Mais de 100 artistas e profissionais de todas as áreas da cultura assinam cartas em apoio aos estudantes portugueses, apelando à ação coletiva pelo fim dos combustíveis fósseis até 2030. As cartas convidam o setor da cultura e toda a sociedade a participar na manifestação “O Nosso Futuro Não Está à Venda”, marcada para 22 de novembro.
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Foram hoje lançadas duas cartas do setor da cultura: a Carta Aberta: Cultura pelo Fim ao Fóssil e a Carta Aberta da Indústria da Música pelo Fim ao Fóssil até 2030 e Apoio ao Movimento Estudantil. Juntas, reúnem mais de 100 assinaturas de artistas, músicos, escritores, atores e criadores, incluíndo Capicua, Joana Bértolo, Rui Chafes, Paulo Pascoal, Fado Bicha, Manuel Pureza, Gisela Casimiro, André Carrilho, Bordalo II, Lena d’Água, Manuela Azevedo, Nuno Saraiva, Isabel Abreu e Xinobi.
A Carta da Cultura destaca a importância de amplificar a voz dos estudantes, que desde 2019 têm ocupado escolas e universidades para exigir ação real contra a crise climática, e apela a todos os agentes culturais para que usem as suas plataformas de forma ativa na visibilização da luta por justiça climática.
A Carta da Música reforça o papel da música como motor de consciência social e exige um plano nacional de descarbonização até 2030, o fim do uso e subsídios a combustíveis fósseis e apoio a energias limpas e renováveis, solidarizando-se com os estudantes e sublinhando que “sem futuro, não há música”.
O lançamento das cartas acontece em plena semana de paralisação de escolas e universidades convocada pela Greve Climática Estudantil. Em simultâneo, decorre no Brasil mais uma Conferência das Partes sobre Alterações Climáticas, já criticada pelo facto de o número de lobbistas da indústria fóssil presentes exceder o de todas as delegações de países, exceto a do Brasil.
Afirmando que “a cultura tem o poder de mover consciências, de imaginar e dar forma ao futuro que precisamos de construir”, apelam à participação de pessoas de todos os setores, idades, profissões e origens na manifestação “O Nosso Futuro Não Está à Venda”, dia 22 de novembro, às 15h, no Largo Camões, em Lisboa.
Nesta semana já foram igualmente lançadas outras 3 cartas de apoio aos estudantes e pelo fim aos combustíveis fósseis: a carta dos professores, contando atualmente com mais de 100 nomes de professores universitários e de ensino secundário, vários das escolas em que protestos decorrem; dos profissionais de saúde, contando com Isabel do Carmo – Médica e condecorada com o grau de grande oficial da Ordem da Liberdade – Mónica Pina – presidente da European Association of Breastfeeding Medicine -, André Almeida – médico internista no São Jorge e professor na Universidade NMS -, e Mário André Macedo – enfermeiro especialista em saude infantil e pediátrica, gestor hospitalar -; e mais de 100 mães, pais e cuidadores na carta “Cuidamos do mundo como cuidamos de nossos filhos”. A manifestação deste sabádo conta com mais de 10 organizações apoiantes entre os quais a Associação Habita, o Movimento Cívico Ar Puro, a Federação Nacional dos Médicos e o Sindicato dos Médicos da Zona Sul.
Depoimentos de artistas em apoio aos estudantes pelo Fim ao Fóssil:
Capicua (rapper): “Quem tem filhos e netos tem o dever de defender o seu futuro, mobilizando-se contra os fatores que promovem e aceleram as alterações climáticas. O mais importante deles é a nossa dependência de combustíveis fósseis, sendo que segundo os especialistas, é urgente descarbonizar até ao final da década para aproveitar a derradeira chance de salvação da espécie. A manifestação do próximo dia 22 de Novembro é uma oportunidade para juntarmos as nossas vozes, como humanos, pais, mães, avós, pessoas empáticas e conscientes, que sabem que se há causa unificadora deveria ser a ecologista, para clamar pela nossa sobrevivência no planeta.”
Rui Chafes (artista plástico): “Temos de apoiar e ajudar os mais jovens na sua luta pela justiça climática pois estão, corajosamente, a defender o seu futuro mas, também, o nosso. Em última análise, são eles quem vão cá ficar, herdando um planeta a caminho do colapso ambiental onde será muito difícil sobreviver, se não conseguirmos mudar rapidamente o rumo da sociedade hiper-industrializada e selvática que temos vindo a construir.”
Joana Bértolo (escritora): “A ausência de resposta de sucessivos governos às reivindicações estudantis pela justiça climática é um incumprimento sério da responsabilidade pública e política, e uma falha grave que nos afecta a todos. A ciência valida os argumentos das estudantes. As suas exigências podem soar demasiado ambiciosas, mas são válidas. Ignora-las é um acto de prepotência, com consequências hoje e para gerações vindouras. Como artista, acredito que a cultura deve estar do lado da vida, da justiça, e da mudança de mentalidades e, por isso, apoio os movimentos estudantis pelo fim ao fóssil.”
