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O fim dos combustíveis fósseis já começou – falta cumpri-lo

por Bianca Castro, ativista pela justiça climática e delegada na COP30
Público, 24 de Abril de 2026

Um sistema energético assente nos combustíveis fósseis, na extração e na escassez deixa pessoas e economias profundamente vulneráveis.

Há cinco meses, estava em Belém do Pará, no coração da Amazónia brasileira. Lá, os dias de trabalho foram longos, as noites culturais regeneradoras, e a resistência latino-americana sentia-se em todos os cantos da cidade. A COP30 aconteceu sob o calor húmido e a chuva amazónica de todos os dias, carregando consigo as habituais controvérsias e contradições. E, no entanto, no meio de tudo isso, o essencial voltou a escapar: um acordo claro para o abandono dos combustíveis fósseis.

Mas como sempre, a luta continua – e é precisamente daí que nasce a Primeira Conferência sobre a Transição para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, onde me encontro agora. Num momento particularmente crítico, em que comunidades de todo o mundo enfrentam as consequências humanas de um sistema energético fóssil tão volátil quanto violento, este encontro propõe-se dar um passo concreto: iniciar um processo real de transição para longe dos combustíveis fósseis, com vista à construção de sociedades e economias mais sustentáveis.

A expectativa é que Santa Marta possa tornar-se um ponto de viragem – uma oportunidade para reforçar a cooperação internacional e consolidar um compromisso coletivo com uma transição que não é apenas desejável, mas necessária: cientificamente inegociável, juridicamente obrigatória e profundamente enraizada nos direitos humanos, na justiça e na equidade.

Um mundo em tensão

O contexto global não podia ser mais tenso. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e a consequente escalada no Médio Oriente, não só provocam perdas diretas de vidas humanas como agravam o sofrimento à escala global, fazendo disparar os preços dos combustíveis fósseis e gerando turbulência nos mercados energéticos.

E quando a energia encarece, os impactos nas comunidades são imediatos: os alimentos tornam-se mais caros, os fertilizantes pesam mais no bolso dos agricultores, o transporte encarece, as fábricas abrandam ou param. O valor dos já baixos salários dos trabalhadores diminui ainda mais, as famílias veem-se obrigadas a esticar orçamentos que já estavam no limite e, sobre as mulheres, recaem ainda mais camadas de esforço invisível.

Revela-se uma verdade que já não podemos ignorar: um sistema energético assente nos combustíveis fósseis, na extração e na escassez deixa pessoas e economias profundamente vulneráveis – tanto às variações dos mercados como às tensões geopolíticas que as intensificam.

A transição para longe dos combustíveis fósseis não é apenas uma questão de política climática. Para muitos países e comunidades, é também uma questão de estabilidade económica e de dignidade humana. Mais do que reduzir emissões, trata-se de proteger economias da volatilidade constante, quebrar a dependência perigosa de combustíveis importados e canalizar recursos essenciais para o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar, o acesso à energia e a resiliência económica a longo prazo.

O que está em jogo em Santa Marta

Em Santa Marta, espera-se a presença de mais de cinco dezenas de países entre 24 e 29 de abril para discutir a transição para longe dos combustíveis fósseis. Em conjunto, representam aproximadamente 42 biliões de dólares de PIB, uma procura anual de petróleo superior a dez mil milhões de barris e cerca de 30 biliões de pés cúbicos de gás por ano. Ficarão de fora grandes atores como os Estados Unidos, a China, a Índia e vários estados do Golfo. Mas Portugal estará presente.

Há uns meses, numa reunião entre a sociedade civil e membros do governo colombiano, uma frase ficou-me: não estamos aqui para discutir se é necessário abandonar os combustíveis fósseis, mas sim como fazê-lo de forma justa, plenamente financiada e equitativa. Foi também sublinhada a importância de incluir as experiências e perspetivas de governos nacionais e subnacionais, academia, povos indígenas, comunidades afrodescendentes, camponeses, trabalhadores, sociedade civil, setor privado e outros atores-chave em diferentes fases da transição.

Nesse sentido, a Colômbia pretende então reunir uma “coligação de vontades” (coalition of the willing): governos que queiram avançar de forma ativa na eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, e não apenas discuti-la.

A voz que insiste

Durante demasiado tempo – mais tempo do que a minha vida e a de muitas das gerações jovens de hoje – as negociações climáticas globais têm-se focado em gerir os sintomas da crise, isto é, as emissões de carbono, enquanto ignoram a sua causa estrutural: a expansão contínua e deliberada do petróleo, do gás e do carvão.

É por isso que, de Belém a Santa Marta e mais além, o movimento pela justiça climática se mantém em mobilização. Aqui, comunidades afrodescendentes, povos indígenas e movimentos populares exigem o fim da tirania dos interesses dos combustíveis fósseis, do controlo colonial dos recursos, do crime contínuo de ecocídio e da máquina de guerra que sustenta este modelo extrativo.

Enquanto sociedade civil, passámos os últimos meses a coordenar-nos para esta conferência, através da construção de um conjunto comum de reivindicações, da articulação de diálogos entre partes interessadas, da organização de eventos, submissões de propostas políticas e envolvimento com os governos anfitriões.

Agora, em Santa Marta, continuamos a trabalhar juntos, unindo diversas regiões e setores, num dos maiores esforços de mobilização de sempre para construir poder coletivo, criar impulso e pressionar decisores políticos a gerir uma transição rápida, justa e financiada para longe da produção de carvão, petróleo e gás.

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