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O que fazer quando governos e empresas explodem diques?

João Camargo – Investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo
Publicado no Expresso a 16 de Fevereiro de 2026 

Passaram três semanas de dilúvio em Portugal e o discurso público é dominado pelo negacionismo climático. O governo entrega migalhas às populações disfarçando a sua culpa. O que vai valendo, na ausência de instituições que nos salvem, é a solidariedade das pessoas. Mas precisamos de organização popular para nos defendermos

Não há nada inesperado no que está a acontecer. Nada. Pedrógão de novo devastado, oito anos depois do fogo, por cheias. Vieira de Leiria debaixo de água. Os diques rebentam um após o outro: Coimbra, Montemor-o-Velho, Soure. O território onde vivemos está num processo de desertificação, mesmo que a catástrofe da água nos leve para a aflição no imediato. De solos quase sem matéria orgânica ou humidade até lamas saturadas cobertas por metros e metros de água foi preciso menos de um mês. E que se desengane quem ache que quando pararem as chuvas o governo vai acorrer a ajudar a arranjar tudo o que está destruído. Só quem não assistiu ao abandono após os incêndios de 2017 e anos seguintes pode manter essa ilusão. A política é de guerra contra as populações e abandono do território.

Seria risível o anúncio do governo de que dará 500 euros a cada pessoa afectada se não fosse destinado a ser um insulto a todas as pessoas. Um insulto similar àquele de um primeiro-ministro que atribui cheias a barragens espanholas no Mondego ou no Sado. Como não esperar insultos daqueles que há décadas que sabiam que isto ia acontecer, e que vai acontecer muito pior do que isto se continuarmos sem cortar emissões. Como não esperar insultos daqueles que, apesar disso, continuam a empurrar-nos para o abismo do caos climático? Estamos a entrar numa cascata de catástrofes que desmantela os equilíbrios do sistema climático global e que nos está a empurrar para um aumento de temperatura ainda maior do que os 2 a 3ºC. Estão a empurrar-nos para uma situação em que a economia e a sociedade deixam de funcionar.

Em Portugal sofremos diretamente a influência de um Atlântico sobrecarregado de energia e com profundas transformações nas suas correntes, com redução da diferença de temperatura entre o Ártico e as latitudes médias. A proteção dada pelo anticiclone dos Açores não resiste aos anticiclones persistentes que se mantêm na Escandinávia e desloca-se para Sul, enfraquecendo o próprio anticiclone e abrindo caminho ao comboio: Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta, Nils. Em 2017 o furacão Ofélia trilhava um percurso anormal nas águas quentes do Atlântico a 15 de Outubro, virando para a Europa em vez da América do Norte e trazendo consigo ventos fortes. Estes, combinados com temperatura extremamente quente e humidade desértica produziram o dia com mais incêndios alguma vez registado no país, que matou cinquenta pessoas. A guerra que é a crise climática tem um vasto e diverso arsenal de armas. A munição é abastecida todos os dias pelos governos e empresas que não só não cortam as emissões necessárias como as aumentam.

No meio de tudo isto, o comentariado político e mediático vai suspirando de alívio pelo presidente Seguro da normalidade, clamando por três anos de governo para se ir mantendo a catástrofe intocada. E o boy do PSD sem experiência sai da coordenação das renováveis em uma semana e a economia está miserável segundo o ayatollah. Colapsemos em ordem institucional e constitucional, não é? A guerra climática sempre se fez de desinformação e a ideia do normal enquanto um terço do país está debaixo de água e algumas principais vias de transporte estão cortadas é um corolário disto.

Nas últimas semanas, diversas iniciativas populares (de pequena escala) têm levado pessoas e materiais das zonas menos afetadas para as zonas inundadas e destruídas pelas tempestades, carregando coração e solidariedade. São pequenas luzes de esperança e, na verdade, a melhor aposta e inspiração que temos hoje. Cruzam-se no terreno com o trabalho das juntas. Carregam futuro. Precisamos de proteger-nos. As instituições vigentes, governos, empresas, fazem parte de uma esforço de guerra cruel, sádico e inabalável que tem de ser travado. Já não existe qualquer dúvida que o rumo desta guerra se fará de catástrofes climáticas seguidas de abandono e repressão das pessoas. Nem este governo nem os seguintes reconstruirão a maior parte do que foi perdido. Já anunciaram que vão enfiar seis mil milhões de euros nas Forças Armadas enquanto mais catástrofes de grande escala acontecerão. E nós precisamos de proteger-nos de quem nos ataca.

Os territórios e as comunidades precisam proteção. Isso implica apoio direto e o próprio povo tornar várias zonas mais seguras perante o novo clima, perante incêndios, cheias, secas, ondas de calor. Mas significa mais do que isso, porque o clima não está a estabilizar, mas a piorar. Proteção significa também desarmar as bombas que este sistema atira contra nós há décadas, parar as emissões com as nossas mãos. Para nos defendermos, precisamos de organização popular. Quando governos e empresas explodem diques e incendeiam os campos, o que tem o povo que fazer? Proteger-se.

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