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Parar enquanto podemos – Sinan Eden

Parar enquanto podemos. Estou a pensar sobre esta frase desde que a vi numa faixa no Castelo de São Jorge em Lisboa.

“Parar enquanto podemos” é um apelo sobre a emergência climática: um apelo com, pelo menos, três significados.

Primeiro. Temos os pontos, sem retorno, da crise climática. Se não travarmos o aquecimento global agora, há mecanismos físicos e químicos no sistema terrestre que vão alimentá-lo.

Umas companheiras foram visitar os bombeiros sapadores, em luta, à frente da Assembleia da República, e eles tinham plena consciência dos riscos. Foram eles que contaram: Mais aquecimento, implica incêndios florestais mais fortes e mais frequentes. Havendo mais incêndios, eles próprios, emitiram mais carbono para a atmosfera, o que acelera o aquecimento e, por sua vez, aumenta os incêndios. Isto é um ecossistema em colapso. A partir de certo momento, mesmo que, tirássemos o ser humano da equação, o colapso fica em autopiloto.

A nível mundial, prevê-se que as florestas entrariam neste “feedback loop”, a partir de 3ºC de aquecimento – o que já é o caminho das políticas climáticas atuais. Há mais mecanismos deste género, do metano afixado no solo congelado (permafrost) na Sibéria ao metano congelado no fundo dos oceanos.

É basicamente um efeito dominó. Temos que parar enquanto podemos, para evitar o fim do mundo como o conhecemos.

Segundo. A destruição das condições materiais da civilização não é um acaso. As empresas multinacionais já sabiam das alterações climáticas há 40 anos, e ainda este ano, continuaram a investir em novos projetos de combustíveis fósseis. Os governos também têm tido conhecimento total da situação, e neste momento, existem um total de zero países com políticas públicas compatíveis com a ciência climática.

Eles estão a destruir tudo que importa, e chamam a isso “negócio”, uma palavra bonita para camuflar os lucros recorde e as fortunas astronómicas que os ultraricos têm acumulado. Com a degradação ecológica exponencial, os impactos sociais (falhas nas infraestruturas, conflitos sociais, migrações forçadas em massa) vão ficar cada vez mais visíveis, e a única forma de manter a ordem será através de uma repressão sem precedentes.

No Reino Unido, bastou ativistas pela justiça climática terem participado num webinar para terem sido condenados a cinco anos de prisão efetiva. Na Alemanha e em França, movimentos pacíficos abertamente organizados já foram acusados de serem organizações criminosas. Nada disto, necessitou de ter a extrema-direita no governo, porque tudo isto, é só o prelúdio para o que aí vem.

Os governos e as grandes empresas estão a fazer os aquecimentos da barbárie. Temos de pará-los enquanto podemos.

Terceiro. Tudo isto implicará um enorme esforço para uma transformação social, económica e política. Vamos ter de avaliar as nossas prioridades coletivas. Simplificando, com as portas do inferno climático abertas à nossa frente e com os nossos pés ainda no acelerador, vamos ter de olhar uns para os outros, e vamos ter de ter uma conversa séria, difícil e longa.

Quem já passou por uma tempestade ou por um incêndio, já reparou que, parar não será uma opção quando a crise climática se tornar universal, permanente e generalizada. Agora é tarde, mas ainda não é tarde demais. Temos de parar enquanto podemos, para falarmos sobre como vamos travar esta aflição.

No dia 23 de novembro, trabalhadores, estudantes, mães, pais, filhos, precários, desempregados, avós, netos, ou seja, pessoas como tu e eu, vão sair à rua para defender um planeta justo e habitável; porque não dá para continuar como se estivesse tudo bem.

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