Fórum Mundial Social, Cotonou, Benim
Estivemos no Fórum Social Mundial de 4 a 8 de agosto em Cotonou, no Benin, na África Ocidental.
O Fórum Social Mundial nasceu em 2001 em Porto Alegre, Brasil, num contexto de crescente questionamento da globalização neoliberal. Foi concebido no início como um contra-espaço às políticas do Fórum Económico Mundial de Davos. Já foram realizadas 16 edições em todo o mundo, sendo esta a 6ª vez que o Fórum regressa a África.
O apelo para este Fórum Social Mundial foi convocado e organizado pela plataforma Convergence Global de Luttes pour la Terre et l’Eau – Ouest Africaine (CGLTE – OA), uma plataforma que agrupa movimentos com dezenas de milhares de camponeses em diversos países da África Ocidental (Mali, Niger, Senegal, Guiné, Togo, Benin, etc).
A grande força deste Fórum deriva da Caravana da África Ocidental pelo Direito à Terra, à Água e à Agroecologia Camponesa, organizada pela CGLTE-OA e que celebra este ano a sua 5ª edição. A Caravana é uma grande mobilização feita por camponeses, pequenos agricultores, pequenos pastoralistas, organizadores, ativistas e apoiantes que procura organizar as comunidades na África Ocidental e visibilizar as suas lutas pelo direito à água, à terra e às sementes camponesas.
Nesta região, a guerra que os governos e as empresas declararam às pessoas e ao planeta manifesta-se em secas prolongadas, a usurpação de terras camponesas por parte de grandes empresas para o agronegócio, e o patentear de sementes camponesas por parte de grandes empresas (e consequente retirada da soberania alimentar às comunidades, fazendo-as depender de multinacionais). Além disso, o legado do colonialismo e as relações neocoloniais entre os Estados da Europa e da África Ocidental são gritantes: dívidas externas impagáveis, controlo financeiro, exploração dos recursos naturais, intervenção na soberania nacional, etc. Quem sai prejudicado são sempre os povos que, com a corda ao pescoço com as agressivas políticas imperialistas e neocoloniais de roubo das suas terras, água e meios de subsistência, escolhem lutar até ao fim.
Esta edição da Caravana da África Ocidental incluiu dois eixos: o eixo do Sahel (Mauritânia, Guiné-Bissau, Gâmbia, Senegal, Mali, Burquina Faso, Níger), que começou no Senegal, passou pelo Mali, Burkina Faso e Togo e terminou em Cotonou, no Benin; e o eixo costeiro (Guiné, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Togo) que teve o seu ponto de partida na Guiné, atravessou a Costa do Marfim, o Gana e o Togo, onde se uniu ao eixo do Sahel e seguiram juntos para Cotonou. A novidade desta edição foi a Caravana da África Central (Gabão, República Centro-Africana, RDC, Congo, Camarões, Chade), que partiu dos Camarões com destino a Cotonou passando pela Nigéria. No total, foram 3 rotas percorridas por mais de 500 pessoas para chegarem ao Benin.
A fervilhar no Fórum estava também o entusiasmo face aos processos revolucionários pan-africanistas e anti-imperialistas em curso no Burkina Faso, Níger e Mali. A Aliança dos Estados do Sahel defende os conquistas da revolução democrática e popular: a soberania recuperada, a justiça social e a governação participativa. Estes ideais reforçam a coesão regional, protegem os recursos nacionais e colocam o povo no centro das decisões, abrindo caminho para um desenvolvimento autodeterminado e sustentável.
Esta edição do Fórum não aconteceu sem incidentes graves de repressão e tentativas de intimidação por parte do governo de direita do Benin. Após dificuldades em passar a fronteira, a Caravana da África Ocidental foi intercetada por parte das autoridades e mandada sair do país. Finalmente, e com um dia de atraso, o governo permitiu a entrada da Caravana e o Fórum teve início no dia 5 de agosto com centenas de pessoas a receberem a Caravana na Universidade de Abomey-Calavi. É de notar que o governo do Benin deportou também vários ativistas internacionais que cruzavam as fronteiras para participar no Fórum, inclusive nacionais do Haiti, Suíça e Finlândia, numa tentativa de intimidação. Dado o histórico entre o Benin e o Haiti, unidos pela diáspora forçada de milhões de pessoas africanas durante os três séculos que durou o Tráfico Trans-Atlântico de pessoas escravizadas para trabalhar nas colónias europeias nas Américas, a deportação de haitianos é particularmente grave. Podes ler aqui a declaração por parte da delegação do Haiti.
Estamos em solidariedade com os povos da África Ocidental que lutam pela terra, pela água, e pelas sementes. Viva a luta dos povos do mundo contra a guerra e o imperialismo fóssil e extrativista!
On n’est pas fatigué, nous irons jusqu’au bout! (Não estamos cansados, iremos até ao fim!)