê em relação ao Orçamento do Estado. Não se debateu o Orçamento em si, não se debateu as políticas públicas, nem se debateu os impactos sociais das políticas associadas ao Orçamento. Quando a política é vendida como algo sobre os políticos, o colapso torna-se banal. O Orçamento do Estado, que provavelmente será viabilizado, garantirá mais de 3 ºC de aquecimento.

A mesma coisa vai acontecer na cimeira do clima no Azerbaijão. Umas discussões insignificantes, umas declarações não vinculativas, tudo isto num petroestado genocida em que o Governo nem acha que os combustíveis fósseis são para acabar. Portanto, no fim da COP29, vai ficar tudo igual: o colapso da civilização em curso.

Entretanto, houve ainda as eleições presidenciais nos EUA. Durante meses, as notícias foram sobre sondagens e não sobre o que importa: políticas públicas e o impacto das mesmas nas vidas das pessoas e dos outros seres vivos hoje e para as futuras gerações. O que importa é não mudar muito nada para que as empresas multinacionais e os ultra-ricos continuem a lucrar.

A degradação social e a crise climática não estão “interligadas”: são a mesma coisa.

Seja nos falsos debates sobre os votos do Orçamento do Estado, seja na cimeira do clima no Azerbaijão, seja nas eleições presidenciais nos EUA, as opções que o sistema nos oferece são: sendo que estávamos a apontar para o 4º nível do inferno, preferimos agora o 5º nível ou o 6º nível do inferno?

Estamos num caminho, chamado “normalidade”, para o inferno climático. O próprio caminho é já o inferno para as maiorias do mundo. Parar esse caminho implica puxar o travão de emergência e mudar de rumo. Puxar o travão de emergência é o que propomos para o dia 23 de Novembro: Parar Enquanto Podemos.

Os Governos e as empresas que nos trouxeram até este estado de emergência climática e social, sabem o que fazem e os impactos que as suas decisões têm. Sabem há décadas e deliberam há décadas. Estamos completamente sozinhas nesta luta: somos milhares de milhões de pessoas, e só podemos contar uma com a outra. Para isso, temos de parar enquanto podemos.

Estamos num estado de guerra, em que a arma de destruição em massa é a crise climática: secas, tufões, tempestades, cheias, incêndios, falhas nas infraestruturas, tudo isto dirigido aos mais vulneráveis entre nós e simultaneamente tornando todas as pessoas cada vez mais vulneráveis.

Para parar esta guerra, precisamos de um Plano de Desarmamento Climático e de um Plano de Paz. A degradação social e a crise climática são a mesma coisa, por isso a justiça climática e justiça social são a mesma coisa também. Queremos construir um mundo com serviços básicos incondicionais (serviços públicos gratuitos de saúde, educação, habitação, energia renovável e transportes coletivos) e sabemos que não podem ser a pessoas comuns a pagar a transição necessária para garantir a neutralidade carbónica até 2030, têm que ser os ultra-ricos, o 1% que tem andado a enriquecer à custa da vida de toda a gente. Para viabilizar este mundo precisamos de parar o capitalismo fóssil, com as suas empresas, políticos e políticas. Temos de parar enquanto podemos.

O dia 23 de novembro não pode ser mais um sábado “normal” em que agimos como se estivesse tudo bem, quando estamos em risco de perder tudo. Seremos muitos e muitas a partir às 15h da Praça Paiva Couceiro, marchando pela Morais Soares—uma das ruas mais movimentadas de Lisboa—apelando às pessoas nos cafés, no trabalho, nas compras e em casa, para virem fazer com que este seja o dia em que a sociedade para de consentir com a destruição de tudo o que importa. Seremos ainda mais a chegar à Praça do Chile, para parar uma das praças mais centrais de Lisboa, bloqueando-a com os nossos corpos, coragem e criatividade numa ação de resistência civil em massa para abrirmos uma conversa que há muito deveria estar no centro de tudo: como é que vamos parar esta guerra antes que seja tarde demais?

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