João Camargo – Investigador em Alterações Climáticas; activista do Climáximo
Artigo de opinião no Público, 25 de Agosto 2025
Travar a crise climática implica preparar o território para o futuro. Implica um mundo rural com pessoas, a remoção de uma parte do eucaliptal e a ocupação do território que está abandonado.
Em Portugal, um novo clima de fogo já está em plena instalação, com cada vez menores períodos entre verões de incêndios catastróficos. Oito anos depois de 2017, em que mais de cem pessoas perderam as suas vidas, mais de 3% do país ardeu de novo, resultado de uma combinação mortal entre crise climática, abandono e plantações de eucaliptos. Montenegro declarou que os fogos são uma guerra, mas atualmente é ele o comandante dos incendiários.
2025 entrou na lista de piores anos de incêndios em Portugal desde a viragem do século, a seguir a 2017, 2003 e 2005. Do lado espanhol é o pior ano desde 1994. Na Galiza, é o pior ano de incêndios de sempre. Será provavelmente o pior ano de incêndios florestais algumas vez registado na Europa. A crise climática, o maior desafio que a Humanidade já enfrentou, continua a avançar através do apoio inabalável de governos e empresas para a expansão de emissões de gases com efeito de estufa. Empresas fósseis como a Galp ou a EDP lideram a “guerra do fogo”, uma guerra contra toda a sociedade.
Em Portugal, os incêndios de Trancoso e Arganil, com 50 mil e mais de 60 mil hectares ardidos respectivamente, entraram para os três maiores incêndios de sempre registados em Portugal. A área ardida em Portugal, cerca de 250 mil hectares, equivale à área de todo o território do Luxemburgo. Em Espanha, cerca de 400 mil hectares arderam, equivalente à área de Cabo Verde, embora em termos relativos seja menos de 1% do território nacional. Pelo Mediterrâneo, o cenário agrava-se com fogos letais também a atingirem a Grécia e a Turquia.
As temperaturas extremas perduram semanas a fio, incluindo durante as noites, combinam-se com a baixa humidade e os ventos fortes (embora até ao momento ainda não haja furacões atlânticos na costa, o que não é de descartar até ao fim de Outubro) e no mundo rural português e galego conjugam-se com um barril de pólvora.
Foi nestes territórios que a difusão de uma espécie invasora e altamente combustível, o Eucalyptus globulus, serviu para criar uma indústria monstruosa (em tamanho e impacto) numa área muito pequena, com um modelo de negócio onde o risco é exteriorizado e onde a sociedade, e em particular o mundo rural, sofrem todas as consequências óbvias.
Portugal e a Galiza têm quase 1.500.000 hectares de eucaliptal, uma boa parte dos quais abandonados e que se expandem por invasão todos os anos, em particular nos anos em que há incêndios. Os nomes dos agentes económicos deste assalto ao mundo rural são The Navigator Company, Altri e Ence. Mas estão longe de serem os únicos responsáveis pela “guerra do fogo”, sendo a expressão local de um conflito global.
A gestão mediática dos fogos pelo primeiro-ministro português, Luís Montenegro, tem sido desastrosa. Este conservador de direita posou para a imprensa em férias na praia, anunciou num comício de verão o regresso da Fórmula 1 ao país enquanto milhares de bombeiros lutavam pela vida e pelo menos três pessoas morriam. A sua ministra fugiu literalmente das perguntas dos jornalistas sobre os combates a incêndios.
No início de Agosto, uma notícia ilustrativa: a raquítica frota portuguesa de aviação pesada de combate a incêndios, composta por três Canadairs, ficou toda fora de serviço no pior período de incêndios desde 2017. O Governo de direita com o apoio da extrema-direita que se comprometeu em aumentar a despesa com gastos militares em mil milhões de euros em 2025 e aumentá-la até 2029, não tinha aviões de combate a incêndios.
Montenegro diz que “estamos em guerra e o país tem de vencer esta guerra”, mas é um exercício de inversão da realidade. A guerra é contra toda a sociedade e é liderada por governos e empresas às populações, promovendo e protegendo as empresas que estão a criar o caos. Os incêndios de 2025 são mais um massacre que era não só previsível como, nas atuais condições, inevitável.
As temperaturas extremas, humidade baixíssima e composição florestal são resultado direto de decisões políticas e económicas que têm sido reiteradamente tomadas por governos como o do Sr. Montenegro. São decisões que garantem, em Portugal, Espanha ou nos outros países do mundo, o lucro de empresas destruidoras e a corrida rumo ao colapso climático.
Na Península Ibérica, entre as maiores emissoras estão nomes como Galp, Repsol, Endesa, Iberdrola, EDP, TAP, Navigator, Altri, EasyJet ou Ence. As suas infraestruturas cospem anualmente milhares de toneladas de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa para a atmosfera, que provocam as secas, as cheias, as temperaturas extremas e as condições para os incêndios mortais que acontecem com intervalos cada vez menores.
Do lado do Governo espanhol, há uma simulação de preocupação com o que se passa este ano, propondo-se um pacto político sobre a emergência climática. Em Portugal nem isso. Do lado espanhol, sabe-se que milhares de pessoas foram deslocadas, na evacuação de suas casas, em Portugal esses números nem existem. O Governo demorou semanas a chamar apoio internacional. O mesmo Governo junta-se à extrema-direita parlamentar e mediática para gritar que há cabalas de incendiários. Pararam com a simulação de que há algo no plano além de deixar queimar.
Travar a crise climática implica preparar o território para o futuro. Em Portugal e fora dele, implica um mundo rural com pessoas, a remoção de uma enorme parte do eucaliptal e a ocupação dos pelo menos 20% do território que estão abandonados. São condições básicas para poder haver um território com agricultura, floresta e espécies que sobrevivam a um clima mais quente e seco. Implica ainda pelo menos mais um milhão de pessoas a habitar o mundo rural. Não há nenhum motivo pelo qual essas pessoas tenham de ser portuguesas. Mas sem acabar com a indústria fóssil, esse esforço não servirá para nada.
Na “guerra do fogo”, o futuro não interessa. Por isso mesmo, Montenegro alia-se com a extrema-direita do Chega para eleger como tema prioritário perseguir migrantes e precarizar o trabalho, numa imitação barata de Trump que garante que o fogo da destruição não se extingue, quer o nome do comandante dos incendiários seja Montenegro ou Ventura.
No dia 20 de Setembro, em Portugal e fora dele, é essencial lutar por verdadeiras saídas para esta guerra do fogo, participando nos protestos “Deseucaliptar, Descarbonizar, Democratizar”, convocados pela Rede Floresta do Futuro.
