Eu só ia trabalhar. Eram 8 horas da manhã. Em vez disso, recebi uma mensagem do meu pai: está com cancro de bexiga em fase 4B, vai entrar em quimioterapia dentro de cinco dias e a partir daí a vida de toda a minha família vai mudar. Os resultados do PET chegaram só nessa manhã. Na semana anterior não deu para fazer os testes, porque o hospital ficou sem eletricidade, porque a minha cidade inteira ficou sem eletricidade durante várias dias, por causa de cheias. As cheias aconteceram duas semanas atrás, os vizinhos do rés-do-chão ainda estão a tentar limpar a cozinha. Nós, só ficámos a espera de que o hospital voltasse a funcionar. A minha cidade, Esmirna, tem 4 milhões de habitantes. 4 milhões de pessoas com vidas paralisadas.
No ano passado, o meu pai não tinha nada. Fizeram-lhe biópsia e operaram-no. Nenhum sinal de tumores foi encontrado. Agora está em fase 4B.
Perdemos uma semana de tratamento graças à crise climática. Não sabemos quantas rondas de quimioterapia é que isso acrescentou ao tratamento.
O meu pai só quis fazer as análises. Eu só quis ir trabalhar. A minha amiga Rehema na Tanzânia só quis descansar um dia, mas esteve durante semanas numa campanha de apoio mútuo após deslizamentos de terra que mataram 80 pessoas. Tudo isto, nos mesmos quatro dias. O meu pai passou o dia em ansiedade. Eu passei o dia em ansiedade. A Rehema respondeu ao meu e-mail a pedir desculpas pelo atraso na sua resposta. Nada faz sentido…
Nos mesmos quatro dias, no Dubai, o CEO de uma petrolífera que preside à Cimeira do Clima disse que não há ciência sobre a necessidade de se acabar com os combustíveis fósseis. Uma semana depois, os governos assinaram um papel a dizer que a indústria dos combustíveis fósseis pode continuar descansada. Daqui a 52 semanas, vão fazer outra cimeira. Entretanto em Espanha, as temperaturas, em dezembro, atingiram os 30ºC. Nada faz sentido…
Não sabemos quantas semanas mais teremos até não conseguirmos aguentar mais.
No dia em que recebi a mensagem do meu pai, eu fui trabalhar. Estamos numa auto-estrada para o inferno climático, com o nosso pé no acelerador. Alguém se sente no chão e bloqueie a estrada. Temos mesmo de parar e falar.
Como era a vida na Alemanha em 1937? Quem ia trabalhar? Do que se falava ao jantar? Quem eram os futebolistas mais famosos da altura? Se alguém dissesse que era necessário parar a normalidade e falar sobre o estado de emergência em que estamos, como responderiam as pessoas? Qual é uma resposta adequada ao colapso da civilização?

