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A origem das ondas de calor e fogos está a ser escondida: só o fim dos combustíveis fósseis nos dá um futuro

por Leonor Canadas, ativista no Climáximo
publicado no Expresso a 9 de Julho de 2026

Efetivamente os culpados e as causas das alterações climáticas e do aumento das temperaturas estão a ser escondidos, invisibilizados, apagados. Isto é estratégico

A crise climática abriu nos últimos dias telejornais, ocupou comentadores e mobilizou painéis inteiros de especialistas. Desta vez não foi porque foram bloqueadas estradas para alertar sobre o desenrolar da crise climática, mas porque a crise climática está a matar e a fustigar populações e territórios de Norte a Sul. O calor sufocante provocou 237 mortes em excesso entre 4 e 7 de julho, naquela que foi a sexta onda de calor deste ano em Portugal. Foram registadas temperaturas até 15 ºC acima da média para esta época do ano. Ao mesmo tempo todo o território está em alerta e já começou a contagem do número de feridos e hectares ardidos em incêndios.

Dado o panorama quente, os media tentaram cobrir os acontecimentos, entrevistaram as populações sobre como estas se protegem do calor e montaram painéis de comentadores para nos “esclarecer” sobre o que se passa e como nos podemos proteger. Perguntou-se aos “especialistas” como nos podemos adaptar às alterações climáticas que se fazem sentir e como nos podemos adaptar às mudanças que ainda estão para vir. Explicou-se os fenómenos de aquecimento e retenção de calor na atmosfera, e os impactos para a saúde pública. Isto está tudo certo, mas toda a conversa recaiu sobre as consequências, assumindo a situação atual como uma inevitabilidade em que não há alternativa senão o caos climático. E após extensa análise é possível verificar que nunca, mas nunca (!) se falou das causas da crise climática e de como podemos efetivamente travar o colapso.

Esta sexta onda de calor terminou, mas o Verão acabou de começar, e vários incêndios permanecem ativos. A crise climática continua visível, mas não se fazem perguntas sobre as suas causas. Pouco se fala de emissões de gases com efeito de estufa. Não se fala de combustíveis fósseis. E jamais se fala das empresas de combustíveis fósseis e outras empresas emissoras, como a Galp, a Navigator, ou a REN. Criticou-se, e bem, a vergonhosa resposta do governo e da ministra do trabalho face à onda de calor (que não surpreende), mas nunca se falou da violência que representa a falta de políticas públicas que assegurem o corte de emissões e o fim do uso de combustíveis fósseis, em conformidade com a urgência requerida para mantermos este planeta habitável.

Diferentes representantes políticos mandaram alertas para que as pessoas tenham cuidado, bebam água e evitem exposição ao sol. Pediu-se que fossem responsáveis face a este fenómeno extremo, e que se protejessem. Às pessoas, as que não escolheram este cenário, as que não têm alternativa senão sair de casa para trabalhar, aquelas cuja casa aquece de forma insuportável – a essas pediu-se que se protejessem e que fossem responsáveis. Ora o que aconteceu ao pedido de esclarecimentos e responsabilidades à Galp, à Navigator ou à REN sobre a sua contribuição para as 237 mortes em excesso e na autoria desta crise planetária? Onde estão as declarações de culpa da ministra da energia e do ambiente e do primeiro-ministro face aos seus planos de tornar este o verão mais fresco das nossas vidas ?

Efetivamente os culpados e as causas das alterações climáticas e do aumento das temperaturas estão a ser escondidos, invisibilizados, apagados. Isto é estratégico. Ao não se falar das causas das ondas de calor, das tempestades trágicas do início do ano, e dos incêndios que pioram ano após ano, não é necessário falar sobre o corte de emissões. Contudo, décadas de ciência climática deixam muito claro de quem é a culpa desta onda de calor e das mortes por ela provocadas: das grandes empresas e governos que perpetuam o uso de combustíveis fósseis e contribuem para o aumento das emissões de gases com efeito de estufa. Deixam também claro que não há adaptação possível ao colapso climático. Esta onda de calor prolongada, fustigante e assassina vem lembrar-nos de forma violenta isso mesmo – ou cortamos emissões, ou a sobrevivência será cada vez mais difícil.

Para os dirigentes económicos, políticos e financeiros deste sistema, como a ministra explanou, pouco importam as vidas das pessoas que trabalham e dos grupos sociais mais vulneráveis (por questões de natureza económica, de saúde ou faixa etária). Se se importassem teriam largado os combustíveis fósseis há muitas décadas. Em vez disso decidiram, para defender os seus lucros, continuar a emitir gases com efeito de estufa, declarando guerra contra as pessoas e a vida neste planeta. Como deixaram claro, está com o povo a responsabilidade de salvar o povo. Não havendo possibilidade de adaptação a um caos climático cada vez mais violento, cabe àquelas que estão a ser atingidas por estes ataques agir em solidariedade umas com as outras, e agir em conjunto para por fim aos combustíveis fósseis.