Skip links

Estivémos no XI FOSPA, na Bolívia!

Entre os dias 12 e 15 de Junho celebrou-se na capital da Amazónia boliviana, Rurrenabaque, o XI Fórum Social Pan Amazónico (FOSPA). Surgido do processos do Fórum Mundial Social, o FOSPA procura agregar e consolidar as lutas dos povos da pan-amazónia – que engloba o território da floresta mas também os povos andinos e costeiros em seu redor – pela proteção de um dos biomas mais importantas da Terra, que é simultaneamente a luta pela autonomia, justiça e dignidade dos povos originários, tradicionais e camponeses da região. O Climáximo teve o verdadeiro privilégio de estar presente a acompanhar o Fórum, participando depois na reunião internacional da coligação “Mobilização dos Povos pela Terra e pelo Clima” nos dias 15 e 16.

Após 10 edições, o FOSPA foi realizado na Bolívia e esta escolha não foi por acaso. A Bolívia é um dos países mais pobres da América Latina, atada à dívida global com o Norte, marcada por séculos de colonialismo, e altamente dependente da extração de recursos como o gás e minerais. Ao mesmo tempo, é um dos países onde a classe trabalhadora está mais e melhor organizada – não nos podemos esquecer das Guerra da Água em 2001 em Cochabamba, onde milhares saíram às ruas contra a privatização do sistema de água municipal (privatização essa que era uma condição do Banco Mundial para renovar o seu empréstimo ao país).

De momento a Bolívia atravessa uma crise política com o deterioramento do partido do governo Movimiento al Socialismo (MAS) cuja figura principal era Evo Morales, que galvanizou milhões de pessoas em apoio popular no início dos anos 2000 com a bandeira da auto-determinação indígena, a proteção da Pachamama (Mãe Terra), e o socialismo. Entre corrupção e acumulação de poder, o partido encontra-se dividido entre Morales e Arce, atual presidente. Desta forma, as organizações de base indígena, a maior força social da Bolívia, – o país tem pelo menos 37 nações indígenas reconhecidas – foram sendo fragilizadas ao longo dos últimos anos devido à cooptação dos seus líderes por parte do governo Plurinacional. O FOSPA na Bolívia tinha então um objetivo-chave: consolidar as lutas indígenas dos territórios de base e dar força às lideranças, reafirmando a sua força a nível nacional e internacional.

Marcha de Abertura do XI FOSPA, em Rurrenabaque

O FOSPA abriu com uma Marcha dos Povos, onde o Climáximo esteve presente.

Durante os seguintes 3 dias, Rurrenabaque foi palco deu voz a centenas de organizações de base indígenas, campesinas, de mulheres, tradicionais e operárias dos 9 países da pan-Amazónia, contando com mais de 1500 pessoas.
Uma das lutas mais destacadas foi Yasuní, um referendo popular ganho no Equador em Agosto passado em que a população demonstrou que prefere preservar a vida (humana e não humana) no parque nacional do Yasuní, do que permitir que as grandes empresas explorassem petróleo no território do parque, condenando milhares de pessoas e espécies à morte. Contra a manipulação dos grandes media, que afirmavam que os poços no Yasuní seriam uma riqueza para todo o país, o movimento ganhou o referendo através da mobilização popular massiva e foi aprovado não só um grande NÃO para as empresas, mas também a desmantelação das atuais infraestruturas de petróleo no parque bem como um processo de pagamento e reparações às comunidades indígenas afetadas pela anterior exploração.
Agora, o governo quer voltar atrás na decisão mas o movimento pela justiça climática equatoriano e o povo indígena Guarani já afirmaram: Yasuní veio para ficar.
Yasuní é um exemplo não só de que as empresas e os governos declararam guerra contra a vida, mas que esta guerra pode ser vencida.

Destacou-se também as lutas contra as grandes empresas mineiras que, por toda a pan-amazónia, tornam as águas dos rios tóxicas e enganam as comunidades locais prometendo este mundo e o outro.

Na Bolívia, destaque para o minério do ouro bem como os mega-projetos de exploração de lítio que, sem o consentimento informado prévio das comunidades que vão afetar, extraem os recursos sem nunca ninguém ver um cêntimo ou benefício.
Não é esta a transição energética que queremos – reafirmamos a necessidade de uma transição energética que seja realmente justa para os povos e baseada em necessidades reais, o que implica uma mudança estrutural no sistema económico e energético mundial.

Ouviram-se também testemunhos em primeira mão dos danos causados pelas compensações dos mercados de carbono no departamento de Putumayo (Colômbia); a luta das organizações de mulheres por justiça e contra a epidemia de assédio sexual e feminicídios que varre as comunidades mais pobres na pan-amazónia; a luta contra a expansão da fronteira do agronegócio na floresta e a soberania alimentar dos povos; e a incansável luta por reparações históricas para os afetados pelas tragédias do rompimento das barragens de Mariana e do Brumadinho, no Brasil.

Um outro grande tema foram os incêndios que devastaram a Amazónia boliviana o ano passado.
Visitámos uma comunidade indígena pertencente ao povo Tsimane, onde um dos representantes contou à delegação do FOSPA como tinham lutado contra o fogo com as suas próprias mãos devido ao atraso de vários dias dos bombeiros.

A devastação nefasta da crise climática é universal: também em 2022, os portugueses protegeram as suas casas e lutaram contra os fogos que arrasaram Portugal, num Verão que bateu recordes e que queimou, mais uma vez, milhares de hectares em Portugal. Todas as conclusões dos grupos de trabalho do FOSPA podem ser lidas aqui.

Visita à comunidade indígena San José de Canaan, onde os líderes locais nos contaram como tinham lutado contra os fogos florestais em redor da sua comunidade com as suas próprias mãos. Destacaram também a falta de soberania alimentar e dependência de alimentos nocivos das cidades que adoecem as suas crianças, devido ao gradual desaparecimento das espécies que caçavam.

E para quem mora fora da Pan-Amazónia, o que podemos retirar do FOSPA?

O FOSPA demonstrou que os govenos e as empresas declararam guerra à sociedade e ao planeta, e para muitos povos do mundo essa resistência começou em 1500. A usurpação de terras, a desflorestação do território, o empobrecimento das comunidades, a intoxicação de rios e solos, a violência, os assassinatos e os desaparecimentos de quem fala, os incêndios, e a mineração intensiva na Amazónia são as veias abertas da guerra declarada à Humanidade. É a mesma guerra que em Portugal planta a monocultura do eucalipto, queima gás e combustíveis fósseis extraídos de contextos cheios de violência, e esburaca sem escrúpulos nem propósitos as serras transmontanas sem o consentimento das comunidades. E essa é a mesma guerra que matou 66 pessoas em Pedrógão Grande em 2017, que em Meca matou mais de 500 peregrinos por calor, que coloca em marcha um genocídio na Palestina, e que no Rio Grande do Sul deixou milhares desalojados devido às cheias.

A Amazónia representa um ponto de não retorno: a proteção dos seus biomas e dos seus povos é a diferença entre ficar abaixo ou ultrapassar os 1.5ºC (o limite físico definido pela ciência). A guerra declarada por governos e empresas é global, e vai ter de ser lutada pelos povos de todo o mundo. Sem uma mudança sistémica a nível global, não é possível manter a Amazónia viva nem, consequentemente, travar o colapso climático. É da responsabilidade do Norte Global, cuja dívida histórica e climática para com o Sul Global é incalculável, acabar até 2030 com os combustíveis fósseis e cortar mais de metade das suas emissões de gases com efeito de estufa. Este é um processo de transformação social em larga escala que terá diferentes aspectos em diferentes países mas que terá de ser feito de forma justa para as comunidades do Norte e em solidariedade com o Sul, numa missão histórica e verdadeiramente internacionalista rumo à justiça climática global. Sabemos, no entanto, que os governos e as empresas não vão fazer aquilo que é necessário – afinal, elas estão do lado oposto da História.

É por isso que do XI Fórum Social Pan Amazónico saiu um chamamento desde a Amazónia a que as organizações, movimentos e povos de todo o mundo construam um acordo sistémico pela vida que assuma o falhanço do Acordo de Paris e tome nas suas próprias mãos a necessidade de agir contra o capitalismo e o colonialismo, e pela justiça climática. Estar em solidariedade com os povos da Amazónia e lutar pela vida, lá como cá, é assumir a responsabilidade de entrar em resistência climática e travar a guerra que o capitalismo declarou à sociedade.

Cerimónia de fecho do XI FOSPA. O grupo das mulheres destacou: os nossos corpos e os nossos territórios não se tocam, não se violam, não se matam. Corpos e territórios livres de violência!

Leave a comment