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por João Carmargo
Investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo
no expresso a 17 de Junho de 2026

Nove anos depois de 66 pessoas terem perdido a vida numa floresta eucaliptada e abandonada, e escassos meses depois da mesma zona ter sido devastada, entramos no que promete ser um verão infernal. O cenário é pior que em 2017 e não é só em Pedrógão Grande. O legado da tragédia de Pedrógão consolidou-se em todos os anos desde então e este Janeiro vimos caírem a últimas mascaras

Há poucos meses, Pedrógão Grande foi atingido pelo comboio de tempestades que devastou a zona Centro do país. Como em outras áreas afectadas, vastas extensões de floresta foram derrubadas pelos ventos. A maioria absoluta destas dezenas de milhares de hectares de árvores caídas ainda estão no chão. São madeira seca que bloqueia caminhos, estradas e são combustível altamente sensível ao calor. Estão em toda a zona Centro. Os trabalhos de remoção desta madeira foram mínimos, apesar da propaganda de ódio aos pobres que é dizer que agora são os prisioneiros que vão limpar as florestas.

Considerando os últimos anos, em 2026 há risco máximo de incêndio nas regiões de Monchique, Arouca, São Pedro Sul, Tondela, Nelas, Carregal do Sal, Arganil, Oliveira do Hospital, Seia, Gouveia, Guarda, Celorico da Beira, Torre de Moncorvo, Carrazeda de Ansiães. Mas não são só estas zonas. Há áreas afectadas pelo comboio de tempestades de Janeiro que também estão em risco máximo de incêndio, compondo risco em cima de risco: Marinha Grande, Vieira de Leiria, Mira, Fátima, Porto de Mós, Torres Novas, Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Sertã, Sardoal, Mação, Tomar, Vila de Rei, Proença-a-Nova, Covilhã, Rio Maior e… Pedrógão Grande.

Os governos de António Costa abandonavam mas ainda fingiam que eventualmente alguma coisa fariam na floresta e mundo rural. Em Pedrógão Grande, as celuloses tiveram a desfaçatez de ir plantar ainda mais eucaliptos em áreas destinadas a outras espécies. Hoje, estamos num tempo em que as políticas ultraliberais se combinam com a guerra cultural de extrema-direita produzindo um governo antagónico a toda a sociedade que não maneja poder económico, pautando-se pela perseguição aos mais miseráveis na sociedade, pela tentativa de impor um nível ainda maior de precarização laboral e, claro, pelo abandono. Mesmo nas cidades devastadas pelo comboio de tempestades, a política é de abandono. Em vez de exigir às seguradoras que paguem as apólices dos seguros que as pessoas tinham – e menos de metade foram pagas – e reparem casas e cidades, Montenegro ofereceu-lhes um brinde, tornando uma série de seguros obrigatórios, despejando nos bolsos das seguradoras o dinheiro que estas se recusam em tantos casos a pagar.

No Pacífico Equatorial já começou o El Niño. Deverá tornar-se um Super El Niño no próximo mês, quando a temperatura nessa zona do Pacífico ultrapassar 2 graus Celsius acima da temperatura média normal para a altura. Mas este ano, o Super El Niño acontece num contexto de temperaturas globais já extremamente altas, com uma atmosfera com concentrações de gases com efeito de estufa sem precedentes, isto é, com uma atmosfera cheia de energia acumulada. O potencial de devastação é aterrorizante: secas extremas nas costas ocidentais da América do Norte e do Sul, na Amazónia, na África Oriental e por toda a Ásia. Monções em queda na Índia e Sudeste Asiático. Tempestades e tufões muito fortes no Pacífico. E um impacto global: aumentará a temperatura do planeta enquanto durar. A implicação directa é a falha de colheitas, primeiras das quais milho, arroz e trigo na Ásia e na Austrália. Ondas de calor mais longas e quentes, colocando ainda mais pressão sobre os sistemas de água e de eletricidade. Mais fogos florestais e uma época de incêndios mais longa e mortal. O Super El Niño deve durar pelo menos até Dezembro de 2026, provavelmente até Fevereiro/Março de 2027. Meses e meses de caos. O aumento da temperatura deverá fazer deste e do próximo ano os mais quentes alguma vez registados. Isto vai tudo acontecer enquanto há um pico dos preços dos combustíveis e fertilizantes provocado pela situação no Estreito de Ormuz e enquanto um dos celeiros da Europa, a Ucrânia, não consegue produzir como antes por causa da invasão russa. Mais fenómenos de perturbação ambiental, política e social compor-se-ão sobre estes.

Perante a possibilidade de apenas um quarto ou um terço destas realidades serem plausíveis, se existisse um Estado que respondesse perante as populações e que servisse para protegê-las, hoje estaríamos a ver uma mobilização sem precedentes de meios. Estariam mobilizados para salvaguardar populações e evitar fogos, depois de meses a recuperar e casas, edifícios e florestas no pós-Kristin. O que temos é um anti-Estado, que ainda assim emite política pública. Essa política é eucaliptar, abandonar e deixar arder. Há quem diga que em Janeiro se reabriu a ferida em Pedrógão Grande. Mas o país inteiro é a ferida, governo e empresas como as celuloses e as petrolíferas são quem, ano após ano, a abrem mais.

É urgente construir segurança para as comunidades, combater o abandono, deseucaliptizar e florestar o território com espécies autóctones e adaptadas à nova realidade climática, protegendo solos, água e pessoas. E travar as emissões que nos empurram para o colapso. Não será o estado a fazê-lo, terá de ser iniciativa popular. Que seja esse o legado de Pedrógão.