Artigo de Matilde Alvim, membro do Climáximo
Publicado na Visão, 3 de Fevereiro, 2026
A crise climática não é o cenário apocalíptico Hollywoodesco em que, quase do dia para a noite, o fim do mundo aproxima-se, caem meteoros e todos morremos. É, pelo contrário, aquilo a que estamos a assistir agora em Portugal
Milhares de pinheiros foram partidos ao meio pela força do vento num pano de fundo cinzento marcado pela ameaça de novas chuvas. Dezenas de casas com lonas a tapar partes do telhado que voara. Filas de famílias com crianças à chuva esperando a sua vez para encher os garrafões de água nas fontes. Uma azáfama nos centros de distribuição. Cansaço e olheiras nos rostos de quem, há dias, está a tentar gerir a situação, muitas vezes sem dormir. É um cenário de guerra confirmado.
Na localidade de Marrazes, a poucos minutos de Leiria, o ambiente na Junta de Freguesia é frenético. As funcionárias, muitas delas filhas da terra, sabem que não há tempo a perder: todos os minutos contam para preparar a próxima chuvada que aí vem e tentar que as necessidades mais básicas da população sejam supridas. Nessa manhã, deram o pavilhão desportivo da localidade como perdido para as chuvas. Havia demasiada água e demasiado telhado tinha voado com a tempestade. Mesmo que lá passássemos o dia inteiro a vazar a água, seria quase em vão. Prontamente, mandaram-nos ir bater porta-a-porta para recolher as necessidades das casa da aldeia: Há luz? Há água a entrar em casa? Tem comida? A realidade é brutal. Filhos que cuidam dos pais idosos que têm de lhes dar banho de bacia com água fria, famílias tentam arranjar os telhados para impedir que ainda mais água caia sob as suas cozinhas, salas e quartos. Eletricidade? Só intermitente. Uma senhora contou-me que a mãe dela, já idosa e acamada por estar doente, morreu no dia seguinte à tempestade.
Na Marinha Grande, dezenas de voluntários vindos de todo o País arregaçam as mangas para trabalhar nas limpezas que precisam de ser feitas. Em apenas algumas horas e à chuva e vento, uma escola secundária cujo edifício lateral estava danificado pela queda de enormes pinheiros foi limpa por dezenas de pessoas comuns organizadas entre si, mobilizadas até à cidade para apoiar os trabalhos. A crise climática também é isto: centenas de alunos com as escolas fechadas, interrompendo a sua educação, devido às bombas climáticas que caem sob o território. Após os trabalhos estarem concluídos, conta-nos uma senhora já com alguma idade, em lágrimas, que aquilo que restava dos incêndios foi levado.
A tempestade Kristin não foi um desastre natural, foi uma bomba acionada pela ganância daqueles que criaram e alimentam a crise climática. E não foi um fenómeno isolado, veio integrada num “comboio de tempestades” – Ingrid, Joseph, e Kristin. Agora, vem aí ainda outra. Em março passado, a depressão Martinho provocou mais de 8000 ocorrências e vários danos materiais. Em novembro, a depressão Cláudia matou três pessoas e várias ficaram desalojadas. A ciência é uníssona ao afirmar que a crise climática está a tornar estas tempestades não só cada vez mais frequentes, como cada vez mais intensas. Fogos devastadores em agosto, ciclones-bomba em janeiro: este é o novo normal da crise climática em Portugal. A indústria fóssil e os governos já sabiam há décadas que a queima de combustíveis fósseis iria provocar a alteração extrema das condições climáticas, mas continuaram. Como se viu e como foi corroborado por vários especialistas, a resposta do Governo à catástrofe veio tardia e os planos são simbólicos ou inexistentes. Se prevenir é o melhor remédio, então a primeira coisa a fazer, enquanto se garantem todos os apoios necessários às famílias afetadas e em situação de vulnerabilidade, é mesmo o passo mais essencial para fechar a torneira ao colapso climático: acabar com os combustíveis fósseis no País até ao final desta década, 2030.
Vivemos num novo normal. E temos uma escolha a fazer: continuar com este sistema económico absurdo em que o lucro é quem mais ordena e explorar combustíveis fósseis mesmo estando a provocar a destruição das nossas vidas, ou ter a coragem de puxar o travão de mão para evitar o colapso. O capitalismo, com a sua sede de combustíveis fósseis, é culpado pelas mortes diretas e indiretas destas tempestades. Ou fechamos a torneira já e prevenimos o pior, reconstruindo um sistema económico mais justo e onde ninguém é deixado para trás; ou continuamos com o business as usual e assinamos uma sentença de morte e destruição para esta e futuras gerações. A segunda opção é aquela que, de forma inequívoca, os governos e as empresas fósseis já demonstraram querer. Cabe a nós, pessoas comuns, afetadas ou não pela Kristin mas com a certezas de que os fogos, as cheias, o calor e outras bombas irão bater à nossa porta, apoiarmo-nos mutuamente nestes tempos de abandono e, ao mesmo tempo, lutarmos lado a lado. A única forma de prevenção eficaz para o que está a acontecer e pode piorar é acabar com o sistema fóssil, com as explorações de petróleo da Galp, com as emissões de luxo dos jatos privados, com primazia dos carros sob os transportes públicos gratuitos e eletrificados, com a noção de energia como mercadoria e não como bem essencial para todos.
A crise climática é uma guerra declarada por governos e empresas fósseis à sociedade e ao planeta. Cada incêndio, cada cheia, cada ciclone só torna esta realidade mais clara. A crise climática não é o cenário apocalíptico Hollywoodesco em que, quase do dia para a noite, o fim do mundo aproxima-se, caem meteoros e todos morremos. É, pelo contrário, aquilo a que estamos a assistir agora em Portugal – as bombas caem sob a forma de cheias, secas e incêndios, vivem-se situações de aflição e morte, falham as infraestruturas públicas, degradam-se os serviços públicos, sofrem os mais vulneráveis (como os idosos dos lares evacuados na Kristin, os doentes do Hospital de Leiria que ficarão em stand-by, as famílias despejadas no bairro da Arroja em Odivelas em plena tempestade, etc). Meses depois, repete-se de novo. Nós somos o alvo. Ainda não é tarde para mudar o rumo desta história. Organizemo-nos contra o estado de calamidade que é o capitalismo.
