Na segunda metade de 2025, uma sucessão de revoltas atravessou países tão diversos como a Indonésia, o Nepal, as Filipinas, Marrocos, Peru, Timor-Leste e Madagáscar, juntando-se a levantamentos ocorridos nos anos anteriores em países como o Sri Lanka, o Bangladesh, a Tailândia, o Quénia ou a Sérvia
Em vários destes locais, a revolta assumiu rapidamente uma escala nacional e um carácter insurrecional.Na Indonésia e no Nepal, as mobilizações estudantis, desencadeadas pela ostentação das elites e por profundas desigualdades, romperam com a normalidade política em poucos dias; nas Filipinas, um dos países mais vulneráveis à crise climática, dezenas de milhares tomaram as ruas contra o desvio de fundos destinados à proteção da população face às inundações; em Madagáscar, os protestos contra os cortes nos serviços básicos de eletricidade e água levaram à fuga do presidente e à rutura das forças de segurança com o governo; em Marrocos, a raiva contra os cortes nos serviços públicos, enquanto dinheiro é esbanjado no mundial de futebol de 2030, inflamou protestos durante várias semanas, apesar de centenas de detenções;no Peru, manifestações e greves por todo o país, impulsionadas por estudantes, provocaram prejuízos aos donos do grande capital da mineração; em Timor-Leste milhares saíram às ruas contra um plano de dar carros gratuitos a membros do Parlamento. Anteriormente,no Bangladesh e no Sri Lanka, levantamentos semelhantes conseguiram derrubar o governo e iniciar períodos de transição.
Apesar das diferenças de contexto, este conjunto de revoltas que têm sido rotuladas de forma algo redutora comorevoltas da Gen Z apresenta vários traços comuns: explosões rápidas de conflito, levadas a cabo sobretudo por jovens e desencadeadas por episódios como o aumento de salários de políticos, ostentação das elites, cortes de serviços básicos e desvio de fundos públicos. Estes fatores funcionam como catalisadores de uma raiva social que já existia e que explode, acabando por pôr em causa o sistema por inteiro
As táticas e símbolos parecem propagar-se quase instantaneamente, circulando entre países e incendiando revoltas em contextos diferentes: manifestantes do Chile aprendem a neutralizar gás lacrimogéneo em vídeos de Hong Kong; tácticas tornam-se memes, replicáveis e adaptáveis. Símbolos da cultura pop como a bandeira de One Piece tornam-se imagens internacionais de resistência. E, com uma enorme força agregadora, estas mobilizações conseguem quebrar formas e instituições tradicionais da política,envolvendo sectores amplos da população sem experiência política prévia
Mais de uma década depois das Primaveras que abalaram o mundo, estas convulsões sociais revelam o acentuar das contradições e dos limites do capitalismoe uma experiência generalizada de impossibilidade: de viver dignamente, de projetar um futuro, de reconhecer nas instituições qualquer promessa minimamente credível. O abismo entre ricos e pobres aprofunda-se, o imperialismo e a corrida às armas intensifica-se, os serviços públicos degradam-se como resultado e em benefício da privatização e do capital global e o planeta é explorado para lá dos seus limites físicos. Neste contexto, a extrema-direita entra em cena e ganha terreno governativo, como último recurso para a manutenção do poder pela classe dominante. O capitalismo está em guerra com os povos e com o planeta, e estas revoltas são um contra-ataque
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Apesar da força destes abalos insurrecionais, estes levantamentos têm resultado num regresso do status quoacompanhado por algumas concessões por parte do poder. O Chile é um exemplo disso: a revolta conseguiu abrir um processo constituinte, mas a proposta progressista foi largamente rejeitada nas urnas e a extrema-direita voltou ao poder. Isto levanta uma questão central: estas revoltas não podem ser simplesmente reconduzidas à política clássica, sob pena de perderem o seu sentido e a sua força.
Mas o sucesso das revoltas não pode ser medido apenas pelas transformações políticas mais imediatas. Um futuro digno desse nome só pode emergir dos processos de experimentação e empoderamento colectivo que se dão no seio destes momentos de ruptura tal como através da aprendizagem colectiva dos motivos pelos quais tais momentos não levaram a uma mudança estrutural.
Portugal conheceu, ainda que numa escala mais reduzida, algo semelhante no ciclo de lutas anti-austeridade. Esse movimento foi muito além das instituições e grupos da esquerda da época, envolvendo dezenas de milhares de pessoas em manifestações que constituíram verdadeiras pequenas revoltas. O ciclo apanhou o movimento despreparado para interagir com a explosão social de um modo que expandisse e intensificasse as lutas.
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Olhamos para estes levantamentos em redor do mundo com genuíno entusiasmo, curiosidade, e um forte sentimento de solidariedade internacional. Compreendemos que, embora os contextos locais que levaram a que cada um destes protestos se iniciasse sejam distintos, eles fazem parte de uma mesma onda de revoltas que está a abalar o sistema e que tem um enorme potencial transformativo à escala global. Desta forma, não conseguimos deixar de nos perguntar:e se estas revoltas no Sul Global se propagassem a Portugal e a outros países da Europa?Aqui, o terreno cada vez mais árido — com a intensificação de ataques que têm precarizado a população, perseguido migrantes e pessoas racializadas, desmantelado serviços públicos, enriquecido senhorios e alimentado o extrativismo e o colapso climático — parece só precisar de uma faísca para se incendiar. Momentos como as recentes mobilizações antirracistas, a solidariedade com a Palestina ou a greve geral, permitiram-nos tomar o pulso da raiva popular existente que, no contexto de escalamento imperialista, esgotamento das respostas da política clássica e descrédito nas instituições dominantes, pode significar a abertura de um novo ciclo de luta.
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Por esse motivo, comprometemo-nos a acompanhar e a estar atentas às insurreições no Sul, mas convidamos também outros movimentos sociais em Portugal para pensarmos em conjunto sobre o potencial estratégico desses levantamento no nosso territórioe o que pode significar em concreto a união e a solidariedade internacional neste contexto.
Subscritoras:
- À Mesa
- Climáximo
- Cooperativa Mula
- Greve Climática Estudantil
- Habita
- Jornal Mapa
- Occupy for Gaza
- Q-ravo
- Rebenta
- Stop Despejos
- Tundra
Anexo – links para leituras adicionais sobre estas revoltas:
O movimento "Gen-Z" em Madagáscar tem um site com as reivindicações e outras informações sobre o movimento: https://www.gen-z-madagascar.com/
O exército tomou o poder em Madagascar depois do presidente fugir do país por causa dos protestos: https://www.aljazeera.com/news/2025/10/14/madagascar-president-dissolves-parliament-after-fleeing-army-backed-protest
https://pt.crimethinc.com/2025/09/04/voices-from-the-uprising-in-indonesia-affan-kurniawan-lives-on-in-the-streets-1
https://illwill.com/paper-planes
https://illwill.com/crossing-the-rubicon
Livro sobre a era dos motins, de um camarada que faleceu recentemente: https://fighttowin.noblogs.org/files/2020/06/riot-strike-riot-intro.pdf
George Floyd: https://illwill.com/kenosha-i-do-mind-dying https://assets.ctfassets.net/zzo3jtyu2pmq/7x524dJDIegA5qtipiU2ms/38219387a90113f062d1899c76066f47/Rhythm-Ritual-READ.pdf
Portugal anti-troika: https://www.dropbox.com/scl/fi/ztppmjjoqroot5vdq669q/sobre-a-passagem-de-alguns-milhares-2.pdf?rlkey=cpsivfd2nbmhdrrzxa0ssnvz2&st=ma4ipaim&dl=0
