por Sílvia Moutinho, investigadora em cidadania ambiental e participação
Visão, 19 de Abril de 2026
Pela primeira vez, o foco deixa de ser o consenso a todo o custo para um possível futuro. A pergunta é direta: como sair, na prática, dos combustíveis fósseis?
Durante anos, a resposta global à crise climática foi construída como uma arquitetura de promessas: metas ambiciosas, relatórios cada vez mais alarmantes, conferências sucessivas onde se afinava a linguagem, mas raramente a ação. Trinta COPs depois, o resultado está à vista: não só falhámos a redução das emissões como nos aproximamos perigosamente de ultrapassar 1,5 °C já na próxima década, segundo o mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente. O sistema que alimenta esta crise, o dos combustíveis fósseis, continua intacto.
É neste contexto que, dentro de dias, Santa Marta se prepara para receber uma conferência que promete inverter a lógica: menos discurso, mais ação que nasce da insatisfação com a falta de objetividade para implementação das decisões saídas das conferências das partes, como a COP30.
Pela primeira vez, o foco deixa de ser o consenso a todo o custo para um possível futuro. A pergunta é direta: como sair, na prática, dos combustíveis fósseis? A ambição é clara: criar uma plataforma política para países e atores que já não querem discutir “se”, mas sim “como” abandonar os combustíveis fósseis. A proposta, liderada pela Colômbia e pelos Países Baixos, parte de uma crítica implícita ao modelo das COP: o consenso global tornou-se um mecanismo de bloqueio. Em Santa Marta, a lógica inverte-se, avança quem quer avançar.
Tensões acumuladas
Nos últimos dois meses, os sinais acumularam-se com uma clareza difícil de ignorar. O novo Relatório Mundial da Água das Nações Unidas alerta para uma realidade estrutural: o acesso à água está a tornar-se um fator de desigualdade global, com impactos diretos na estabilidade social e económica. Ao mesmo tempo, os dados sobre deslocações forçadas mostram que 250 milhões de pessoas foram empurradas para fora das suas casas por eventos climáticos extremos na última década, muitas delas em regiões já fragilizadas por conflitos.
É aqui que a narrativa dominante começa a falhar. A crise climática não é apenas um problema ambiental. É um sistema de tensões acumuladas entre energia, território, recursos e poder.
Entre 24 e 29 de abril, a Colômbia recebe a primeira Conferência Internacional dedicada exclusivamente a uma pergunta que até agora foi sistematicamente evitada: como é que se sai, na prática, dos combustíveis fósseis? Não “quando” nem “quanto reduzir”, mas “como desmontar” o sistema energético que sustenta a economia global.
Os números confirmam a expectativa e revelam uma mudança de equilíbrio. Mais de 2600 organizações manifestaram interesse em participar. São esperados cerca de 1200 participantes no terreno. Foram convidados 97 governos nacionais e dezenas de governos subnacionais. Quase metade dos participantes vêm da sociedade civil, enquanto comunidades indígenas, movimentos sociais e academia. Isto pode ser lido de duas formas: como sinal de uma democratização da governança climática ou como evidência de que os centros de decisão tradicionais continuam a hesitar.
Enquanto se discute a transição, o mundo continua a aprofundar a dependência. E a guerra expõe isso com brutalidade. Os dados mais recentes mostram que o conflito na Ucrânia já gerou cerca de 311 milhões de toneladas de CO₂ desde 2022 . No Médio Oriente, apenas duas semanas de conflito recente produziram mais de cinco milhões de toneladas de emissões. Mais do que dezenas de países num ano inteiro. Estudos indicam ainda que a guerra em Gaza poderá ultrapassar 30 milhões de toneladas de CO₂ quando incluída a reconstrução.
O setor militar, frequentemente excluído dos relatórios oficiais, poderá representar cerca de 5,5% das emissões globais, mais do que muitos países industrializados. E continua, em grande parte, fora das obrigações de reporte internacional.
Há aqui um ponto que raramente é dito de forma direta: a crise climática e os conflitos armados estão ligados por uma dependência comum, o controle de recursos energéticos. Petróleo, gás, rotas de transporte, infraestruturas estratégicas. A geopolítica continua a girar em torno dos fósseis, mesmo quando o discurso oficial fala em transição.
Campos de confronto
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis organiza-se em torno de três eixos que, despidos de linguagem técnica, são três campos de confronto: economia, energia e poder. Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis. Como transformar a oferta e a procura de energia. Como reorganizar a cooperação internacional num mundo fragmentado.
Mas o verdadeiro teste não está na formulação dos eixos. Está no que se evita dizer.
A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: quem financia a mudança, num contexto em que os países do Sul Global, os menos responsáveis historicamente pelas emissões, são os mais vulneráveis aos seus impactos? Como garantir acesso à energia sem reproduzir as desigualdades existentes? E, sobretudo, quem aceita perder poder num sistema construído precisamente sobre essa concentração?
Os dados mostram que esta não é uma questão teórica. O financiamento climático continua aquém das necessidades, e as regiões mais afetadas recebem apenas uma fração do apoio necessário. A chamada “transição justa” tornou-se um conceito central nos relatórios internacionais, mas permanece, em muitos casos, mais perto de uma intenção do que de uma política operacional.
O encontro não se limita a uma sala fechada com chefes de Estado, nem a espaços de negociações só com parceiros vindos de campos específicos dentro da esfera de governos, empresas e organizações não governamentais.
Entre 24 e 27 de abril, vai acontecer um conjunto de diálogos paralelos: academia, sindicatos, povos indígenas, afrodescendentes, camponeses, jovens, mulheres, movimentos sociais, ONGs. Para encontrar a sua proposta setorial às questões levantadas, este trabalho já começou a ser feito em todo o mundo com reuniões setoriais digitais e construção partilhada de documento escrito de propostas previamente enviado por cada inscrito. Ainda dentro de cada setor serão eleitos representantes para levar as propostas à plenária e à fase seguinte da construção do documento final. Parte destes encontros terá lugar na Universidade de La Magdalena, mas muitos estarão espalhados pela cidade.
A ideia é simples: trazer para o mesmo processo atores que raramente têm influência real nas decisões finais. Se isto é inovação ou dispersão, dependerá do que sair dali.
O chamado segmento de alto nível decorre no Hotel Estelar Santamar a 28 e 29 de abril e vai ser um momento decisivo onde ministros, representantes políticos e porta-vozes de diferentes setores se reúnem em plenárias e sessões paralelas organizadas em torno das três questões propostas pela organização: Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis; Como transformar a oferta e a procura de energia; Como reforçar a cooperação internacional.
Este será o momento em que se vai perceber se a conferência produz algo mais do que boas intenções.
O verdadeiro problema é político, falta é alinhar interesses. A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: como financiar, o que acontece aos países cuja dependência económica está diretamente associada aos fósseis e como garantir acesso à energia sem reproduzir desigualdades. E a maior de todas as questões, que é a disponibilidade ou não para quem perde poder neste processo aceitar essa situação.
É aqui que muitas iniciativas falham. E é aqui que Santa Marta será testada.
Conflito económico e político
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis será uma real tentativa para mudar o jogo ou apenas mais uma conferência para tudo ficar como estava antes?
Ao abrir o processo a múltiplos atores e ao descentralizar os debates, a conferência tenta corrigir uma falha estrutural das COP: a distância entre decisão e realidade. Mas esse mesmo modelo traz riscos evidentes. A fragmentação pode diluir a responsabilidade. A ausência de decisões vinculativas pode transformar a ambição em retórica.
Santa Marta, para já, tem o mérito de expor o problema.
Durante décadas, o debate climático foi apresentado como um desafio técnico: reduzir emissões, aumentar eficiência e acelerar renováveis. Hoje, torna-se cada vez mais claro que é outra coisa: um conflito económico e político sobre o futuro do sistema energético global.
E talvez seja por isso que esta conferência gera expectativa. Porque pela primeira vez a pergunta não é confortável. Em Santa Marta, começa-se a discutir perdas, escolhas e conflitos. A questão é quem está disposto a pagar o preço dessa saída e quem vai tentar adiá-la até ao limite.
A conferência surge num momento em que cresce a pressão internacional para avançar com um possível Tratado de Combustíveis Fósseis. Entre o Dia da Terra e o encerramento do encontro, estão previstas mobilizações em várias partes do mundo.
O sinal político é evidente: há uma tentativa de deslocar o centro da ação climática das negociações formais para processos mais ágeis e, potencialmente, mais eficazes.
Em Santa Marta vai medir-se, em tempo real, até onde vai a disposição para romper com um sistema que ainda define economias, conflitos e equilíbrios de poder. Entre plenárias e bastidores, entre propostas e omissões, será possível perceber quem está a redesenhar o futuro e quem continua a protegê-lo como está.
