Artigo das 11 de Abril
Maria Mesquita, António Assunção, Mourana, Hugo, Sara, Ana Maria, Sílvia, Ideal, Viriato, Matias, Sofia
Nos próximos dias 22, 23 e 24 de Abril vamos estar sentados no banco dos réus por termos participado num protesto político. A escassos dias dos 50 anos do 25 de Abril, nem sequer somos os únicos – nos últimos tempos, os casos de julgamentos e condenações de pessoas que pararam de consentir com este sistema que nos leva ao colapso climático e social acumulam-se nos tribunais e as penas pesam nos ombros.
Este ano celebramos as lutas que, com a força do povo a sair às ruas e de todos os resistentes que deram a vida a organizar-se contra um sistema injusto, derrubaram uma ditadura e acabaram com uma guerra mortífera que só ao regime servia. Hoje, é hora de fazer frente à realidade: estamos a viver a maior ameaça que a Humanidade alguma vez já enfrentou – a crise climática. Esta ameaça não é um acidente. É uma guerra declarada por governos e empresas ao planeta e à sociedade. Há cinco décadas que sabiam que a queima de combustíveis fósseis iria levar ao colapso civilizacional através da degradação das condições de vida. No entanto, eles escolheram continuar a fazê-lo, num ato coordenado e premeditado cuja única (irracional) lógica é a acumulação de riqueza.
Agora, quem sofre as consequências somos nós, as pessoas normais que não fizeram nenhuma destas escolhas. Estamos no 10º mês consecutivo mais quente de sempre, a seca ameaça o país, os incêndios devastam florestas e as ondas de calor matam pessoas todos os anos. Ao mesmo tempo, a extrema-direita ascende e a repressão a protestos políticos aumenta. Este é o colapso climático em tempo real. Como sucessivamente nos mostram, os governos, as instituições e as empresas não vão resolver isto – delegar-lhes essa responsabilidade seria como pedir ao ditador que ponha fim à ditadura.
A poucos dias do 50º aniversário do 25 de Abril, é forçoso perguntarmo-nos: o que estavam as pessoas que defendiam a vida e a liberdade a fazer há 50 anos atrás? Certamente não estavam de braços cruzados à espera que a ditadura caísse por si própria. Durante décadas, toda a dissidência quer contra a ditadura, quer contra a guerra, era punida cruelmente extra-judicial e judicialmente, com tribunais políticos cujo objectivo era preservar a estrutura do regime. Tudo o que fizeram foi ilegal, foi contra a lei vigente e, caso tivessem falhado, seriam seguramente julgados e condenados. Mas o que pensam hoje as pessoas sobre aquilo que foi feito a 25 de Abril e nos meses que se seguiram? Tal como em muitas outras transformações sociais como o fim da escravatura e o voto da mulher, a História ilibou os resistentes. O fim da ditadura fascista em Portugal só foi possível porque o povo veio para as ruas e porque, acima de tudo, deixaram de consentir com um sistema injusto e com a guerra. Nada daquilo seria possível se quem estava vivo em Abril de 1974 tivesse consentido com o regime ou tivesse esperado que o próprio Salazar ou Marcelo Caetano lhe pusesse fim. Hoje, temos de fazer o mesmo: parar de consentir com um sistema que nos está a matar.
Celebramos as lutas dos que vieram antes de nós, mas não podemos fazê-lo ignorando que estamos a viver durante a maior crise da história da Humanidade e que somos nós, todas as pessoas vivas neste momento, que temos a agência para a travar. Este julgamento não é sobre nós os 11, é sobre como é que daqui a 50 anos se vai contar o que fizemos para travar a guerra contra a vida. Só a resistência climática popular pode mudar o sistema e evitar o colapso climático.
Sabemos quem são os verdadeiros criminosos, sabemos que se sentam nos governos enquanto nós nos sentamos no banco dos réus. Sabemos que se sentam em jactos de luxo enquanto nós sofremos as consequências das cheias, das secas, da fome e dos incêndios. Recusamos aceitar a guerra e o colapso que a continuação da normalidade acarreta. Temos a responsabilidade de não consentir com a destruição da vida, temos o direito e o dever de continuar a lutar por tudo o que amamos de todas as formas que possíveis e necessárias. Para isso precisamos de todas as pessoas. Quando daqui a 50 anos contarem a História de como a sociedade travou a crise climática, de que lado estavas?
Onze de Abril: Maria Mesquita, António Assunção, Mourana, Hugo, Sara, Ana Maria, Sílvia, Ideal, Viriato, Matias, Sofia.
