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A República Acampada

publicado a 31 de Outubro, no Expresso
João Carmago, investigador em alterações climáticas, apoiante do Climáximo

Quando a corda rebenta para o número suficiente de pessoas, não há cassetete ou horário de manifestação que se imponha

O contrato social que mantinha a paz foi rasgado de vez pelas elites e o povo acampou. Passaram vinte dias desde que primeiro a Praça D. João I no Porto e depois a Praça do Rossio se tornaram no centro da vida política do país. Os repetidos e reiterados ataques violentos a estas ágoras improvisadas escancaram a política odiosa que manda no capitalismo português. Das bancadas palacianas da Assembleia da República grita-se ódio ao povo, mas o futuro está na rua.

Rebentou pela habitação como podia ter rebentado por qualquer outros dos items do custo de vida em espiral ascendente, como pelo vertiginosa procura pelo colapso ambiental acelerando todo e cada projeto que, prometendo um euro de lucro, afunda as condições que permitiram termos territórios saudáveis onde prosperar. Mas foi pelas casas que se escancarou o abismo entre o povo e a aliança letal entre Estado e empresas. Um salário médio, mesmo com créditos e afins, não permite viver nas principais cidades do país e, fazendo-se a decisão de ir morar fora, os custos de transportes e o tempo fazem afundar ainda mais o valor do trabalho e tornam a precariedade um problema de saúde, de impossibilidade material, de viver de favor e de crédito até a corda rebentar. Quando rebenta para o número suficiente de pessoas, não há cassetete ou horário de manifestação que se imponha.

É claro que o nosso governo, como a maioria dos governos por essa Europa (e além dela) sabia que isto aconteceria, porque apesar de todos os misticismos economicistas e religiosos que propagandeiam, sabiam que a corda iria partir e que o povo, apesar de todas as ferramentas de alienação montadas numa jaula à sua volta, acabaria por ter de reagir à escassez material quando ela é inultrapassável. Nessa altura nem retóricas nem ameaças o podem manter enjaulado. As elites económicas e políticas decidiram pôr fim aos contratos sociais que vigoravam e que lhes permitiam explorar quem trabalha e os territórios e recursos onde vivemos, permitindo-nos um mínimo de dignidade. Mas já não nos querem permitir qualquer dignidade moral ou política. Essa escolha foi reiterada nos últimos anos – a ascensão da extrema-direita e a politica de extrema-direita de todos os partidos centristas confirma isto.

Portanto, enquanto a rua exige, estoicamente dentro dos limites estabelecidos dentro do contrato social, que haja um alívio no estrangulamento do custo de vida via habitação, os discursos raivosos vindos das fatiotas na Assembleia da República não só prometem aumentar o custo da habitação, da Saúde e da vida em geral, como nos dizem onde vão enfiar esse dinheiro: em mais armas, em militarização e vigilância, em negócios sombrios para empresas privadas. O dinheiro será retirado à vida do povo para poder vigiar, reprimir e até suprimir o povo.

O capitalismo – e aqui é global, não só nacional – não tem nada mais para oferecer aos povos além da violência irrestrita comandada de forma autoritária enquanto as condições materiais se degradam e destroem o futuro de forma irreversível. Pior, no tempo em que o clima e os territórios em que vivemos foram transformados de forma que tudo fica mais difícil, mais quente e mais improdutivo, eles querem mobilizar a sociedade para a violência e para a guerra que só nos podem atirar para o colapso, em vez de um futuro viável.

A república não é uma instituição capitalista, embora em muitos casos tenha servido de porta de entrada para esse sistema estruturalmente anti-democrático e anti-republicano. A coisa pública, o bem comum do povo e não das elites, é a base de democracia. Ao observar-se a discussão e aprovação do Orçamento na Assembleia é muito claro que, em Portugal, a República está acampada.