João Camargo – Investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo
Expresso, 31 Jan 2026
Ciclogéneses explosivas. Tornados de fogo. Ciclones-bomba. Mega-incêndios. Cidades destruídas. Inundações. Pessoas mortas. A crise climática é uma guerra contra a humanidade. Uma guerra sem cessar-fogo. Nos últimos meses vimos em Portugal uma sucessão de incêndios infernais e ciclones extratropicais que estão a massacrar várias regiões do país, nomeadamente a zona centro. É mesmo uma guerra, porque foi provocada deliberadamente e quem lançou estas bombas planeia continuar a lançá-las
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, disse há dois dias à imprensa que “É um cenário de guerra”. Embora Lopes estivesse a usar uma metáfora para descrever o nível de destruição causado pela passagem da tempestade Kristin, a verdade é que não se trata de uma metáfora. Vivemos numa guerra não declarada, em que aqueles que nos atacam não declararam estado de guerra, mimetizando as “operações especiais”, e em que a população também tarda em reconhecer os ataques sucessivos de que é vítima. A tempestade Kristin, como as Ingrid e Joseph que a antecederam no Atlântico ou a tempestade Harry que na semana passada devastou as costas do Mediterrâneo, não são Desastres Naturais. São fenómenos extremos provocados pela produção de energia e de bens com base em combustíveis fósseis. A escolha política reiterada de manter esse sistema de produção é aquilo que produz as bombas que caem sobre nós.
Kristin é um ciclone ou furacão extratropical, um sistema de baixa pressão atmosférica muito rápido formado fora de regiões tropicais. Além disso, é um sistema formado por “ciclogénese explosiva”. Porquê todo este palavreado técnico? E além de técnico, novo? Porque há mesmo coisas novas a acontecerem. Podemos esquecer a “memória” daqueles que dizem lembrar-se de fenómenos destes há décadas atrás. A memória é um processo criativo e emocional. O que está a acontecer em Portugal e no planeta não tem comparação com nada que tenha acontecido desde o início do Antropoceno, há doze mil anos atrás. Não são desastres naturais, mas desastres humanos provocados deliberadamente por decisores políticos e económicos.
O governo português anunciou recentemente que vai gastar 5,8 mil milhões de euros em despesas militares, veículos e armas de guerra, aparelhos que permitam melhor matar, mutilar e incapacitar os seus inimigos. Ao mesmo tempo a petrolífera Galp anunciou a fusão com a Moeve para conseguir expandir ainda mais a produção e refinação de produtos como o petróleo e o gás, que procura pelo mundo, em particular em África e na América do Sul. Estes dois grandes aliados – governos e empresas, em particular da indústria fóssil – são os grandes atores da guerra contra nós, são quem larga bombas contra as pessoas de Leiria, de Pedrógão Grande, de Alcácer do Sal, da Marinha Grande, Arganil, Figueira da Foz (só nos últimos dias).
Mas não são bombas pontuais, mas bombas contínuas, bombardeamento em tapete, que destrói uma e outra vez o mesmo território, ora com fogos, ora com cheias, tornando o território cada vez mais fraco, mais vulnerável, a infraestrutura cada vez mais pobre, a floresta cada vez mais pequena, os solos cada vez mais pobres, os topos das montanhas cada vez mais desflorestados e por isso tornando a água cada vez mais rápida, mais destruidora na sua deslocação, cada vez mais mortal. E as pessoas cada vez mais frágeis.
A insistência em manter o debate público à volta de proteção civil, resgate e adaptação ao novo clima nega a realidade material e serve para esconder a guerra. O novo clima não estabilizou nem estabilizará enquanto não se cortar radicalmente as emissões, acabando com a indústria fóssil. Os limites da adaptação estão muito próximos de ser ultrapassados. Nos últimos três anos ultrapassámos em média 1,5ºC da temperatura pré-industrial. E este ano foi o ano com mais emissões de gases com efeito de estufa de sempre. Por causa da indústria fóssil, que lucrou como nunca.
No fundo, a maior parte das pessoas já percebeu que vivemos num sistema governado por seitas políticas que não passam de cultos de morte contra a população. Por sinal, em pleno bombardeamento, o Parlamento Português discutia apagar até o conceito de emergência climática. O atual estágio do capitalismo impôs uma guerra na Terra e contra todas as pessoas que aqui vivem. Parar esta guerra é essencial, e para fazê-lo será preciso enfrentar quem não pára nem nunca parará de lançar as bombas.
