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O império ataca

Artigo de João Camargo – Investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo

Expresso, 26 Janeiro 2026

O que as últimas semanas nos demonstraram é que, depois de ganhar a guerra cultural, a extrema-direita liderará o capitalismo até ao fim. O tempo do soft power e das versões de política e exploração intermediada acabaram. A invasão da Venezuela e o discurso de vitória de Trump mostram que a grande guerra pelo futuro começou, inaugurada com a destruição e enterro do centro politico e da maior parte da esquerda parlamentar. O império fóssil só sabe atacar

Há pouco mais de 20 dias, os Estados Unidos atacaram outro país, acordando o mundo para velhas realidades e para uma revelação. O ataque, bombardeamento, invasão do espaço aéreo, do espaço terrestre, o assassinato de dezenas de soldados e o rapto de um presidente não são nada de novo. Tampouco é nova a revelação de que o império, como etapa avançada da exploração capitalista, quer os recursos da Venezuela, nomeadamente o petróleo. Todo a gente sabia disso. O que é novo é que pela primeira vez em muito tempo, o império nem sequer tentou justificar os seus crimes, apenas afirmá-los.

Donald Trump anunciou em frente a centenas de milhões de pessoas que a Venezuela e quaisquer outros territórios serão colónias fósseis e colónias de outros recursos, tudo ao serviço das grandes empresas americanas (que o povo americano não tem nada a ver com isso). Esta frontalidade é novidade, mas não é inesperada. Esta é a razão pela qual a extrema-direita foi financiada (em parte pela extrema-direita russa no poder há décadas, em parte pelas elites financeiras e tecnológicas), catapultada para a ribalta e colocada no poder ou próximo dele um pouco por todo o chamado “Ocidente”. A extrema-direita é o último recurso do capitalismo, armada para empurrar a humanidade até à beira da extinção. Ela foi posta nesta posição para garantir que os bilionários possam continuar a lucrar até ao fim das condições materiais que permitem que as civilizações humanas existam (que, devido à crise climática, é um período que se mede agora em cada vez menos décadas).

O império fóssil ataca contra os últimos 150 de história da Humanidade, contra a ideia de democracia, contra o fim da escravatura, contra o fim do colonialismo e apartheid, contra os direitos das mulheres e qualquer noção de igualdade e regras. Eles não estão a esconder nada disto. Em particular a lança mais avançada da extrema-direita, Donald Trump, não está. Atacam e querem vingança. Trump quer “os recursos que a Venezuela nos roubou”, mas não chega. Depois da polícia política dos Estados Unidos matar Renee Good com várias balas na cabeça em Minneapolis, o governo triplicou o número de agentes. Bem pode o centrão e a esquerda dizer que o “ICE se f*da”, que quem se está f*der são os povos.

Neste momento, os Estados Unidos não são um país ou uma nação, menos ainda um povo. Muito pouco une aqueles territórios e pessoas além da capacidade de exploração e de violência de uma minúscula parte da população. Hoje, os Estados Unidos não são mais do que o braço político e militar da indústria fóssil global. São a força mobilizada para fazer tudo o que é possível para acabar com a vida e com a sociedade.

Por isso mesmo, depois de vencida a guerra cultural, a extrema-direita de Trump a Musk não precisa de esconder pedofilia, violações, assassinatos ou genocídios. Também não precisa fingir que outras extremas-direitas a preocupam. A invasão da Venezuela e as ameaças contra a Gronelândia mostram para todo o mundo ver que as elites europeias e a sua burguesia já se renderam ao verdadeiro poder do império, tornando-se por isso a Europa um plausível território em disputa para o futuro. Veremos no entanto as extremas-direitas nacionais a exercitar ao máximo a sua capacidade de prostração perante o poder americano, revelando aquilo que sempre foram, uma fabricação cultural. Mas o império vai passar por cima dos seus aliados fascistas como Trump passou por cima de Maria Corina Machado.

A extrema-direita europeia não pode deixar de estar aterrorizada porque o fim da intermediação política por parte do império ameaça fazer-lhe o que esta sempre propôs como programa político principal: conquistar território, impor a sua cultura, apagar a sua história (mesmo que na maior parte dos casos a memória histórica da extrema-direita não passe de uma fábula chauvinista construída para eternizar o poder das elites sobre os povos). Mas vê-la-emos encontrar fórmulas narrativas cada vez mais absurdas para justificar os seus programas.

Nunca deveria ter havido ilusão, mas agora deve ser claro para toda a gente, em particular para os povos, para os movimentos sociais e políticos e para as pessoas que querem viver num mundo onde haja justiça, liberdade e democracia, que algo de muito profundo tem de acontecer. Nesta nova era, a ficção de que é possível “pressionar” governos a respeitar a lei ou tomar decisões “morais” ou legítimas acabou. O império fóssil dos Estados Unidos e todas as suas extensões oficiais e clandestinas terão de ser enfrentadas e derrotadas pelos povos para que a possibilidade de um futuro continue a existir.

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