Enquanto o mundo aguardava o embate de mais uma dantesca tempestade, senti-me impelida a revisitar o conjunto extraordinário de catástrofes naturais que se abateram sobre as mais diversas regiões do globo nos últimos meses.
Durante uma atualização sobre o avanço do furacão Milton, para a BBC, o meteorologista John Morales não conseguiu conter as lágrimas. Pedindo desculpa pelo momento emocional, Morales concluiu: «Peço desculpa. Isto é simplesmente horrível.». Atravessamos um período da História da Humanidade em que meteorologistas choram em direto – choram de medo, porque sabem o que aí vem. Estas deviam ser as lágrimas de todos nós.
Enquanto o mundo aguardava, em suspenso, o embate de mais uma dantesca tempestade, senti-me impelida a revisitar o conjunto extraordinário de catástrofes naturais que se abateram sobre as mais diversas regiões do globo nos últimos meses. No final do mês passado, o furacão Helene matou mais de 200 pessoas na região do Golfo do México – a mesma região que se vê agora, poucos dias depois, a braços com o furacão Milton. Pouco antes, o tufão Yagi arrasou as Filipinas, a China e o Vietname, tendo tirado a vida a mais de 600 pessoas e provocado mais de 2.000 feridos, além de toda a devastação material que nos chegava através de imagens impactantes de cidades inteiras debaixo de água. Em maio, o deslizamento de terras na Papua Nova Guiné terá provocado 2.000 mortos, tendo-se tornado o evento extremo mais mortal na história do país. Em abril, assistíamos angustiados às inundações em Rio Grande do Sul, que pareciam não abrandar debaixo de chuvas incessantes. Um mês antes, em março, mais de 1.000 pessoas perderam a vida nas inundações repentinas que cobriram o Afeganistão e o Paquistão. Enquanto escrevia estas linhas, a Bósnia, o Nepal, a Tailândia, o Japão, a Austrália e até o deserto do Sahara marroquino procuravam recuperar de agressivas inundações. No Sahara, tal fenómeno não ocorria há meio século.
Em junho de 2024 registou-se, pela primeira vez, um período corrido de 12 meses em que a temperatura média global esteve 1.5ºC acima da média pré-industrial – precisamente, a meta abaixo da qual os Estados signatários do Acordo de Paris se comprometeram a manter o aquecimento global da atmosfera. Em setembro, o Brasil registava a pior seca de sempre. Desde abril, vários países do sudeste asiático experienciaram temperaturas recorde, com o índice de calor a chegar aos 53.ºC. As imagens de peregrinos a colapsar de calor no meio da rua são inelimináveis da memória. E daqui até aos continentes americano e asiático, incontroláveis incêndios florestais lavraram por toda a parte.
A catadupa de recordes, eventos extremos, e perda de vidas anuncia aquilo para que a comunidade científica vem alertando há décadas: o anormal está a tomar o lugar do normal. Deixamos de ter a capacidade de conceber o ‘normal’ porque ele está, paulatinamente, a deixar de existir. Não pode haver normalidade num mundo em permanente estado de alerta, em que a incerteza, a imprevisibilidade e o sobressalto se tornam a regra. Encontramo-nos num novo estado anormal de coisas, em que o espectro da destruição nos assombra quotidianamente, impedindo, em definitivo, qualquer sensação de normalidade. Por cá, ainda nem havíamos recuperado dos incêndios e já ecoavam os alertas para o potencial de deslizamento de terras devido às chuvas que se antecipavam. Este é o novo anormal.
Perante tal cenário aterrorizador, o mais surpreendente nem é a insistência em ignorar a causa de base e a inexistência de planos robustos de mitigação que impeçam um aquecimento global cataclísmico. O mais surpreendente é a impreparação e a leviandade com as autoridades lidam com estes eventos extremos. Seria de esperar que, após uma série de eventos devastadores como aquela que temos experienciado nos últimos anos, tivessem sido implementadas estruturas de adaptação e resiliência para proteger as comunidades. Basta olhar em redor para perceber que isso está longe de acontecer. Em alternativa, assistimos à repetição das velhas abordagens, completamente desadequadas ao “novo anormal”, que bloqueiam as comunidades em círculos viciosos de vulnerabilidade e desigualdade social.
Ao ouvir as notícias sobre a ordem de evacuação para o estado da Florida, não pude evitar a pergunta: “E as pessoas que não podem evacuar?”. E se semelhante catástrofe se abatesse sobre Portugal, evacuaríamos para onde, num país tão pequeno?
Ao mesmo tempo, pelo continente europeu, sentíamos a passagem da tempestade Kirk, que colocou algumas regiões do país em alerta laranja. Todavia, no período de maior intensidade dos ventos e chuva, viam-se trabalhadores do Município a trabalhar na rua, procedendo à limpeza dos passeios. O cenário é, no mínimo, surreal. Semelhante indignação já me tinha acometido durante os incêndios de setembro: enquanto a população das zonas afetadas era aconselhada a ficar em casa e a usar máscara respiratória na rua, os trabalhadores da construção civil laboravam sob o ar sufocante. Além disso, e como bem se sabe, as evacuações durante os incêndios florestais geram sistematicamente polémica, confundindo as populações e demonstrando negligência e falta de preparação das autoridades. Foi assim, aliás, que se deu a tragédia de Pedrógão.
Estes são apenas alguns exemplos quotidianos da displicência com que tem sido abordada a questão da adaptação das nossas sociedades ao momento de “ebulição global” em que vivemos. Esta displicência ceifa vidas e destrói comunidades inteiras. É o produto de uma dissonância cognitiva generalizada: tomam-se decisões como se tudo continuasse “normal”, fazendo vista grossa ao que é cada vez mais evidente – o anormal é a nova normalidade. Esta resistência a encarar a realidade tal qual ela é e se nos apresenta todos os dias, na rua e nos noticiários, é indesculpável, porque mortífera. Vivemos em sociedades que foram feitas para outros tempos, iludindo-nos com flashes momentâneos de semelhança com o passado. Mas os tempos são outros e nós não estamos preparados.
