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Ser detida sem direitos e condenada num artigo de opinião

Na ausência de capacidade de resposta na defesa de direitos fundamentais, ou de mera honestidade por parte da lei, cabe-nos a nós — pessoas normais — resistir pelos nossos direitos.

Anteontem neste jornal decidiu-se ignorar contexto, ignorar moralidade e ignorar a realidade. Subtraiu-se um autor da função de juiz para ocupar a posição de absolutista, que condena de ânimo leve num artigo de opinião.

Apela-se a realidades abstractas onde as acções de pacifistas, que atrasam o trânsito 15 minutos, são equivalentes a actos de terrorismo, e a pintura e quebra de vidros (por uma professora e um explicador de ciências, note-se) com coação violenta.

Se é irrisório comparar acções que ripostam contra a quebra do direito inalienável à vida com “terrorismo”, é ainda mais não usar todo esse ânimo para condenar as acções dos governos, instituições, e empresas que nos matam. A lei prefere condenar quem faz soar o alarme de emergência em vez dos culpados pelo fogo.

Nenhum destes grupos tinha ao seu dispor canais democráticos para reivindicar direitos? Certíssimo. Mas o mesmo sucede hoje com ainda mais gravidade. Para além de uma descrença esmagadora nas instituições que desistiram da democracia (92% dos portugueses coloca a crise climática como preocupação, sem qualquer resposta institucional adequada), repito: vivemos um momento de crise, que historicamente necessita de democracia de crise.

Noah – Activista no movimento por justiça climática
Artigo de opinião em Público, 14 outubro 2023

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